Oncoclínicas (ONCO3) está ficando sem tempo, seus pacientes também; o que acontece agora, com o fim das negociações com Fleury e Porto
Seu prazo para conseguir novas injeções de capital ou mesmo entrar em recuperação judicial ou extrajudicial está cada dia menor. E quem sofre são médicos e pacientes

O tempo da Oncoclínicas (ONCO3) para encontrar uma solução para suas dívidas está acabando. Com o fim das negociações entre a rede de atendimento oncológico, a Fleury (FLRY3) e a Porto (PSSA3) para a criação de uma nova empresa, é necessário buscar alternativas para sua baixa liquidez.
Com o fim do prazo de 30 dias para a exclusividade nas negociações, encerraram-se também as conversas entre as empresas de saúde.
O prazo da Oncoclínicas para conseguir novas injeções de capital ou mesmo entrar em recuperação judicial ou extrajudicial está cada dia menor. E quem mais sofre são médicos e pacientes.
A falta de caixa já vem afetando compras de remédios e atrasando atendimentos de milhares de pacientes, segundo relatos na imprensa. Médicos e outros funcionários também sentem insegurança, segundo uma fonte com quem Seu Dinheiro conversou.
"Com tantas alternativas que existiam, como você explica para a ANS ou outro órgão regulador que não buscou a solução necessária para salvar essas vidas?", disse um gestor a par da situação ao Seu Dinheiro, que pediu para não ser identificado.
A operação da empresa ainda tem valor. Com uma fatia grande do mercado de tratamentos oncológicos, ela tem a capacidade de realizar esses atendimentos de maneira mais eficiente e barata que grandes hospitais, o que poderia ser um grande trunfo para planos de saúde como a Porto, por exemplo. Porém, com a situação financeira estrangulada, a operação também vem sofrendo.
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Seu Dinheiro buscou a Porto, Fleury, Oncoclínicas e a Agência Nacional de Saúde (ANS), que não responderam até a publicação desta reportagem.
Prazo está apertado
A situação da empresa está tão apertada que afeta o seu capital de giro líquido para manter a operação. As contas a receber demoraram 93 dias para cair no quarto trimestre. Os estoques têm uma duração média de 19 dias.
A média de contas a pagar é de 111 dias, um alívio já que a empresa conseguiu renegociar prazos com um dos seus principais fornecedores de medicamentos, disse o CFO, Marcel Cecchi Vieira, em teleconferência de resultados.
Ou seja, considerando todos esses prazos, a Oncoclínicas tem capital de giro líquido de apenas um dia. Assim que recebe alguma receita, já precisa pagar as contas, com pouca margem de manobra.
A crise do Banco Master, onde estava parte relevante do caixa da Oncoclínicas, e a inadimplência da Unimed FERJ também reduziram seu caixa no ano passado.
O endividamento com fornecedores chegou a um limite, sendo os pagamentos de medicamentos os mais críticos. Recentemente, a empresa conseguiu renegociar alguns prazos com esses parceiros.
No entanto, com o fracasso nas negociações que poderiam trazer um alento à empresa, essa tendência deve continuar, diz o BTG Pactual em relatório.
Oncoclínicas pede alívio temporário para negociar e analisar a proposta da Mak
A companhia pediu uma medida tutelar de cautela na segunda-feira (13), que suspende execuções de pagamentos enquanto ela tenta negociar com seus credores, o que dá a ela algum alívio por 60 dias.
Ela também irá analisar uma proposta da Mak Capital, acionista com 6,31% das ações, que estaria interessado em realizar um aporte de aproximadamente R$ 500 milhões. Empréstimos menores, de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões, para a compra de medicamentos, também estavam na mesa.
A proposta da Mak também envolvia a troca do conselho. Recentemente, com a renúncia do presidente do conselho de administração, saíram também os demais membros, já que a eleição ocorreu pelo sistema de voto múltiplo. Eles ficam até a próxima assembleia, no final deste mês.
“A gestão contamina o corpo diretivo. Por isso a Mak falava em assumir o controle, pois pensam que só há solução com a mudança na liderança”, diz Lucas Souza, sócio fundador da Ciano Investimentos.
A Oncoclínicas também anunciou que a Centaurus, que entrou na empresa por meio do Goldman Sachs antes do seu IPO, também vem reduzindo sua participação, que já passou de 9,08% para 5,55%.
