Chevron, Exxon e ConocoPhillips estão nas alturas após captura de Maduro, mas analistas recomendam cautela com as ações
De acordo com especialistas, o momento não é de euforia e sim de pé no chão com a disparada dos papéis dessas companhias — e tudo por causa do petróleo

Se promessa é dívida, Donald Trump já abriu um crediário em 2026. Quando capturou Nicolás Maduro no final de semana, o presidente norte-americano se comprometeu a reativar a indústria petrolífera da Venezuela, e o resultado foi a disparada das ações das gigantes norte-americanas do setor nesta segunda-feira (5).
Os papéis da Chevron, a única major que está operando com permissão especial dos EUA na Venezuela, subiram mais de 8% hoje, o maior avanço desde abril. O salto também embalou as ações de ConocoPhillips, Exxon Mobil, Halliburton, SLB e Baker Hughes — todas ganharam mais de 5%.
De acordo com analistas, de todas elas, a Chevron é a mais bem posicionada entre as gigantes norte-americanas do petróleo para se beneficiar imediatamente do acesso dos EUA às enormes reservas venezuelanas. Mas, ainda assim, o momento não é de sair comprando os papéis.
“Embora a Chevron possa ser capaz de adicionar produção incremental no curto prazo com a aprovação dos EUA, aumentos significativos de volume provavelmente levarão anos. Com isso em mente, a possibilidade de empresas norte-americanas desenvolverem as reservas de petróleo da Venezuela permanece incerta”, disse Allen Good, diretor de pesquisa de ações da Morningstar.
A intervenção do governo Trump na Venezuela também pode permitir que a Exxon e a ConocoPhillips retornem ao país, segundo Good, embora tenha alertado que a indústria petrolífera venezuelana "precisará de dezenas de bilhões em investimentos" para aumentar significativamente a produção.
"As empresas petrolíferas precisarão ser cautelosas ao investir capital até que haja maior segurança regulatória e contratual", disse Good.
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Não está claro ainda quanto as petrolíferas globais estão dispostas a investir em um país comandado por um governo temporário apoiado pelos EUA, sem regras legais e fiscais estabelecidas.
A ConocoPhillips, por exemplo, afirmou neste fim de semana que é prematuro especular sobre futuras atividades comerciais. Em 2024, a empresa que antes dominava a produção na Venezuela, recebeu uma série de licenças do governo norte-americano que a posicionaram melhor para recuperar parte ou a totalidade das perdas decorrentes da apreensão de ativos no país.
A Chevron, por sua vez, disse nesta segunda-feira (5) que “continua focada na segurança e no bem-estar de nossos funcionários, bem como na integridade de nossos ativos”.
“Continuamos operando sem interrupções e em total conformidade com todas as leis e regulamentações relevantes”, disse um porta-voz em comunicado.
Para o Citi, todo cuidado é pouco — para as empresas envolvidas e para os investidores. Em relatório, o banco afirma que a estratégia dos EUA tende a se concentrar em concessões no setor de petróleo, mantendo elevados os riscos de oferta no mercado global de energia no curto prazo.
Esses riscos, segundo o banco, sustentam a expectativa de um Brent — petróleo usado como referência no mercado internacional e pela Petrobras — em torno de US$ 60 por barril nas próximas semanas, ainda que os efeitos globais do episódio devam ser "provavelmente de curta duração".
O banco norte-americano destaca que choques geopolíticos, em geral, tendem a ser passageiros e que, na ausência de fortes desajustes nos preços do petróleo, "é improvável que haja uma queda relevante dos mercados".
E a Petrobras nessa?
Os preços do petróleo subiram mais de 1% nesta segunda-feira (5), e esse avanço não é necessariamente um sinônimo de que todas as petroleiras irão se beneficiar com os eventos ligados à Venezuela no curto prazo.
Isso porque quando uma crise realmente ameaça o fornecimento de petróleo, os compradores geralmente correm para garantir barris imediatamente, elevando os preços de curto prazo acima dos preços futuros.
Essa movimentação cria uma estrutura de mercado conhecida como backwardation, e é um sinal clássico de escassez ou pânico.
