O juízo final da sua carteira de ações chegou? O que a Kinea ensina sobre a IA e a armadilha das pechinchas na bolsa
Inspirada no filme Exterminador do Futuro, a gestora analisa o impacto da inteligência artificial no mercado, e lista quais empresas já ganham em produtividade — e valem a pena investir

Se a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 reconfigurou a manufatura global, 25 anos depois são os agentes de inteligência artificial (IA) que surgem como a nova força produtiva, prometendo redesenhar o caixa das empresas e os investimentos.
A Kinea Investimentos usa exatamente esse paralelo para descrever o momento atual dos agentes de IA. Para a gestora, o mundo corporativo atravessa seu próprio "Dia do Juízo Final" — emprestando a metáfora do filme Exterminador do Futuro 2, um clássico de ficção científica de James Cameron.
E, assim como aconteceu com a China, a pergunta para o investidor não é se as máquinas vão avançar. Elas já avançam. A questão é: onde estará o dinheiro quando o sistema estiver plenamente operacional?
Do chatbot ao agente de IA: uma virada de jogo
Durante anos, a inteligência artificial generativa ficou restrita ao papel de assistente de conversas, que respondia perguntas, redigia textos e sugeria ideias. Era um copiloto útil, mas limitado.
O salto para os agentes muda essa lógica de forma radical. Um agente de IA não responde a um prompt isolado. Ele recebe um objetivo, elabora um plano, aciona ferramentas externas — bancos de dados, APIs, sistemas de gestão —, corrige os próprios erros no caminho e só para quando a missão está concluída.
Segundo a Kinea, os modelos mais avançados de IA já conseguem realizar tarefas equivalentes a dez horas de trabalho de um desenvolvedor de software júnior.
Leia Também
Do déficit fiscal à IA: o que está em jogo para os mercados com as eleições dos EUA, segundo o UBS
Vale lembrar que o ChatGPT, quando foi lançado, era capaz de fazer o equivalente a apenas alguns segundos de trabalho.
Agora, a progressão é vertiginosa: no ritmo atual, em menos de dois anos, os modelos devem ser capazes de entregar o que um analista leva mais de uma semana para produzir.
Um estudo da própria Anthropic — empresa por trás do Claude — mapeou em quais atividades os agentes permitiriam executar tarefas ao menos duas vezes mais rápido.
Em computação e matemática, 94% das tarefas aparecem como teoricamente expostas a esse ganho de produtividade. Em funções administrativas, o índice chega a 90%.
Leia também:
- China coloca time nacional em campo para forçar a queda das ações de IA na bolsa
- A tesoura invisível da IA: como a tecnologia já está acabando com empregos e mudando o jeito de investir
- O pior da IA nas bolsas ainda está por vir: o alerta de Nassim Taleb e da Citrini Research que derrubou ações mercado afora
- Nvidia contra os profetas da catástrofe da IA: para Jensen Huang, há “erro de cálculo”; UBS vê fantasma de volta aos mercados
O mundo corporativo já se mexeu — mas devagar (ainda)
Embora o potencial seja vasto — com funções administrativas e de computação apresentando mais de 90% de tarefas teoricamente expostas a ganhos de produtividade —, a adoção real ainda caminha abaixo dessa capacidade, de acordo com a Kinea.
Em computação, por exemplo, apenas 33% das tarefas são efetivamente executadas por IA hoje, devido a barreiras regulatórias e limitações técnicas, ante um potencial de 94%.
No entanto, a gestora crava que o movimento é irreversível: 50% das empresas do S&P 500 mencionaram iniciativas com agentes em suas teleconferências de resultados.
E os exemplos que surgem desse grupo são reveladores, especialmente para o investidor pessoa física que quer entender quais empresas estão saindo na frente.
As empresas que já colhem resultados com agentes de IA
- UnitedHealth: 3 milhões de ligações por dia, em 18 segundos
A maior seguradora de saúde dos Estados Unidos está usando agentes de IA para responder mais de 3 milhões de ligações de segurados por dia, o equivalente a 80% da demanda de atendimento.
O tempo médio de resposta caiu para 18 segundos. Para uma empresa que opera em escala continental com um produto de alto grau de complexidade regulatória, esse número é impressionante.
- Block (Square): menos funcionários, mais lucro por cabeça
A empresa de pagamentos fundada por Jack Dorsey anunciou a redução de cerca de 10 mil para menos de 6 mil funcionários — uma queda de 40% no quadro.
O CEO foi explícito: agentes de IA permitem uma operação muito mais enxuta.
Mas o detalhe mais revelador não é o corte em si. É o fato de que o lucro bruto por funcionário da Block atingiu o maior nível da história — e seguia crescendo mesmo antes do anúncio do corte. Isso significa que a produtividade já estava subindo antes de a faca cair.
Dorsey disse ao mercado que prefere agir de forma decisiva agora, eliminando gordura corporativa via automação, a sofrer rodadas sucessivas de demissões que destruiriam o moral da empresa.
