Menu
2019-06-11T09:58:05+00:00
Daniele Madureira
Daniele Madureira
Daniele Madureira é jornalista freelancer. Formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, tem pós-graduação em Jornalismo Social pela PUC-SP. Foi editora-assistente do site Valor Online, repórter dos jornais Valor Econômico, Meio & Mensagem e Gazeta Mercantil. Colaborou com as revistas Exame, Capital Aberto e com a edição do livro Guia dos Curiosos.
A novela da supertele

Perto de um final feliz? Ações da Oi atraem investidores, mas disputas internas de poder preocupam

Em meio à recuperação judicial, operadora espera mudança no marco regulatório e chama a atenção de investidores como George Soros e Victor Adler, mas está longe de resolver problemas

11 de junho de 2019
5:58 - atualizado às 9:58
oi orelhão
Imagem: Divulgação Oi

Eu preciso confessar: sou fã de novelas. Uma trama bem escrita, com interpretações contundentes, uma direção primorosa e com uma pegada na atualidade, na minha opinião, consegue ser tão boa quanto um bom livro.

É claro que a maioria dos enredos que se sucedem nas telinhas não preenche todos esses quesitos, mas existem ótimos exemplos de dramalhões globais, desde as icônicas Roque Santeiro e Vale Tudo, passando pelo humor de Rainha da Sucata e Guerra dos Sexos, o romantismo de A Cor do Pecado e Além do Tempo, o suspense de A Favorita e A Próxima Vítima, até o “fenômeno” Avenida Brasil que fez, literalmente, o país parar para assistir o último capítulo em 2012.

O megainvestidor George Soros também parece gostar de um bom novelão. No mês passado, a despeito de todo o imbróglio envolvendo a operadora de telefonia Oi, que nos últimos três anos vem encabeçando a maior recuperação judicial da América Latina, o Soros Fund Management aumentou em 123,36% a sua participação na empresa.

Apesar de dobrar a aposta, a fatia do fundo na companhia é pequena, está abaixo dos 5% do capital social, e gira em torno de US$ 8 milhões. Eu não sei se Soros está inteirado de todos pormenores da trama da Oi, mas esta é uma “soap opera” que acompanho desde os tempos de trainee...

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter

Nos capítulos anteriores...

Em 1998, a antiga operadora estatal do Rio de Janeiro, Telerj, deu origem à Telemar, que em meio à privatização do setor de telecomunicações promovida pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso ficou responsável por nada menos que 16 Estados do Norte, Nordeste e Sudeste do país.

Desde então houve uma sucessão de percalços: a empresa trocou de assinatura (passou a adotar o nome Oi, antes destinado apenas à telefonia móvel, após o desgaste com as reclamações envolvendo o nome Telemar); comprou outra concessionária, a Brasil Telecom, com a ambição de se tornar uma “supertele nacional”, operação criticada por receber bilhões de dinheiro público; participou de uma fusão malsucedida com a europeia Portugal Telecom, que aumentou ainda mais o seu passivo.

O endividamento se tornou estratosférico – R$ 65 bilhões – e, no final de 2016, a Justiça aprovou o plano de recuperação judicial da Oi. Tudo isso em meio à beligerante disputa acionária entre a Pharol (ex-Portugal Telecom) e a Société Mondiale (de Nelson Tanure), que contribuiu para que a empresa somasse nada menos que 14 presidentes em 21 anos de vida – um ano e meio de mandato, em média, para cada um. O penúltimo presidente, Marco Schroeder, chegou a registrar em ata ter sofrido ameaças à sua integridade física.

Siga o mestre?

A dúvida que fica ao final dessa temporada é: se a vida não está fácil para a Oi – palco de conflitos de interesse, motivados por soberba, ambição, ira e inveja – por que George Soros resolveu aumentar a aposta na companhia? Será que é a hora de o investidor brasileiro, literalmente, seguir o mestre?

Outro investidor conhecido que assumiu uma posição relevante na Oi foi Victor Adler, que passou a deter 5,32% do capital da operadora por meio de um fundo. Adler é também um dos principais acionistas da Eternit, outra empresa que está em recuperação judicial.

Há quem recomende, com cautela, a compra dos papeis, ancorada na esperança da aprovação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 79/2016, que cria um novo marco das telecomunicações no Brasil. Mas alguns especialistas que eu ouvi pedem mesmo que o investidor fique com um pé atrás e não assuma papel de coadjuvante nessa trama, contentando-se em sentar na janelinha para assistir aos próximos capítulos.

Ruído no conselho

A recente renúncia do conselheiro independente Ricardo Reisen no início do mês é a prova de que as coisas não mudaram muito na governança da Oi, que no passado chegou a tomar dívida para pagar dividendos aos seus acionistas.