Até que a curva de preços do petróleo se acomode, os investidores não veem os acontecimentos na Venezuela como uma ameaça ao sistema energético global.
- Vale lembrar que a Venezuela produz cerca de 1 milhão de barris por dia (bpd), o que representa 1% da oferta global de petróleo.
Por isso, Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, é categórico ao dizer que, por enquanto, pouca coisa muda para a Petrobras, que não tem produção na Venezuela.
“Diretamente, não muda para a Petrobras porque, diferente da Chevron e de outras norte-americanas, não haverá alteração na produção”, diz.
“No entanto, com investimentos esperados, podemos acreditar que a produção atual da Venezuela saia de 1 milhão de bpd para algo em torno de 2 milhões de bpd. Aí a coisa muda porque o mercado já está com sobreoferta. A tendência é de pressão adicional sobre o Brent, e esse é o efeito mais importante para a Petrobras”, acrescenta.
Sobre comprar ou vender ações da Petrobras agora, Hungria afirma que PETR4 está barata.
“[A questão na Venezuela] é marginalmente ruim para os preços do petróleo, o que não ajuda a Petrobras. Mas, por outro lado, PETR4 está barata, a Petrobras segue entre as produtoras de menor custo, com capacidade para suportar melhor cenários de Brent descontado, e ainda pode ser beneficiada pelo cenário eleitoral aqui no Brasil”, afirma.
O Citi, por sua vez, manteve a recomendação neutra para a Petrobras, com US$ 12,50 para os ADRs e R$ 32 para PETR4.
Para os analistas do banco, mesmo sob um cenário do preço do petróleo Brent a cerca de US$ 60 por barril, é provável que a Petrobras continue a apresentar dividendos resilientes, mas abaixo dos rendimentos do passado recente.
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As ações do setor de defesa não ficam para trás
Não são apenas das petrolíferas norte-americanas que avançam nesse cenário. As empresas que atuam na área de defesa também viram suas ações subirem. A General Dynamics e a Lockheed Martin também registraram ganhos acima de 2% nesta segunda-feira (5).
“Ambas as ações estão se beneficiando da ideia de que uma rápida ação militar de Trump pode ser uma parte importante de sua política para lidar com questões geopolíticas que surgirem”, disse James Hyerczyk, analista da FX Empire.
Outros ativos na América Latina
Com relação a outros ativos na América Latina, as implicações imediatas da operação militar dos EUA na Venezuela devem ser limitadas nos ativos dos principais mercados da região — Brasil, México, Chile, Peru e Argentina —, segundo UBS.
Segundo Rafael De La Fuente, Andrea Casaverde e Roque Montero, a intervenção norte-americana pode levar investidores a reprecificarem alguns cenários de risco extremo e analisar vulnerabilidades específicas de países mais de perto.
“México e Colômbia são os dois mercados onde essa reavaliação é mais provável de se materializar, e onde achamos que a volatilidade pode aumentar”, diz o trio em relatório, acrescentando que tanto o peso mexicano quanto o colombiano estão caros, com desvios importantes em relação a padrões históricos.
Já para o Brasil e o restante da região, o impacto nos ativos parece ser reduzido por enquanto, de acordo com o UBS.
“O Brasil é uma economia grande, que tem a China como seu principal parceiro comercial e cujo relacionamento com os EUA tem melhorado nos últimos meses", diz o banco, mencionando que, no fim de 2025, o governo norte-americano removeu tarifas sobre a carne bovina e o café brasileiros e retirou sanções no âmbito da Lei Magnitsky sobre autoridades locais.
"Para o Chile e o Peru, a menos que haja uma mudança relevante nos fluxos de migrantes venezuelanos desses países, as implicações macroeconômicas e de mercado parecem limitadas por enquanto", acrescentam os analistas.
Sobre a Argentina, o trio afirma que as ações dos EUA podem aumentar a confiança no apoio de Washington ao país — algo que foi fundamental para a vitória de Javier Milei nas eleições de meio de mandato do ano passado.
*Com informações da CNBC
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