Os agentes já gerenciam desde a detecção de fraudes até o suporte ao cliente, permitindo que a receita cresça enquanto os custos fixos recuam.
- J.P. Morgan: US$ 2 bilhões em economias anuais
O maior banco do mundo em valor de mercado — com mais de US$ 4 trilhões em ativos e 300 mil funcionários — investe US$ 20 bilhões por ano em tecnologia e já consegue, segundo o CEO Jamie Dimon, gerar US$ 2 bilhões anuais em economias com inteligência artificial.
Lançada em 2024, a plataforma interna LLM Suite integra modelos da OpenAI e da Anthropic e já alcançou 200 mil funcionários globalmente.
Ela cria apresentações para a área de banco de investimento em poucos segundos — o que antes levava horas de analistas júniors.
O diretor de analytics do banco, Derek Waldron, descreveu bem a virada: os profissionais deixarão de ser “criadores” de relatórios para se tornarem “revisores” e gestores de equipes de agentes.
O banco já projeta redução de pelo menos 10% do quadro de operações nos próximos cinco anos.
- C.H. Robinson: 40% mais entregas por funcionário
Na logística, a C.H. Robinson implementou um sistema de agentes duplos que automatizou praticamente todo o ciclo de entregas.
O processo que antes envolvia receber e-mails de cotação, calcular preços, agendar coleta, acompanhar transporte e emitir fatura agora é feito inteiramente pela IA.
E em escala: a empresa realiza cerca de 37 milhões de entregas por ano, com mais de 100 mil operações automatizadas por dia.
O resultado? Produtividade 40% maior por funcionário e redução de 12% nas despesas operacionais.
- Amazon: o e-commerce que virou laboratório de IA
A Amazon está embutindo agentes em todas as camadas do negócio ao mesmo tempo.
O assistente de compras Rufus, alimentado por IA, reduziu o tempo de compra em 4,5 vezes durante o Prime Day.
No marketplace, 1,3 milhão de vendedores já utilizam ferramentas de IA generativa, economizando até 60 horas por semana em tarefas de precificação e gestão de estoque.
Em janeiro de 2026, a Amazon cortou 16.000 posições. O comunicado oficial não mencionou IA. Mas memorandos anteriores do CEO Andy Jassy já deixavam claro que agentes substituiriam funções inteiras. A mensagem nas entrelinhas era inequívoca.
Itaúsa, Copel e mais: Franklin Templeton revela as ações favoritas para investir agora na bolsa
O exterminador de valuations: a armadilha das ações baratas
Se a chegada dos agentes de IA abre oportunidades em algumas frentes, a Kinea alerta que em outras ela funciona como um exterminador silencioso de valuations — e aqui o investidor pessoa física precisa ter atenção redobrada.
Fevereiro deste ano foi o mês em que Wall Street olhou para a nova realidade nos olhos. A velocidade do lançamento de soluções como o Claude Co-Work, da Anthropic, fez o mercado questionar algo que parecia sólido: as barreiras de entrada das empresas de software.
A dúvida custou caro: retirou cerca de US$ 2 trilhões em valor de mercado do setor de software.
O raciocínio do mercado foi simples e brutal: durante vinte anos, cada funcionário novo gerava uma nova licença do Salesforce, do Workday, do HubSpot. Mas, se dez agentes fazem o trabalho de 100 pessoas, a empresa precisa de dez licenças, não de 100.
O resultado foi o múltiplo de valor da firma sobre receita (EV/receita) do setor cair de 9 vezes em 2021 para menos de 5 vezes hoje.
Par ao investidor pessoa física, a tentação óbvia é comprar essas ações a múltiplos historicamente baixos. A Kinea alerta para a armadilha.
O paralelo que a gestora faz com as fabricantes de veículos tradicionais após a ascensão da Tesla é revelador: quando o mercado decidiu que o futuro era elétrico, Ford e GM viram seus valuations comprimirem e nunca mais recuperaram os múltiplos anteriores — mesmo com resultados operacionais razoáveis no curto prazo.
“Não foi o caso de carros a combustão pararam de ser vendidos da noite para o dia. Foi que o mercado passou a projetar fluxos de caixa futuros estruturalmente menores. O mesmo fenômeno se repete agora em software”, diz a Kinea.
A gestora lembra que empresas como Adobe e Salesforce não estão quebrando — seguem gerando caixa e têm bases de clientes fiéis. Mas, quando o mercado olha dez anos à frente e enxerga agentes comprimindo licenças e substituindo categorias inteiras de produto, o valor terminal simplesmente encolhe.
Múltiplo baixo não é necessariamente barato. Às vezes, é apenas o começo de uma compressão estrutural.
Onde colocar o dinheiro: a lógica da cadeia de fornecimento
Diante desse quadro, a Kinea adota uma postura clara: em vez de competir com os agentes de IA, o investidor deve estar posicionado para fornecer o que eles precisam para existir e se expandir.
A gestora mapeia três elos principais dessa cadeia:
- Energia: modelos consomem tokens; tokens consomem eletricidade.
Toda a expansão dos agentes passa por data centers, e data centers precisam de energia em volumes crescentes. Nuclear e gás têm prioridade, com a cadeia de fabricação de turbinas já operando no limite.
Mais recentemente, as fontes renováveis voltaram ao páreo pela capacidade de escalar rapidamente, apoiadas pelo avanço dos sistemas de bateria. Sem energia abundante, não há multiplicação de agentes.
- Semicondutores: a infraestrutura de chips é o gargalo estrutural da expansão da IA.
Empresas de equipamentos para fabricação, a capacidade concentrada em players como a TSMC e designers como Nvidia e Google formam a espinha dorsal do ecossistema. Elas não competem com os agentes, mas tornam sua existência possível.
- Líderes setoriais com alavancagem de IA
Aqui a Kinea gosta especialmente das provedoras de computação em nuvem — Microsoft, Google e Amazon —, que ao mesmo tempo viabilizam os agentes e ampliam as próprias vantagens competitivas com eles.
A gestora acredita que o mercado ainda não precificou adequadamente o retorno dos investimentos massivos que essas empresas fizeram em infraestrutura de IA.
Além do J.P. Morgan e da Amazon, já citados, a gestora destaca a Snowflake como uma aposta no setor de software — mas com uma tese diferente das incumbentes ameaçadas: a empresa deve acelerar a adoção de IA no mundo corporativo, em vez de ser substituída por ela.
DECEPCIONOU
Alphabet (GOGL34): dona do Google reduz investimentos, mas balanço decepciona e ações despencam mais de 10%
29 de outubro de 2026 - 11:22BALANÇOS
Foguete decola, streaming trava: SpaceX sobe e Netflix cai após resultados trimestrais; entenda os números
20 de outubro de 2026 - 20:09DE PARIS A MARSELHA
Ruas em chamas na França, mercados pegam fogo na Europa — e isso mexe com os investimentos
19 de outubro de 2026 - 14:29A ELEIÇÃO E O SEU BOLSO
EUA entre a espada e a espada: como guerras, inflação e eleições de meio de mandato pressionam Trump e mexem com a sua carteira
19 de outubro de 2026 - 7:14MAIS PERTO DO QUE PARECE?
De Marte para a sua carteira: o que muda se Elon Musk juntar Tesla e SpaceX
15 de outubro de 2026 - 19:45PERFIL
Avó piloto, formado pela Ferrari e agora na Fórmula 1: quem é Rafael Câmara, anunciado pela Haas para 2027
15 de outubro de 2026 - 13:39QUEM VÊ CLOSE, NÃO VÊ CORRE
Como a Apple deixou a desconfiança para trás e alcançou (de novo) a marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado
14 de outubro de 2026 - 17:16PENALIDADE BILIONÁRIA
US$ 1,2 bilhão na conta: multa vira dor de cabeça no balanço deste gigante dos EUA; ações sentem o baque
14 de outubro de 2026 - 14:06RETORNO INCERTO?
Cassino da inteligência artificial? O alerta do presidente da Broadcom que fez tremer as ações de chips
13 de outubro de 2026 - 17:32HUB PARA CASA
E agora, Elon Musk? O lançamento da Apple que faz a ação subir para a terceira maior alta em Nova York
13 de outubro de 2026 - 13:31EM XEQUE
iPhone com os dias contados? Como a Starlink de Elon Musk pode acabar com o império da Apple
12 de outubro de 2026 - 18:45VENCEDORES DA TEMPORADA
Empresas do S&P 500 devem lucrar 31% mais no 3T26 — e esses dois setores devem largar na frente
12 de outubro de 2026 - 16:31BIBLIOTECA BÁSICA
A regra milenar de ‘A Arte da Guerra’ que Warren Buffett usa para evitar derrotas na bolsa
12 de outubro de 2026 - 11:57UM RISCO NEM TÃO ADMINISTRADO ASSIM
O Nobel de Economia que alertou para o risco e viu seu fundo perder 44% em um mês
10 de outubro de 2026 - 7:48A ÚLTIMA PERNADA
S&P 500 pode dar um sprint final até dezembro — mas investidor não deve ignorar uma pedra no caminho
9 de outubro de 2026 - 18:31PEGADINHA NORUEGUESA?
“Achei que fosse brincadeira”: quem é Navi Pillay, a vencedora do Nobel da Paz de 2026
9 de outubro de 2026 - 8:35OUSADIA PREMIADA
Canadense Anne Carson dá sopro de poesia ao Prêmio Nobel de Literatura
8 de outubro de 2026 - 8:49É SÓ O COMEÇO
O melhor está por vir para a TSMC após alta de 55% no ano. Entenda o que a Nvidia e Elon Musk têm a ver com o futuro das ações
7 de outubro de 2026 - 17:05SHERLOCKS DOS AMINOÁCIDOS
Mistério sobre a origem da vida: Nobel de Química premia dupla que resolveu enigma de mais de um século
7 de outubro de 2026 - 10:17ICECUBE