“Reisen pediu demissão porque votou contra a remuneração de conselheiros com ações da companhia”, diz me disse um analista que acompanha a operadora. Não há nada de errado neste tipo de prática, mas não é o momento, ressalta.

Para o analista, a compra de ações da Oi só faz sentido para quem aposta no sucesso de três fatores que ainda permanecem como incógnita no mercado: a aprovação do PLC 79 (que na prática retira das teles as obrigações de concessão de serviço público de telefonia fixa, e elas passam a operar o serviço como autorizadas); a compra da Oi pela TIM e a consequente sinergia entre os serviços das operadoras; a execução bem-sucedida dessa fusão. “Caso contrário, babau”, diz o analista.

Oficialmente, Ricardo Reisen protocolou uma carta de renúncia e disse que a sua saída se deve a motivos pessoais. Mas deixou claro no texto a necessidade de novos aportes de capital na companhia para enfrentar os tempos bicudos e deu uma cutucada nos acionistas:

“A título meramente especulativo, a discussão de alternativas estratégicas ou táticas tais como, a extensão da RJ como forma de proteção legal à companhia por mais um período ou, o aporte, de agora sim, novos recursos de fato por parte dos acionistas, são alternativas a serem exaustivamente exploradas e justificadas”, afirma Reisen na carta.

“A última é particularmente um interessante exercício para testar a falácia da entrada recente de, assim chamados, novos recursos, uma vez que o aporte de cerca de R$ 4 bilhões era parte inerente do PRJ [plano de recuperação judicial], sem os quais todos os stakeholders perderiam suas posições, com todos, portanto, já tendo ajustado seus retornos financeiros para tal evento. Com relação a este último ponto, vale destacar que os principais bondholders/acionistas backstoppers se remuneraram por tal fato, bem como todos os acionistas que aportaram recursos viram seu capital apreciar cerca de 30% no período”.

Comprar ou não comprar?

Entre as casas que mantêm a recomendação de compra para Oi está o Bradesco BBI. “Em termos operacionais, a situação é complicada, e 2021 já será um problema se não houver a reforma do setor de telecomunicações”, diz Fred Mendes, analista do banco. Segundo ele, mesmo com a aprovação do PLC 79, a Oi precisa ser comprada ou se unir a alguém.

“Mas a ação traz uma relação risco/retorno interessante, pelo fato de a Oi ser a operadora mais beneficiada com a mudança na LGT [Lei Geral de Telecomunicações]”, diz.

Para Mendes, a ação tem potencial para subir de 20% a 30%. O analista do Bradesco BBI lembra que a operadora gasta cerca de R$ 600 milhões por ano para cumprir as obrigatoriedades por ser uma concessão – enquanto a Vivo, da espanhola Telefónica, que tem a concessão para o Estado de São Paulo, desembolsa algo entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões.

“Pelas regras atuais, a Oi tem até sete dias para instalar uma linha fixa em qualquer lugar do país, por mais difícil que seja o acesso, caso contrário é multada”, diz. Na opinião de Mendes, todo esse dinheiro gasto com concessão, a partir da aprovação do PLC 79, poderia ser aplicado em banda larga, o foco de todas as operadoras.

O projeto de lei, porém, está parado com a relatora, senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), que não informa prazo para concluir o seu parecer.

“A lei precisa ser atualizada. Em 1998, a telefonia fixa era o grande produto, mas hoje é a banda larga, com o FTTH”, diz Mendes, referindo-se aos investimentos em “fiber to the home”, a tecnologia que coloca fibra óptica dentro da residência (como faz a Vivo). Trata-se de um investimento mais caro do que a rede de cabo (como faz a NET), mas é a opção mais adequada para quem deseja explorar as novas tecnologias. A própria Oi já disse que o FTTH é uma das suas prioridades.

“Nos primeiros dias de 2019, concluímos o aumento de capital proposto no plano de recuperação judicial, de R$ 4 bilhões, que está financiando a aceleração do plano de investimentos, que é a base para a reestruturação do negócio. O foco é FTTH oferecendo banda larga de alta velocidade, e expansão da rede 4G e 4,5G, preparando-a para a tecnologia 5G, quando estiver disponível no país”, disse a operadora, por meio de sua assessoria de imprensa.

Em resposta aos questionamentos do Seu Dinheiro sobre o andamento do plano de recuperação judicial, a companhia informou que hoje é assessorada por três consultorias. “Oliver Wyman, que atua no gerenciamento da implantação de fibra em um nível de granularidade extremamente alto para conseguir retornos mais altos; o BCG, que está revisando o plano estratégico da Oi, olhando para a companhia no longo prazo e elaborando os planos de execução; e o Bank of America, que está trabalhando na venda de ativos não essenciais e oportunidades de M&A, garantindo o financiamento necessário para a implementação do plano estratégico”.

Vai ter casamento no final?

