A CSN (CSNA3) quer vender até R$ 18 bilhões em ativos — quais as chances de o plano de desalavancagem finalmente sair do papel
Pressão financeira, plano mais detalhado e menos espaço para recuos explicam por que analistas veem maior chance de execução agora

Quando a CSN (CSNA3) anunciou planos para vender até R$ 18 bilhões em ativos de cimento e infraestrutura, o valor chamou a atenção. Mesmo assim, o anúncio veio acompanhado de muito ceticismo no mercado.
Afinal, não é a primeira vez que a empresa, que se acostumou a crescer de maneira alavancada, buscava vender ativos para ajustar seu balanço, o que nem sempre se concretizou.
Agora, a holding colocou até um prazo: os contratos devem ser assinados no terceiro trimestre de 2026, segundo o planejamento. O projeto apresentado em janeiro é o mais completo até agora.
O plano resolveria grande parte do endividamento. O objetivo é chegar a uma alavancagem — a relação entre dívida líquida e Ebitda — de uma vez no médio prazo. "Na nossa visão, a entrada de até R$ 18 bilhões resolveria o problema da dívida da companhia", diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.
Dessa vez será diferente? Ao menos em parte, o mercado parece acreditar que sim.
Mas não será fácil, e é fundamental que o plano saia do papel, diz a Fitch Ratings. A agência de classificação de risco recentemente rebaixou os ratings da CSN por causa de seu endividamento persistente e dos desafios para reverter a queima de caixa.
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Para a Fitch, as vendas são essenciais para a companhia, que pode ser rebaixada novamente "se as medidas para refazer a estrutura de capital por meio de desinvestimentos não forem totalmente implementadas".
Porém, os juros altos podem dificultar essas negociações. Além disso, a CSN também está fortemente centrada na figura do seu controlador e CEO, o empresário Benjamin Steinbruch, que será central nas negociações.
O Seu Dinheiro conversou com analistas do mercado para entender se, dessa vez, o plano de venda de ativos da CSN pode sair do papel.
Como a CSN chegou até aqui?
A CSN é um colosso. A Companhia Siderúrgica Nacional foi criada em 1941 pelo presidente Getúlio Vargas para apoiar a industrialização do Brasil.
Privatizada em 1993, a primeira do ciclo de privatizações da época, foi comprada por um consórcio liderado pelo Grupo Vicunha, da família Steinbruch. Expandiu-se para além da siderurgia, para setores como mineração, energia, infraestrutura, cimentos e outros.
Hoje, detém a maior indústria siderúrgica do Brasil e da América Latina, e a CSN Mineração é a segunda maior exportadora de minério de ferro do Brasil, atrás apenas da Vale. O grupo também é um dos maiores do país na divisão de cimentos.
A empresa, listada na B3, tem ADRs listados na Bolsa de Valores de Nova York, a NYSE, com operações também na Alemanha, em Portugal e nos Estados Unidos.
No entanto, toda essa expansão teve seu preço. A CSN tem um histórico de atuar com uma alavancagem alta e com grandes investimentos.
O endividamento líquido, que era de R$ 16,5 bilhões em 2021, atingiu R$ 37,55 bilhões em setembro de 2025, com a alavancagem medida entre a dívida líquida e o Ebitda chegando a 3,14 vezes.
Além do peso das aquisições, o grupo atua em negócios cíclicos, de commodities, o que torna o balanço instável. Mesmo nos momentos de alta dos preços, a diretoria optou por pagar dividendos no lugar de direcionar os valores para reduzir o endividamento.
Se no pós-pandemia o setor de commodities e, mais especificamente, do aço viveu um bom momento, com alta de preços, nos últimos anos, vieram os tempos de vacas magras. O aço chinês inundou o mercado, com preços bem mais baixos, o que fez o valor da matéria-prima ir para as mínimas históricas.
