Under pressure: aversão ao risco e noticiário local fazem Ibovespa cair mais de 1%
Em meio às incertezas da guerra comercial e ao clima de cautela em função do noticiário doméstico, o Ibovespa teve mais um pregão negativo

Eu gosto muito de rádio: enquanto dirijo, fico trocando freneticamente de estação, alternando entre músicas e notícias. E, na manhã desta segunda-feira (26), não foi diferente: a caminho do trabalho, enquanto pensava no Ibovespa e no dólar à vista, eu cruzava a zona oeste de São Paulo — e ia pulando de emissora em emissora.
E, entre as diversas manchetes, canções e entrevistas, uma linha de baixo prendeu a minha atenção: simples, elegante e marcante. Era a abertura de Under Pressure, clássico do Queen com a participação de David Bowie.
Depois de alguns segundos de introdução, Freddie Mercury e o camaleão do rock entram e cantam, a plenos pulmões: "Pressure / Pushing down on me / Pushing down on you / No man ask for". Ou, numa tradução livre:
Pressão / Me esmagando/ Te esmagando / Ninguém merece isso
Confesso: eu não sou um grande fã de Queen. Mas, desde hoje cedo, essa música está na minha cabeça. E, ao ver o Ibovespa cedendo às pressões locais e externas, não tive como não lembrar ainda mais do dueto entre Freddie Mercury e David Bowie — ou da linha de baixo de John Deacon.
Afinal, o principal índice da bolsa brasileira até começou o dia bem, tocando os 98.435,96 pontos logo após a abertura (+0,79%). No entanto, o Ibovespa rapidamente perdeu força e virou o campo negativo, terminando em baixa de 1,27%, aos 96.429,60 pontos — o menor nível de fechamento desde 5 de junho.
E, assim como nas últimas semanas, o noticiário externo trouxe cautela às negociações por aqui. Lá fora, a guerra comercial entre Estados Unidos e China segue nos holofotes, gerando preocupação aos mercados em escala global — e, em meio à turbulência, os ativos de países emergentes acabaram sendo os mais penalizados.
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No entanto, o panorama doméstico também foi motivo de preocupação para os agentes financeiros. Os recentes atritos entre os governos do Brasil e da França, tendo como pano de fundo a crise na Amazônia, não são bem vistos pelo mercado; além disso, o noticiário envolvendo o BTG Pactual trouxe uma dose extra de estresse às negociações.
O mercado de câmbio também segue pressionado: o dólar à vista avançou 0,36%, a R$ 4,1395 — na máxima, chegou a tocar os R$ 4,1630, o maior nível em termos intradiários desde 19 de setembro (R$ 4,1767). Lá fora, o a moeda americana exibiu tendência semelhante em relação às demais divisas de países emergentes.
Já as bolsas americanas conseguiram passar por um alívio: o Dow Jones subiu 1,05%, o S&P 500 teve alta de 1,10% e o Nasdaq exibiu ganhos de 1,32%. E o que explica essa diferença de comportamento em relação ao Ibovespa?
Is this the real life?
Na última sexta-feira (23), as tensões comerciais entre Estados Unidos e China chegaram a um novo patamar após os governos de Pequim e de Washington elevarem as tarifas de importação entre si — e após o presidente americano, Donald Trump, elevar o tom e fazer críticas agressivas ao governo chinês.
Contudo, o republicano deu algumas declarações nesta manhã, buscando esfriar um pouco os ânimos. Segundo Trump, o governo americano recebeu duas ligações de autoridades de Pequim na noite do último domingo. O republicano afirmou que os países retomarão as negociações comerciais "em breve" e de "forma muito séria", dizendo ainda ter respeito pelo presidente chinês, Xi Jinping.
E, por mais que o governo chinês tenha negado os contatos telefônicos, o tom mais ameno usado por Trump diminuiu o pânico nos mercados — o que abriu espaço para que as bolsas americanas recuperassem parte das perdas recentes. Só que esse otimismo não contamina as bolsas mundiais.
Conforme destaca Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, a aversão global ao risco por causa da instabilidade na guerra comercial segue elevada. A fala de Trump, assim, serve para trazer algum alento aos mercados americanos, mas não diminui a cautela em relação aos ativos mais arriscados, como os de países emergentes.
"Há cerca de duas semanas, começamos a ver um descolamento maior dos emergentes em relação ao mercado americano", pondera Beyruti. "E, hoje, vemos que a aversão ao risco ainda está alta. Isso gera um movimento de busca por ativos seguros que acaba nos desfavorecendo".
Assim, o Ibovespa mergulhou novamente no campo negativo e o dólar à vista voltou a ganhar força em relação ao real: em meio às incertezas e instabilidades da guerra comercial, os agentes financeiros preferem reduzir a exposição aos ativos mais arriscados e correm para opções mais seguras.
No caso do mercado acionário, essas alternativas seriam os papéis de empresas americanas; no câmbio, a preferência acaba ficando com o dólar.
Is this just fantasy?
Mas analistas e operadores também destacam que o noticiário local não coopera para melhorar o humor dos mercados por aqui. A crise na Amazônia, somada às trocas de farpas entre o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e da França, Emmanuel Macron, traz desconforto aos agentes financeiros.
Por mais que os países do G7 tenham definido ajudar o Brasil a combater os incêndios florestais na Amazônia, o bate-boca público entre Bolsonaro e Macron não é bem visto pelos mercados, uma vez que pode mexer com a percepção do Brasil no exterior e trazer instabilidade às negociações. "Isso não é nada bom", me disse um operador.
Além disso, um segundo fator no front local contribuiu para piorar ainda mais o humor por aqui: a possibilidade de envolvimento do BTG Pactual num esquema de lavagem de dinheiro, conforme revelado num primeiro momento pelo site O Antagonista.
A Polícia Federal estaria investigando "esquemas extremamente sofisticados" de lavagem de dinheiro — a denúncia, cuja íntegra foi disponibilizada pelo site, foi feita em 2016, por uma fonte anônima ligada ao banco. Em nota, o BTG negou qualquer irregularidade.
Como resposta, as units do BTG Pactual (BPAC11) fecharam em forte baixa de 18,48%, a R$ 46,46. Os demais papéis do setor bancário também fecharam no campo negativo, com destaque para Banco do Brasil ON (BBAS3) (-0,47%) e Bradesco PN (BBDC4) (-1,03%).
Caught in a landslide
Por aqui, o real segue mostrando dificuldade para retomar o terreno perdido, e nem mesmo a venda de mais um lote de US$ 550 milhões no mercado à vista pelo Banco Central trouxe maior tranquilidade às negociações de câmbio no mercado doméstico — essas operações vão até o dia 29.
Vale lembrar, ainda, que o BC continuará com as ofertas de moeda no mercado à vista em setembro: na última sexta-feira, a autoridade anunciou que ofertará até US$ 11,6 bilhões a partir de 2 de setembro.
E o estresse visto no mercado de câmbio local acompanha o movimento visto no exterior: lá fora, a divisa americana ganha força em relação às demais moedas emergentes, caso do peso mexicano, do rublo russo, do peso chileno e do rand sul-africano, entre outras.
No escape from reality
O novo dia de pressão sobre os ativos emergentes e o fortalecimento do dólar à vista acabaram fazendo com que as curvas de juros avançassem em toda a sua extensão.
Na ponta curta, os DIs para janeiro de 2021 subiram de 5,43% para 5,51%; no vértice longo, as curvas com vencimento em janeiro de 2023 fecharam em alta de 6,44% para 6,59%, e as para janeiro de 2025 foram de 6,94% para 7,06%.
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