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Camille Lima

Camille Lima

Repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap.

A ÚLTIMA PEÇA

Will bank: quem é o banco digital que foi parar nas mãos de Daniel Vorcaro e sucumbiu com o Banco Master

A história de um banco digital que cresceu fora do eixo da Faria Lima, atraiu grandes investidores e terminou liquidado pelo Banco Central

Camille Lima
Camille Lima
21 de janeiro de 2026
10:11 - atualizado às 14:20
Banco Master S.A. e Will Bank - Imagem: Montagem Canva Pro/ Seu Dinheiro

O último elo que ainda se mantinha firme na cadeia do Banco Master acaba de se romper. Três meses depois de o Banco Central decretar o fim do Master, o regulador decidiu também pela liquidação extrajudicial do will bank, o banco digital amarelo que havia escapado — ao menos temporariamente — do colapso do grupo comandado por Daniel Vorcaro

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A decisão encerra uma trajetória que começou longe dos holofotes da Faria Lima, passou por um crescimento acelerado no varejo popular e terminou sob o peso de uma combinação conhecida no sistema financeiro: expansão agressiva, crédito de alto risco e capital escasso. 

Mas, afinal, quem era o will bank — e como ele foi parar nas mãos do Banco Master?

Do Espírito Santo ao Nordeste: a ascensão do "banco digital amarelo"

will bank não nasceu em berço de ouro no Itaim Bibi ou nos prédios espelhados da Faria Lima. Ele surgiu em Vitória (ES), no fim de 2016, ainda com o nome pag!, como um emissor de cartões voltado às classes C, D e E.  

O projeto era liderado por Felipe Felix, atual CEO da fintech, ao lado dos irmãos Giovanni e Walter Piana. 

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Desde o início, a narrativa do will foi a de emergir como uma espécie de “salvador dos desbancarizados”.

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Enquanto outros bancos digitais focavam em usuários insatisfeitos da elite bancária, o will mergulhou no varejo popular, oferecendo serviços simples a quem historicamente ficou à margem do sistema financeiro tradicional. 

O Nordeste virou seu principal território. Cerca de 60% da base de clientes se concentrou na região, muitos deles em cidades pequenas, onde o “boca a boca” funcionou como base para a expansão acelerada.

Em poucos anos, a fintech acumulou 6 milhões de clientes, apoiada na promessa de descomplicar o que os “bancões” tornavam inacessível. 

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Mas o crescimento apresentava uma fragilidade: o modelo dependia de crédito de alto risco para uma base de baixa renda, um equilíbrio fino que exigia aportes frequentes para se manter de pé. 

Quando o will bank caiu no gosto do mercado 

Em 2021, o mercado comprou a história. A um fundo de private equity da XP e a Atmos Capital lideraram um aporte de R$ 250 milhões, em um momento em que o will já era apontado como a segunda maior instituição de pagamento do país, atrás apenas do Nubank. 

A empresa acelerou. Fechou parcerias com a Mastercard, ampliou o portfólio e, em 2022, adquiriu a startup de cashback Getmore para dar os primeiros passos na construção de um marketplace próprio. 

Em 2023, os números reforçavam a sensação de sucesso: R$ 2,8 bilhões em receitas e uma base consolidada de milhões de clientes. À época, o will bank até cogitava a possibilidade de um IPO na bolsa brasileira. 

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A virada para o will Bank: a entrada do Banco Master 

Foi em fevereiro de 2024 que a história do “banco digital amarelo” mudou de rumo. O Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, anunciou a compra do controle do will Bank. 

Para Vorcaro, a fintech era a peça que faltava para montar um ecossistema digital completo. A ideia era usar a capilaridade do will para distribuir crédito, seguros e outros produtos financeiros. Com a aquisição, o grupo passou a atender mais de 10,5 milhões de clientes. 

Sob o guarda-chuva do Master, o will passou a operar como Banco Master Múltiplo — e adotou uma estratégia que logo passou a chamar a atenção dos reguladores: a venda de investimentos ancorada na exploração da proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

Na prática, o discurso de proteção do FGC passou a ser usado como argumento central para captar recursos — o que vai na contramão do objetivo original do fundo, que foi criado para proteger o sistema, e não para substituir a confiança na saúde financeira das instituições. 

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Com o cerco se fechando, o Master tentou salvar o que restava do grupo, colocando o will bank à venda. Circularam na imprensa rumores de interesse do apresentador Luciano Huck e do Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, com mais de US$ 100 bilhões sob gestão. Nada foi adiante, contudo. 

Segundo o colunista Lauro Jardim, d’O Globo, a EB Capital — gestora de Eduardo Melzer, que levou Huck à mesa de negociação — desistiu do negócio ainda em outubro. 

Em novembro de 2025, veio o golpe decisivo: o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, e Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal, acusado de gestão fraudulenta, organização criminosa e falsificação de carteiras de crédito na operação envolvendo o BRB. As investigações seguem em andamento. 

Naquele momento, o will bank escapou. Como ainda havia negociações em curso com o Mubadala, o banco digital foi colocado em Regime de Administração Especial Temporário (Raet), ficando fora da liquidação imediata do Master. 

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O caminho até a liquidação 

A sobrevida, porém, durou pouco. Três meses, para ser exata.  

Com o avanço das investigações, a pressão dos reguladores e as suspeitas que passaram a cercar todo o grupo, a venda desandou. 

Na noite anterior à decisão do Banco Central, a Mastercard anunciou a interrupção das transações dos cartões do will, alegando descumprimento das regras de pagamento. A execução da dívida com a bandeira foi o gatilho final. 

Sem liquidez e sem comprador, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do will bank. 

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Segundo estimativas da imprensa, o desfecho deixa cerca de 5 milhões de clientes dependentes do ressarcimento do FGC, com um custo total que pode chegar a R$ 50 bilhões para o fundo garantidor. 

“O will bank era um natimorto. Não é uma operação de fôlego muito grande. Para operar, tem custos fixos elevados, por isso geralmente os bancos pequenos têm taxas mais altas. Além disso, esse público tem inadimplência muito alta. E, em ciclos de crédito, todo mundo começa a emprestar; mas, quando esse ciclo começa a apertar, a inadimplência aumenta. Quando você analisa as demonstrações financeiras, o will bank era bem alavancado”, avaliou Roberto Luis Troster, sócio da consultoria Troster & Associados e ex-economista-chefe da Febraban e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). 

Na avaliação de Charles Nasrallah, advogado especialista em direito empresarial, a trajetória de deterioração do will bank não começou no momento em que a crise se tornou pública, mas sim nos "sinais silenciosos que costumam anteceder rupturas em instituições financeiras: desequilíbrios de capital, dependência crescente de funding sensível à confiança do mercado e um modelo de crescimento que exige aportes constantes para se sustentar".

Segundo o advogado, em bancos digitais, esses sintomas podem permanecer invisíveis por longos períodos, encobertos por métricas sedutoras como número de clientes, expansão territorial e engajamento em aplicativos.

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"O arco narrativo do Will Bank não é o de uma instituição saudável destruída subitamente por uma troca de controle. É o de um banco que já carregava fragilidades, que muda de ambiente ao ser incorporado a um grupo em crise e que sucumbe quando um evento operacional rompe a última camada de normalidade", disse Nasrallah.

Procurada pela reportagem, a assessoria do will bank disse que não se manifestaria sobre o tema. O espaço segue aberto. 

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