A escolha de Trump que mexe com o seu bolso: quem é Kevin Warsh e como a troca no comando do Fed afeta os seus investimentos
O Senado norte-americano ainda precisa validar a indicação, e o mercado dá os primeiros sinais sobre o futuro da credibilidade do banco central nos EUA; entenda o que pode acontecer com a bolsa, o dólar, o ouro e a renda fixa agora

A distância em linha reta entre Washington, D.C. e São Paulo é de algo em torno de 7,6 mil quilômetros, ou 10 a 12 horas de voo sem escalas. No entanto, o impacto do que acontece na sede do Federal Reserve (Fed) na rua XV de novembro, onde está localizada a B3, é imediato.
Nesta sexta-feira (30), essa conexão direta se deu pela escolha do novo presidente do banco central norte-americano. O segundo mandato de Jerome Powell no comando do Fed acaba em maio deste ano.
Apesar de nunca ter cumprido as ameaças de demiti-lo, Donald Trump abriu as portas para seu desafeto ir embora: escolheu Kevin Warsh para liderar a autoridade monetária mais importante do mundo.
O Seu Dinheiro fez um perfil de Warsh e você pode conhecer o futuro chefe do Fed, cuja indicação ainda precisa passar pelo Senado dos EUA, aqui.
Só que mais do que conhecer o perfil de Warsh, o que está em jogo é a taxa de juros norte-americana, considerada a mãe de todas as taxas — quando ela mexe, o mundo inteiro recalcula a rota.
Neste caso, os investidores precisam considerar a turbulência que Trump vem provocando nos mercados com a pressão sobre o Fed por juros mais baixos.
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Repetidamente, o presidente norte-americano disse que escolheria um novo chefe do BC mais dovish, ou seja, favorável ao afrouxamento monetário dos EUA.
Kevin Warsh vai derrubar os juros como Trump quer?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares e, neste momento, o mercado acredita que a credibilidade do Fed está preservada — assim que a indicação de Warsh foi feita por Trump, os movimentos de queda dos futuros norte-americanos foram amenizados.
“[Warsh] estará mais preocupado com como a história verá seu histórico do que em continuar bajulando o presidente", disse Samuel Tombs, economista-chefe dos EUA da Pantheon Macroeconomics.
Apesar disso, Tombs afirmou que “é razoável supor que ele tenha dito a Trump que apoia a redução das taxas de juros hoje, caso contrário não teria sido indicado".
Ainda assim, o perfil mais hawkish (favorável ao aperto monetário) de Warsh diminui a percepção de risco de captura política total do banco central norte-americano por Trump, diferentemente dos demais candidatos cotados, como Rick Rieder, da BlackRock, e Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional dos EUA, segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, indica que o ponto central segue sendo a preservação da independência do Fed.
“Parte do mercado parece enxergar Warsh como uma possível figura de transição, capaz de reduzir ruídos políticos sem comprometer a credibilidade da instituição”, afirmou.
Para Luis Ferreira, CIO do EFG Private Wealth Management, a nomeação de Warsh importa menos como uma opinião sobre os juros e mais como um teste sobre a resiliência do arranjo institucional que sustenta a credibilidade do Fed.
"Parte do ruído veio da pressão por juros mais baixos e de controvérsias administrativas reportadas no noticiário que alimentaram a percepção de risco institucional justamente no coração da moeda de reserva global", afirma.
Bolsa, dólar, ouro e renda fixa: o que pode acontecer com Warsh no comando do Fed
Não eram nem 9h da manhã desta sexta-feira (30) quando Trump anunciou a indicação de Warsh para chefiar o Fed no lugar de Powell, cujo mandato acaba em maio. Portanto, os mercados nos EUA e no Brasil não haviam iniciado as negociações do dia.
Ainda assim, a bolsa e o câmbio reagiram imediatamente. O índice DXY, que mede a força do dólar ante outras moedas fortes, reduziu os ganhos para 0,10%, a 96,38 pontos. Em Nova York, os futuros desaceleraram as perdas. Já o Ibovespa futuro reagiu em baixa.
“Para o Brasil e os emergentes, o impacto [da escolha de Warsh] pode ser de pressão via dólar forte e yields [rendimentos dos títulos] globais mais altos no curto prazo, com a projeção de juros caindo mais lentamente”, diz Zogbi, da Nomad.
Ela também chama atenção para o fato de a expectativa de uma postura mais dura de Warsh pressionar, no curto prazo, ações de crescimento e de tecnologia pela expectativa de custos mais elevados.
Thiago Calestine, economista e sócio da Dom Investimentos, diz que a indicação de Warsh tende a ser positiva para o Brasil.
Segundo ele, a postura mais dura Warsh com relação aos preços pode resultar em uma inflação menor nos EUA. Neste caso, os juros cairiam como Trump deseja, mas pelos motivos certos.
