Adeus, e-commerce: Sequoia (SEQL3) ‘joga a toalha’ no varejo digital e vende operação ao Mercado Livre (MELI34)
Após anos de pressão no caixa, empresa se desfaz de ativo-chave e aposta em modelo mais leve; entenda o que muda na estratégia

Depois de anos tentando ganhar escala no e-commerce — e pagando o preço por isso — a Sequoia Logística (SEQL3) decidiu sair de cena justamente onde mais apanhava. Na reta final de sua reestruturação, a companhia anunciou nesta quarta-feira (22) a venda de ativos logísticos para o Mercado Livre (MELI34), deixando para trás um dos segmentos mais competitivos do setor.
A transação envolve a cessão integral do contrato de locação do centro de distribuição de São Bernardo do Campo (SP) para a Ebazar.com.br Ltda, empresa do grupo Mercado Livre, além da venda do principal ativo da operação de e-commerce da companhia: o Mega Sorter Damon.
Na prática, a Sequoia está fechando um ciclo. O que surgiu como aposta natural durante o boom do comércio digital na pandemia — quando a demanda por entregas parecia ilimitada — acabou se transformando em um negócio de margens apertadas, alto consumo de capital e crescente pressão competitiva.
Com juros mais altos, competição mais intensa e a verticalização logística dos grandes marketplaces, o jogo mudou — e rápido.
O peso de um gigante ocioso
Se havia um símbolo dessa aposta, era o Mega Sorter, que se tornou o grande “elefante branco” da Sequoia no e-commerce.
Incorporado após a fusão com a Move3, em 2024, a esteira de logística representava ambição de escala: capacidade para processar até 34 mil pacotes por hora e posicionamento para atender grandes players do varejo online.
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Mas, sem volume suficiente, a equação não fechou. Na prática, o ativo passou a operar com mais de 50% de ociosidade, segundo informações do Neofeed.
O que deveria ser uma alavanca de produtividade virou um ponto de pressão sobre caixa e operação.
A própria Sequoia reconhece que o segmento de triagem de grandes volumes “vinha drenando recursos financeiros e esforços comerciais, operacionais e administrativos”.
“A verticalização da logística pelos marketplaces que atuam no Brasil tornou o segmento de logística para e-commerce menos atrativo, devido à alta concorrência, às margens apertadas, bem como pela forte demanda por capital de giro”, disse a empresa.
Além disso, há um descompasso estrutural: os custos das operações são pagos de 30 a 60 dias antes do recebimento pelos serviços prestados — um detalhe que, em escala, pesa.
Sem a densidade de volumes necessária nos marketplaces, o Mega Sorter se tornou um ativo “deficitário quando operado sem grande escala, como vinha acontecendo”, segundo a empresa.
De problema na Sequoia a ativo estratégico no Mercado Livre
Se para a Sequoia o ativo virou um entrave, para o Mercado Livre ele se encaixa como extensão natural da estratégia da varejista argentina no Brasil.
A gigante do e-commerce tem acelerado a verticalização de sua logística no Brasil, movimento que ganhou força com o anúncio recente de um investimento recorde de R$ 57 bilhões no país para 2026.
Entre as prioridades, está justamente a expansão da infraestrutura, com mais centros de distribuição, tecnologia e capacidade operacional.
Nesse contexto, o Mega Sorter deixa de ser um problema de escala e passa a ser um ativo aderente à operação do Meli.
Com volumes robustos e controle sobre a cadeia logística, o Mercado Livre consegue extrair eficiência onde outros não conseguem, além de reforçar sua capacidade de controlar prazos, custos e qualidade de entrega.
A mudança de estratégia na Sequoia
Para a Sequoia, a venda vai além da geração de caixa. Ela representa uma mudança clara de posicionamento.
Ao sair do B2C de grandes volumes, a companhia abandona um modelo intensivo em capital e altamente competitivo para focar em operações mais previsíveis — e mais rentáveis.
A palavra-chave agora é “asset light”. Menos ativos pesados, mais eficiência operacional.
Os principais pilares dessa nova fase são os segmentos de logística de cartões bancários e maquininhas de pagamento e do segmento B2B (carga fechada), segmentos em que a empresa já possui histórico operacional e de geração positiva de caixa — exatamente o oposto da dinâmica enfrentada na logística para e-commerce.
“A conclusão da venda e da desmobilização desse segmento é a etapa final do processo de reestruturação iniciado no final de 2023, permitindo a companhia focar no crescimento das operações rentáveis nas quais somos referências no mercado”, afirmou a companhia.
Vale destacar que a conclusão da transação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Outras frentes da reestruturação da Sequoia
Mais cedo nesta semana, a Sequoia também avançou em outra frente do seu processo de reestruturação financeira.
A companhia conseguiu um acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) que reduziu sua dívida tributária em 84%, cortando o passivo de R$ 631,7 milhões para R$ 112,7 milhões.
O impacto foi imediato no mercado: as ações SEQL3 chegaram a disparar até 42% em um único pregão. Ainda assim, o ponto de partida é baixo. Após perder mais de 99% do valor desde o pico, o papel segue negociado como penny stock, como são conhecidas as ações abaixo de R$ 1.
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