Na opinião do analista do Bradesco BBI, todas as operadoras seriam beneficiadas de certa maneira com o PLC, que aumenta a previsibilidade para o investidor. As mudanças podem ser mais favoráveis a quem tem concessão de telefonia fixa – Oi e Vivo –, mas a primeira ainda teria mais vantagens, por conta dos custos com o tamanho da sua operação. A Claro, do grupo mexicano América Móvil, já opera nas três frentes da telefonia – móvel, fixa e banda larga, essas últimas com as marcas NET e Embratel.

Para a italiana TIM, porém, falta a conexão direta com o cliente na banda larga – o TIM Fiber tem alcance limitado. Neste sentido, para muita gente, a fusão da TIM, vice-líder em telefonia móvel, com a Oi, dona de uma rede de 360 mil quilômetros no país, e uma base de 56,6 milhões de clientes, seria perfeita.

“Mas será que a Oi vale o tamanho da dívida?”, questiona um fornecedor do setor de telecom. Segundo ele, a Oi tem feito a lição de casa, pagando os fornecedores em dia, voltando a investir, mas precisa de mais capital para se manter competitiva.

Se não passar à alçada da TIM, é possível que seja fatiada entre os principais concorrentes, dependendo das mudanças na lei. “A venda de partes da Oi facilitaria a vida da concorrência, que ficaria sem um rival e cada uma com o pedaço que lhe interessa da operadora”, afirma.

Para ele, faria mais sentido o governo fomentar o mercado das operadoras regionais, que se tornariam parceiras das grandes teles para chegar até a casa do cliente, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos. Fora isso, existe a própria evolução da tecnologia, com a chegada do 5G, uma realidade no setor em 2021. “Se eu sou a TIM e tenho 5G, que permite a banda larga ultrarrápida no celular, será que eu vou precisar estar na casa do assinante com fibra?” Para saber a resposta desta e de outras questões, leitor, é preciso ficar ligado nas cenas dos próximos capítulos.

Comentários
Leia também
Um self service diferente

Como ganhar uma ‘gorjeta’ da sua corretora

A Pi devolve o valor economizado com comissões de autônomos na forma de Pontos Pi. Você pode trocar pelo que quiser, inclusive, dinheiro

Seu Dinheiro na sua noite

Insiste em zero a zero e eu quero um a um

Você disse que não sabe se não. Mas também não tem certeza que sim. Se Djavan fosse um analista de mercado, representaria o sentimento dos investidores sobre o que vai acontecer com as taxas de juros no país. Para muita gente, não é mais uma questão de “se”, mas de “quando” a Selic vai cair. […]

Tá liberado!

Governo amplia setores autorizados a trabalhar aos domingos e feriados

A partir de hoje, 78 setores estão autorizados a funcionar nesses dias. Entre os novos segmentos está o comércio em geral

Agora vai?

Leilão de ativos da Avianca Brasil acontecerá no dia 10 de julho

Colegiado de desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo liberou a decisão sobre a na manhã de ontem

Preenchendo a vaga

À espera de aprovação do nome de Montezano, BNDES nomeia presidente interino

Nome do atual diretor de finanças da instituição, José Flávio Ferreira Ramos, foi indicado para ocupar o posto provisoriamente

O rombo em forma de dados

Mansueto: dos 26 Estados mais DF, 14 gastam acima do limite de 60% com pessoal

Percentual abordado pelo secretário o Tesouro Nacional foi estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal

Olha eles aí outra vez

Deputados favoráveis à reforma da Previdência defendem volta da capitalização e de Estados

Sessão para debates sobre o relatório na comissão especial da reforma da Previdência na Câmara contou com várias defesas dos pontos retirados

negócio fechado

Embraer assina cooperação estratégica com a Elta para desenvolver P600 AEW

Com o acordo, as duas empresas criam um novo segmento de mercado, o de AEW; aeronave de última geração foi concebida para atuar em um novo segmento do mercado

acelerou! (um pouquinho)

Preço médio dos imóveis residenciais sobe 0,29% em maio em 10 capitais, diz associação

A Abecip avaliou, em nota, que as altas nos preços dos imóveis residenciais na maioria das capitais ainda não resultam em uma recomposição dos valores dos imóveis em termos reais.

temos um impasse

Virtualmente demitido, presidente dos Correios diz que só deixa o cargo com pedido formal

Bolsonaro disse na última sexta-feira que demitiria o presidente dos Correios pelo comportamento “sindicalista”; mas ele não deixou o cargo: ontem foi trabalhar normalmente e disse, em palestra, que só sai com formalização da demissão

Blog da Angela

Nativos e gringos soltam o verbo e mercados comemoram

Discurso afinado de relator sobre capitalização na Previdência anima; Draghi levanta a bola e Trump corta com categoria – para o Federal Reserve

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements