“É o momento certo de capturar valor”: CEO do Bradesco (BBDC4) revela plano para destravar até R$ 50 bilhões com a Bradsaúde
Banco separa ativos de saúde via IPO reverso da Odontoprev e aposta que mercado vai reprecificar a “joia escondida” no balanço

Assim que o Bradesco (BBDC4) colocou na mesa a criação da Bradsaúde, uma pergunta ganhou força no mercado: por que agora?
O banco decidiu reunir todos os seus ativos de saúde em uma nova holding, que chegará à bolsa por meio da já listada Odontoprev (ODPV3) — em uma operação de IPO reverso — e que pode nascer valendo algo entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões, segundo estimativas do mercado.
Não se trata apenas de reorganização societária. É uma tentativa explícita de mudar a forma como o mercado enxerga — e precifica — um dos pilares do grupo.
“Esta é a oportunidade de realizar o IPO de todo o sistema de saúde com a Bradsaúde. É o momento certo para capturar esse valor e levar mais riqueza para nossos acionistas e mais benefícios para nossos clientes e para a sociedade”, afirmou Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, em entrevista coletiva na sede da seguradora, na Avenida Paulista.

A escolha do timing diz tanto quanto o movimento em si. Depois de um ciclo de reestruturação interna e de ajustes no próprio banco, o Bradesco decidiu expor à vitrine um ativo que, até aqui, vivia “escondido” no balanço consolidado.
Nas palavras de Noronha, trata-se de uma jogada para destravar valor. Na prática, é uma aposta de que o mercado pagará mais por um negócio de saúde independente do que por esse mesmo negócio "diluído” dentro de um conglomerado financeiro.
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Bradsaúde: o potencial de R$ 50 bilhões
Vale destacar que não haverá uma oferta de ações (IPO) tradicional. A Bradsaúde estreará no Novo Mercado usando a estrutura societária da Odontoprev, que deixará de ser uma empresa focada apenas em odontologia para se tornar a holding de toda a divisão de saúde.
Para Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do conselho, o movimento é quase natural dentro da história do grupo. “O Bradesco sempre foi essa moeda de duas faces: de um lado, o banking; do outro, a seguridade”, disse.
Segundo ele, é justamente essa combinação que explica a penetração do banco no sistema financeiro brasileiro. A diferença agora é que uma dessas faces ganhará vida própria na bolsa.
“A Bradsaúde é uma oferta que fazemos ao mercado de capitais para que o setor possa ter mais uma opção”, afirmou Trabuco.
A aposta do banco é que a listagem da Bradsaúde na bolsa brasileira deve permitir que o mercado reavalie o ativo por outro prisma bem maior.
Na visão de Noronha, o que estava registrado a valor contábil pode carregar uma mais-valia relevante quando separado, com governança própria, foco exclusivo e comparáveis mais claros no setor de saúde.
“A gente encontra mais-valia em todos os ativos da Bradesco Saúde”, disse o CEO do banco, sugerindo que a joia da coroa pode ser mais valiosa do que parecia quando vista apenas pelo retrovisor do consolidado.
Noronha destacou que analistas já trabalham com um valor de mercado potencial entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões para a nova companhia.
“Não é algo pequeno. É um negócio muito grande que oferece uma excelente alternativa no mercado de capitais para investidores brasileiros e estrangeiros”, afirmou.
E o plano não termina aqui. “Podemos fazer outros movimentos futuramente”, acrescentou Noronha, lembrando que o grupo segurador atua em praticamente todos os ramos com “empresas de muito valor”.
Bradsaúde: um sonho antigo do grupo Bradesco
Apesar do anúncio formal nesta sexta-feira (27), a ideia não nasceu ontem. Ivan Gontijo, CEO da Bradesco Seguros, fez questão de reforçar que o projeto vem sendo maturado há muitos anos dentro do grupo.
“É um projeto que nasce robusto, mas ele não é de hoje nem de ontem. Vem ao longo de mais de quatro décadas”, afirmou.
Os números ajudam a explicar o apetite: a Bradsaúde já nasce com R$ 52 bilhões em faturamento, lucro de R$ 3,6 bilhões e ROE de 24%.
Uma escala que Carlos Marinelli, futuro CEO da holding, classificou como “irreplicável”.
Marinelli, aliás, simboliza a tentativa do Bradesco de combinar experiência interna com visão setorial. Ele está no grupo há cinco anos, atualmente à frente da Bradesco Saúde, e antes comandou o Grupo Fleury por sete anos.
Ao seu lado estarão Elsen Carvalho, hoje CEO da Odontoprev e futuro responsável pela área odontológica da Bradsaúde; Vinícius Cruz, com 27 anos de casa e futuro diretor financeiro (CFO); e José Pacheco, há duas décadas na área de relações com investidores da Odontoprev e que assumirá como diretor de relações com investidores (DRI).
No conselho, Trabuco segue como figura central. E a estratégia contará com o suporte direto de Noronha e de Gontijo — uma sinalização de que, embora ganhe autonomia, a nova empresa continuará no coração do grupo.
O ataque às PMEs: o novo "mar azul" da Bradsaúde
Historicamente forte no segmento corporativo, o grupo agora quer avançar sobre pequenas e médias empresas (PMEs).
Gontijo resumiu o tamanho da oportunidade com um dado: dos mais de 200 milhões de brasileiros, apenas cerca de 52 milhões têm plano de saúde.
Para ele, há espaço para ampliar o acesso, especialmente entre PMEs, usando a capilaridade das agências do banco e a força da marca.
"Vamos buscar um aperfeiçoamento cada vez maior, oferecendo principalmente no segmento de pequenas e médias empresas um acesso diferenciado a esse ecossistema", disse.
A ideia é integrar saúde ao ecossistema financeiro, oferecendo produtos com a mesma fluidez com que se vende um seguro ou um crédito empresarial.
O "presente" para o acionista minoritário da Odontoprev
Um dos pontos mais sensíveis é o impacto para os acionistas minoritários da Odontoprev. Pela estrutura proposta, eles passarão a deter 8,65% da Bradsaúde.
Segundo Noronha, o minoritário verá um aumento estimado de 21% na sua base de lucro líquido ao migrar para a nova estrutura.
Mais do que isso, deixará de ser sócio de uma empresa “monoline”, focada apenas em odontologia, para participar de um grupo diversificado, com hospitais, planos médicos, rede credenciada e inteligência de dados.
"Ao realizarmos um negócio desta magnitude e diversificação, damos aos acionistas minoritários acesso a um potencial muito maior, com riscos menores. Oferecemos o destravamento de valor para os acionistas controladores e para os acionistas do Bradesco. Temos a oportunidade de capturar sinergias que endereçarão crescimentos futuros”, disse o executivo.
O que vem por aí? Follow-on no radar
Embora Noronha tenha dito que "não há previsão" para uma oferta de ações (follow-on) este ano, a intenção de longo prazo é clara: atingir os 25% de free float exigidos pelo Novo Mercado.
“No momento oportuno, decidiremos sobre um follow-on para capturar resultados. Este movimento demonstra que movimentos inorgânicos são possíveis dentro da nossa transformação”, disse o CEO.
Porém, reforçou: “a decisão é estratégica e será tomada no momento certo para capturar resultado”.
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