Mesmo em um ano desfavorável, o capex da companhia cresceu 9,6% entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, atingindo R$ 1,43 bilhão, principalmente em siderurgia e mineração.
Foi assim que a CSN se viu diante de um impasse: vender ativos para se manter de pé.
Não é novidade
Não é a primeira vez que a companhia anuncia planos de desinvestimentos para resolver o seu endividamento, diz Igor Guedes, analista da Genial. A CSN já havia colocado na mesa vender operações em outros países ou participações nos negócios de logística ou energia elétrica, por exemplo.
Ela concluiu a venda de sua usina de aço nos Estados Unidos (CSN LLC) para a Steel Dynamics (SDI) em 2018 e, em 2019, houve relatos de que a companhia teria tentado vender sua usina alemã, o que não ocorreu.
Em 2021, tinha projetos para fazer o IPO de sua divisão de cimentos, o que não se concretizou por conta do cenário complicado para aberturas de capital.
A holding também separou o capital de seus negócios de mineração, a CSN Mineração (CMIN3) em 2021. Na ocasião, ela levantou R$ 5,2 bilhões. No mesmo período, porém, anunciou um plano ambicioso de novos investimentos na ocasião, ficando praticamente no zero a zero.
O mercado se convenceu de que dessa vez será diferente?
Em parte, sim. "Os juros altos e o cenário difícil para o aço trazem um senso extra de urgência para a companhia", diz o analista da Empiricus Ruy Hungria. Os especialistas destacam que a delimitação de que ativos podem ser vendidos e o valuation esperado também animaram os investidores.
No entanto, de maneira geral os investidores estão esperando para ver algo mais concreto. Por isso, logo após o anúncio, as ações caíram cerca de 3%. Desde então, porém, estão em alta de aproximadamente 4%.
Ainda que seja uma empresa aberta, a CSN está bem centrada na figura de seu fundador e controlador, Benjamin Steinbruch, que pode estar considerando sua sucessão.
Como os descendentes não são tão considerados para tomar o lugar do fundador como cabeça do negócio, embora três dos quatro filhos tenham atuação nas companhias da holding, esse planejamento passa a ser importante, segundo uma fonte ouvida por Seu Dinheiro e que preferiu não se identificar.
Por isso, agora seria um momento diferente em relação às tentativas anteriores de venda da empresa.
Quais os riscos para o plano?
Encontrar um comprador disposto a pagar o preço pedido é o principal desafio para a CSN cumprir esse plano ambicioso, diz Guedes, da Genial. Pelo tamanho da companhia, os possíveis compradores seriam principalmente grandes empresas multinacionais.
Ainda que a Selic comece a cair já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), em março, os juros continuam altos.
As incertezas de um ano eleitoral também atrapalham a empresa. "Levantar de R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões neste contexto macro não é trivial, por mais que sejam ativos de qualidade", diz Hungria.
Se o cenário macroeconômico está ruim, os ciclos da empresa também não ajudam.
No caso de uma venda de sua divisão siderúrgica, que foi especulada pelo mercado, o ciclo do aço está em baixa. Há uma grande entrada de matéria-prima chinesa no mercado, inclusive no Brasil — se tradicionalmente a importação de aço era em torno de 10% a 15%, hoje está por volta dos 30%.
A CSN afirmou que o desinvestimento desse negócio não está na mesa. Assim como a mineração, a siderurgia é uma das principais e mais estratégicas operações para a empresa.
A forte figura de Steinbruch na liderança também pode vir a ser um problema para fechar a venda dos ativos. Nem sempre o valuation que o mercado considera justo é o valor que o controlador enxerga nos negócios, dizem os analistas.
Na mesa de negociação, não está apenas o preço, mas a fatia a ser desinvestida, as condições e os prazos de pagamento, eventuais precificações atreladas a metas de desempenho, entre outros fatores.
Chegar a um valor em que os dois lados possam apertar as mãos será um desafio, acreditam os analistas.
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