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O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, participou de um painel da CEO Conference, evento do BTG Pactual, nesta terça (10); confira os principais pontos da sua fala
A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, marcada pelo uso do espanhol e pela celebração da identidade latina, tornou-se o evento mais visto da história da liga de futebol americano, mas Donald Trump não gostou.
O republicano criticou duramente a performance do porto-riquenho, mas, no campo econômico, o ritmo é de aproximação com a América Latina.
Em painel mediado por André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual, durante a CEO Conference 2026, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, mandou uma mensagem clara: o foco econômico dos Estados Unidos também está no sul global.
“Estados Unidos em primeiro em lugar, não significa que os EUA querem estar sozinhos”, disse Bessent.
A CEO Conference 2026 começou nesta terça-feira (10) e continua na quarta-feira (11). Os painéis podem ser acompanhados aqui, com inscrição gratuita.
Chamado pela imprensa de “adulto na sala”, o secretário do Tesouro dos EUA afirmou que o governo Trump 2.0 busca uma reindustrialização acelerada, na qual a América Latina — e especialmente o Brasil — pode atuar como um parceiro-chave no "novo sonho americano" de produtividade e tecnologia.
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“O governo Obama perdeu uma grande oportunidade de se aproximar da América Latina. Muitos países queriam e continuam querendo estar mais perto dos EUA. Estamos otimistas com Argentina, Bolívia, Venezuela, Brasil e Chile — países que queremos apoiar”, afirmou.
Bessent fez questão de citar a boa relação com a Argentina, eleita uma parceira na América do Sul ainda no primeiro mandato de Trump.
“Conseguimos apoiar [Javier] Milei no período eleitoral. Usamos as forças do mercado para que ele não perdesse apoio. Fortalecemos a economia argentina e conectamos ao governo dos EUA, com isso, o presidente argentino obteve maiorias importantes”, afirmou.
O secretário do Tesouro norte-americano referia-se às eleições legislativas de outubro do ano passado, quando os candidatos do partido governista do país vizinho conquistaram maioria para renovar metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado argentino.
Ele também citou a Venezuela, depois que os EUA invadiram o país e retiraram Nicolás Maduro do poder logo nos primeiros dias de 2026.
“A intervenção e extradição de Maduro mostraram o poder militar dos EUA. As pessoas na Venezuela estão cooperando. Acho que é uma parceria muito boa, que levará a uma eleição direta em algum momento”, disse Bessent, acrescentando que “na Argentina, os EUA mostraram o poder econômico e, na Venezuela, o poder militar”.
O braço direito de Trump ainda citou o apoio financeiro que está sendo costurado com o Banco Mundial e com o Fundo Monetário Internacional (FMI) na Bolívia e disse que o Chile “passou por um tempo de insanidade, mas está se recuperando” — uma referência à eleição de José Antonio Kast em dezembro do ano passado, em uma guinada do país para a direita.
Sobre o Brasil, Bessent celebrou a proximidade atual entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
“A relação entre o Brasil e os EUA começou turbulenta, mas agora está mais próxima, e acredito que só tende a ser benéfica para ambos os países”, afirmou.
Se a América Latina é vista com otimismo, a relação com as potências tradicionais passa por um ajuste fino. Bessent detalhou como o governo Trump enxerga a concorrência com a China e a dinâmica com os aliados na Europa e no Japão.
Segundo o secretário do Tesouro, o objetivo não é o isolamento, mas um reequilíbrio que ele considera necessário.
“No fim do dia, queremos que nossos aliados europeus sejam bem-sucedidos. A Europa é um hub de inovação, mas fracassou no plano econômico. Agora, o que vemos são empresas europeias tendo problema com relação à transição energética, e uma Europa preocupada com a enxurrada de produtos chineses em seu mercado”, afirmou.
Sobre a China, Bessent disse que a situação “é bem mais confortável agora”, embora tenha reconhecido que a rivalidade entre as duas maiores economias do mundo nunca deixará de existir.
“Temos rivalidade, mas queremos uma rivalidade justa; não queremos nos desacoplar da China. Temos uma relação produtiva, mas sempre seremos concorrentes”, afirmou ele, acrescentando que “os EUA lideram a corrida da IA [inteligência artificial], mas sabemos que, no longo prazo, a China vai reequilibrar essa dinâmica”.
O braço direito de Trump também falou sobre um importante aliado na Ásia: o Japão, que viveu eleições legislativas históricas no domingo (8), depois que a primeira-ministra Sanae Takaichi ampliou a maioria no parlamento.
“Ela é uma líder com bastante energia. É dinâmica, focada e foi ousada ao convocar eleições antecipadas, que entraram para a história do Japão. Ela assumiu um risco alto, mas o retorno também foi grande. Agora o Japão entenderá que é o fim de uma era”, afirmou.
O papel do dólar no comércio global continua sendo um pilar inegociável para o Tesouro norte-americano. Em meio às discussões sobre a fragmentação das cadeias de suprimentos, Bessent reforçou o compromisso com a estabilidade da divisa.
Ele reiterou sua posição histórica de suporte à moeda, afirmando que a "política para o dólar significa que queremos manter os fundamentos para nossa moeda seguir forte”.
“Queremos tornar os EUA o lugar mais atraente para os investidores, com garantia de crédito, regulação mais avançada e fortalecimento do ambiente da manufatura”, acrescentou.
Para Bessent, o desempenho do dólar deve estar alinhado com a saúde da economia norte-americana — cujo crescimento está projetado em 4,1% por trimestre durante o governo Trump, segundo Bessent.
“Temos uma solução nos EUA que mira o crescimento não inflacionário. Reduzimos a regulação e criamos espaço do lado da cadeia de suprimentos, tudo isso em meio ao maior shutdown [paralisação do governo] da história”, afirmou.
Ele explicou ainda que, em algum momento, a política de arrecadação do governo Trump por meio de tarifas comerciais vai ceder espaço para a tributação, que deve acompanhar a volta das empresas estrangeiras aos EUA e também a expansão das próprias empresas norte-americanas.
Um dos pontos mais aguardados do painel foi a visão de Bessent sobre a produtividade e a independência do Federal Reserve.
Com a indicação de Kevin Warsh para presidir o banco central norte-americano, o secretário do Tesouro acredita que o Fed ganhará uma visão mais conectada com a realidade.
“Gostaríamos de alguém com a mente aberta no Fed, não de um defensor de taxa de juros baixa. Esse é um dos motivos pelos quais Kevin Warsh foi selecionado, além do seu histórico. Ele entende muito de investimento privado em tecnologia, tem a mente aberta para isso”, afirmou.
Warsh foi indicado por Trump para substituir Jerome Powell, que deixa o cargo em maio deste ano. Powell também foi indicado por Trump ainda no primeiro mandato do republicano, mas o presidente do Fed virou um desafeto do chefe da Casa Branca por manter juros que Trump considera elevados. Atualmente, a taxa nos EUA está entre 3,50% e 3,75% ao ano.
Ao ser questionado sobre o futuro do trabalho e a ameaça da automação, Bessent deixou um recado para os jovens:
“O que eu digo aos filhos dos meus amigos é: sejam nativos em IA”, acrescentando que a tecnologia não vai roubar empregos, mas deslocar as vagas para outras atividades.
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