Outra façanha de Trump: a maior paralisação da história dos EUA. Quais ações perdem e quais ganham com o shutdown?
Além da bolsa, analistas ouvidos pelo Seu Dinheiro explicam os efeitos da paralisação do governo norte-americano no câmbio

Não deu para Barack Obama e muito menos para Bill Clinton. Foi Donald Trump que quebrou mais um recorde — daqueles que nenhum presidente gostaria de ter no currículo: o maior shutdown da história dos EUA. Nesta quarta-feira (5), o governo norte-americano completa 36 dias de paralisação em meio a troca de acusações entre republicanos e democratas sobre o impasse.
Os prejuízos estão sendo empilhados: funcionários federais estão sem salário, a economia opera às cegas, com a divulgação limitada de dados, e a assistência alimentar aos mais pobres foi interrompida pela primeira vez. Mas a bolsa de Nova York não sente o golpe.
Desde que o governo ficou sem autorização para continuar gastando, o S&P 500 acumula alta de 2%, enquanto o Nasdaq já avançou 2,61%, e o Dow Jones, 1,4%. No ano, os ganhos são ainda maiores: 18,5%, 28,4% e 12,7%, respectivamente.
E quem explica por que os investidores — ainda — não têm motivos para temer a paralisação do governo norte-americano é Enzo Pacheco, analista da Empiricus Research.
“Outubro foi caracterizado por uma divergência importante nos índices norte-americanos, com teses mais focadas em inteligência artificial (IA), especialmente as big techs, puxando o mercado”, afirma.
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Para citar dois exemplos, a Alphabet — holding que controla o Google — acumulou valorização de 30% no mês passado, enquanto a Nvidia subiu 10% no período.
O economista Andrew Foran, da TD Economics, lembra que, nas paralisações de 2013 e de 2018/2019, os mercados de ações até caíram como reação inicial, mas se recuperaram logo depois.
“No fim das contas, os mercados são impulsionados muito mais por fatores externos aos desdobramentos políticos”, disse.
Shutdown nos EUA: as ações que ganham e perdem na bolsa
Ainda que o mercado esteja passando batido, pelo menos por enquanto, pela maior paralisação da história do governo dos EUA, há vencedores e perdedores do shutdown — e aí vale dar um passo atrás para olhar para as empresas norte-americanas.
Segundo Pacheco, a temporada de balanços nos EUA tem mostrado uma diferença nos hábitos de consumo do norte-americano: a alta renda segue forte, enquanto a baixa renda, que mais sofre com a paralisação, tem consumido menos.
“Se demorar muito tempo para o impasse no Congresso norte-americano se resolver, podemos ver algum impacto maior no consumo e aí as empresas dos setores de consumo discricionário e de bens de consumo sofrem mais”, diz o analista da Empiricus.
Do lado dos vencedores, estão as maiores empresas do mundo — todas elas ligadas à IA.
“Como essas empresas são as maiores e melhores, mais rentáveis, podem funcionar como um amortecedor para o mercado: se o investidor começar a se preocupar com esse evento, provavelmente vai comprar essas empresas porque não tem muito erro”, diz Pacheco.
Segundo ele, essas companhias respondem por 30% do peso do S&P 500 e “mesmo que as outras sofram, é possível que o índice tenha uma performance positiva”.
Pacheco ainda reforça: “um ponto fundamental é que o final do ano é sazonalmente favorável para as bolsas dos EUA”.
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E dólar?
A história mostra que o dólar apresentou uma reação levemente negativa durante as paralisações de outubro de 2013 e dezembro de 2018. Após esse período, a moeda norte-americana se desvalorizou moderadamente e permaneceu abaixo do valor pré-paralisação por algum tempo em ambos os episódios.
Embora o dólar tenha retornado ao valor pré-paralisação duas semanas após o fim do shutdown de outubro de 2013, permaneceu abaixo do valor pré-paralisação por dois meses após o fim da paralisação de dezembro de 2018.
“Mantendo-se todos os outros fatores constantes, isso sugere que os maiores riscos políticos associados a paralisações mais longas podem ter efeitos mais duradouros no mercado de câmbio”, diz Foran.
O economista da TD chama atenção para outro fator: o corte de juros nos EUA. Na última quarta-feira, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) reduziu a taxa em 0,25 ponto percentual (pp), colocando-a na faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano.
“Considerando um Fed dependente de dados que pode em breve perder o acesso a esses indicadores, o potencial para maior volatilidade nos mercados de câmbio durante a paralisação não deve ser descartado”, acrescenta.
Na terça-feira (4), o dólar atingiu uma nova máxima em quatro meses em relação ao euro, com as divisões no Fed aumentando as dúvidas sobre a possibilidade de outro corte na taxa de juros este ano.
O euro caiu pela quinta sessão consecutiva, recuando 0,3% para US$ 1,148 — a menor cotação desde 1º de agosto. Já o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, fechou em alta de 0,34%, a 100,224 pontos — o maior nível desde 1º de agosto.
Esse avanço foi uma extensão da valorização da moeda norte-americana após a reunião do Fed da semana passada, quando o presidente Jerome Powell sugeriu que outro corte em dezembro não estava garantido.
Por aqui, o dólar à vista subiu 0,77% ontem (4), cotado a R$ 5,3989. Mas, no ano, a moeda norte-americana acumula baixa de 6,7%.
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