“Essa taxa de juros mais baixa nos EUA faz com que o dólar aqui permaneça comportado por mais tempo ante o real. Além disso, o investidor deve continuar buscando ativos denominados na moeda brasileira”, disse Calestine.
O Ibovespa vem colecionando recordes desde o final do ano passado, entre outros fatores, por aumento do fluxo estrangeiro, que tem buscado mercados emergentes por retornos maiores e diversificação ao dólar diante das políticas de Trump.
O principal índice da bolsa brasileira chegou à marca inédita de 186 mil pontos nesta semana. O dólar à vista, por sua vez, renovou uma série de mínimas, chegando a ser cotado a R$ 5,1659 durante a sessão de quinta-feira (29).
“Se os juros caírem nos EUA, o Brasil fica ainda mais atrativo para o gringo, e isso pode ser muito bom para a nossa economia. Na verdade, juros baixos nos EUA são bons para todo mundo, já que fazem o custo de oportunidade global diminuir”, acrescentou Calestine.
Entre os metais, que também vinham renovando recordes, tanto o ouro como a prata reagiram com a queda de preços. O ouro chegou a cair 7%, enquanto a prata recuou mais de 10% assim que a indicação de Warsh foi anunciada por Trump.
“A mudança no comando do Fed tende a ter pouca influência sobre o preço do ouro. Essa influência, no entanto, pode ocorrer posteriormente, a depender das decisões de política monetária, especialmente se houver novos cortes de juros nos EUA”, afirmou Mauriciano Cavalcante, economista da Ourominas.
Em um cenário de juros menores, segundo ele, “pode haver uma realização maior do investimento em ouro e procura por títulos norte-americanos, além dos investimentos de maior risco”.
Por que a indicação de Warsh e o que ele vai fazer com os juros nos EUA importam para o seu bolso?
Os especialistas são unânimes em dizer que entender o que acontece em Washington, mais especificamente na sede do Fed, é requisito básico para qualquer investidor brasileiro que não queira ver seu patrimônio ser atropelado pelo cenário global.
O dólar, a bolsa e a renda fixa estão na linha de frente de qualquer mudança da política monetária norte-americana.
| Ativo | Juros sobem nos EUA | Juros caem nos EUA |
|---|---|---|
| Dólar | Tende a subir (moeda forte) | Tende a cair (moeda fraca) |
| Ações (B3) | Sofrem com a fuga de capital | Ganham com o apetite ao risco |
| Treasury (título dos EUA) | Yield (rendimento) sobe, preço do título cai | Yield cai, preço do título sobe |
1. Ímã do dólar
O mercado financeiro funciona sob a lógica do risco versus retorno. Os títulos da dívida dos EUA (Treasurys) são considerados os investimentos mais seguros do mundo.
- Juros altos nos EUA: atraem capital do mundo todo. Investidores tiram dinheiro de mercados emergentes, como o Brasil, para buscar a segurança e a rentabilidade em dólar. Menos dólar circulando por aqui significa dólar mais caro frente ao real.
- Juros baixos nos EUA: o investidor aceita correr mais risco em outras regiões do mundo para obter ganhos maiores. O dinheiro flui para o Brasil, aumentando a oferta de moeda estrangeira e fazendo o dólar cair.
2. A bolsa brasileira (B3) no cabo de guerra
Para a bolsa, o efeito é direto e muitas vezes doloroso. O Ibovespa sente o impacto por dois canais principais:
- Custo de oportunidade: se os juros nos EUA sobem, o investidor estrangeiro — que representa grande parte do volume da nossa bolsa — pensa: "Por que vou arriscar em ações de uma petroleira ou mineradora no Brasil se posso ganhar 5% ao ano com risco quase zero nos EUA?". O resultado é venda de ações e queda no índice.
- Valuation: as empresas são avaliadas pelo fluxo de caixa futuro trazido a valor presente. Quando os juros globais sobem, a taxa de desconto aumenta, o que, matematicamente, faz o valor das empresas diminuir hoje.
3. Renda fixa: o efeito dominó na Selic
Você pode achar que sua aplicação em CDB ou Tesouro Direto só depende do Banco Central brasileiro, mas o Fed dita o limite do nosso jogo.
- Inflação importada: se o Fed sobe juros e o dólar dispara aqui, os produtos importados e as commodities (gasolina, trigo etc.) ficam mais caros. Isso gera inflação no Brasil.
- Reação do BC: para segurar essa inflação e evitar uma fuga massiva de capitais, o Banco Central brasileiro é muitas vezes forçado a manter a Selic mais alta. Se o diferencial de juros entre Brasil e EUA for pequeno, ninguém quer investir aqui pelo risco-Brasil.
Portanto, segundo os especialistas, a grande lição para a pessoa física é a diversificação: ter uma parte do patrimônio dolarizada não é apenas apostar na alta do dólar, mas se proteger contra o risco de um cenário no qual os juros norte-americanos forcem o real para baixo.
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