Problemas antigos sem solução
Os problemas da Oncoclínicas não são novos — integrantes do mercado e até o próprio site Seu Dinheiro vêm apontando dificuldades de caixa e liquidez antes mesmo de a crise do Banco Master vir à tona.
Em setembro, a Starboard Partners, empresa focada em negócios em situações especiais, havia feito uma proposta de converter R$ 1,7 bilhão da dívida em equity (participação acionária), além de fazer um aumento de capital de mais de R$ 800 milhões.
No entanto, essa oferta foi rechaçada pela Latache, a segunda maior acionista da Oncoclínicas, e a companhia acabou realizando uma conversão de dívida em ações com outros acionistas.
Por que Fleury e Porto deram para trás
Esse desfecho, dada a situação financeira frágil da Oncoclínicas, já era esperado, segundo o BTG Pactual e o JP Morgan.
"Dada a complexidade da transação e a profundidade necessária no processo de due diligence, acreditamos que o processo destacou os desafios inseridos na atual situação financeira da Oncoclínicas", diz o JP Morgan em relatório.
Ou seja, as empresas olharam mais profundamente os números da empresa de tratamentos oncológicos e decidiram que o risco não valia a pena.
A combinação do alto endividamento e das quebras de contratos com credores dificultam que players bem capitalizados, como Fleury e Porto, avancem com uma injeção de capital em condições aceitáveis de riscos e retornos.
Além dos problemas financeiros, a Oncoclínicas enfrenta a dissolução do seu conselho de administração, destaca o JP Morgan em relatório.
Como ficam os acionistas de Oncoclínicas com o fim das negociações
A desistência do negócio pode vir como um alívio, ainda que fugaz, para quem investe na Oncoclínicas. Isso porque a nova companhia criada carregaria todos os ativos relevantes da empresa de tratamentos, deixando as dívidas no casco da Oncoclínicas, que ficaria sem receitas.
"A transação proposta não deixaria muito valor patrimonial — se é que algum — para os detentores de ONCO3, que correriam o risco de se tornarem acionistas de uma holding insolvente, com investimentos em ações ilíquidas em uma subsidiária alavancada", resume bem o JP Morgan.
"Nesse contexto, há outras opções de capitalização sobre a mesa que, em nossa visão, seriam melhores para os acionistas minoritários da companhia, embora não resolvam completamente a questão da alavancagem", diz o JP Morgan, que acredita que a empresa ainda precisa de uma eventual capitalização e nova reestruturação da dívida.
Como o Banco Master entrou na Oncoclínicas e levou a perdas de pelo menos R$ 431 milhões
O sofrimento da Oncoclínicas (ONCO3) vai muito além das suas dores de crescimento. Depois de crescer de forma acelerada e buscar expandir até para a Arábia Saudita, a empresa precisou fazer aumentos de capital. E foi em 2024 que ganhou um novo sócio que trouxe mais problemas que soluções.
Em maio daquele ano, levantou R$ 1,5 bilhão, sendo R$ 1 bilhão via fundos ligados ao Banco Master e R$ 500 milhões aportados pelo CEO, Bruno Ferrari. O objetivo era reduzir a alavancagem, então em 4,2 vezes o Ebitda, para 2 vezes. Ainda assim, a companhia seguiu queimando caixa.
Além disso, o mercado começou a desconfiar do alto rendimento do caixa da empresa. Uma matéria do Seu Dinheiro de setembro de 2024 já apontava que cerca de R$ 1,54 bilhão do caixa da empresa rendiam 119,17% do CDI, um patamar bem acima das taxas comumente praticadas no mercado.
Quando a crise do Banco Master começou a ficar mais escancarada, em 2025, veio à tona que parte do caixa da empresa de saúde estava, sim, em títulos do banco, que evaporaram com a liquidação extrajudicial imposta pelo Banco Central.
Havia um acordo que permitiria à empresa recomprar ações próprias detidas por fundos ligados ao Master em caso de inadimplência. O impasse começou quando essas cotas foram transferidas ao BRB, o banco de Brasília, como pagamento de dívidas.
Agora, a Oncoclínicas recorre à Justiça para tentar recuperar o controle desses ativos, em um processo ainda sem desfecho.
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