Recorde do Ibovespa é fichinha: bolsa brasileira pode ir a 300 mil pontos — e o investidor brasileiro pode chegar atrasado
Com fluxo estrangeiro forte e juros ainda altos, gestores alertam para o risco de ficar fora do próximo ciclo da bolsa

O Ibovespa segue quebrando recordes em 2026. Os números estampam o noticiário especializado, os gráficos apontam para cima e o tom otimista começa a ganhar espaço nas discussões de investimento. Ainda assim, o investidor local continua fora do jogo — e sem muita disposição para voltar às ações.
Na avaliação de Christian Keleti, CEO da Alpha Key Capital Management, as máximas recentes são fichinha: a bolsa pode disparar rumo aos 300 mil pontos.
Mas isso não significa, necessariamente, uma boa notícia para quem investe no Brasil.
“Tem chance de chegarmos aqui no ano que vem e o índice vai estar a 300 mil pontos”, disse Keleti, em evento organizado pelo UBS. “A pergunta é: quem vai estar dentro?”
A bolsa anda, mas o brasileiro ficou para trás
Durante o evento, o gestor dividiu o palco com Christian Faricelli, CEO da Absolute Investimentos.
O diagnóstico dos dois gestores é parecido: o fluxo estrangeiro passou a dominar o mercado brasileiro, muitas vezes atropelando os fundamentos tradicionais — e a ausência do investidor local pode sair cara.
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Enquanto o investidor brasileiro permanece paralisado pela combinação de juros altos e incerteza política, o gringo voltou a olhar para os emergentes — e encontrou no Brasil um mercado grande, líquido e relativamente barato em termos globais.
Para o gestor da Alpha Key, se o cenário macro internacional, marcado pelo enfraquecimento do “excepcionalismo americano” e pela migração de capital para emergentes, encontrar um ambiente político doméstico minimamente funcional, o Ibovespa pode não apenas continuar subindo, mas alcançar patamares inéditos.
O gringo não está tão preocupado com as eleições
No horizonte de médio prazo, a política segue como a variável que anda na contramão. Mas o peso dado a ela varia bastante conforme o endereço do investidor, afirmam os gestores.
Faricelli avalia que, enquanto o investidor local atribui enorme importância às eleições de 2026, o estrangeiro tende a ser mais pragmático. “Para o gringo, se o governo atual continuar com responsabilidade fiscal e sem enfraquecer instituições, ele é apenas um governo ruim, mas administrável”, avalia o gestor da Absolute.
Essa diferença de percepção ajuda a explicar o descompasso atual. Para o brasileiro, a eleição é um divisor de águas. Para o estrangeiro, é apenas mais uma variável — desde que não comprometa o arcabouço fiscal.
A volta do investidor estrangeiro para a bolsa é um problema?
Só no início deste ano, o investidor estrangeiro já aportou cerca de R$ 20 bilhões na bolsa brasileira — quase dois terços de tudo o que entrou ao longo de 2025, quando o saldo foi de aproximadamente R$ 34 bilhões.
Esse movimento, no entanto, carrega um desconforto para quem busca investir com base nos fundamentos tradicionais.
Isso porque o estrangeiro tem comprado o Brasil via índices, concentrando recursos nos papéis mais líquidos e pesados da bolsa — como Petrobras, Vale e grandes bancos — com pouca atenção às questões microeconômicas que tiram o sono do investidor local.
Para os gestores, o volume de capital gringo é grande o suficiente para fazer com que métricas históricas de valuation comecem a perder relevância. Grandes empresas podem passar a negociar acima das médias históricas simplesmente porque o fluxo manda.
“Em quase 20 anos de carreira, eu nunca vi movimentos macro tão grandes”, diz Faricelli. “R$ 20 bilhões não são nada para o mundo, mas é um valor enorme para a nossa bolsa.”
Segundo ele, esse ambiente global pró-risco e pró-emergentes pode continuar empurrando tanto o Ibovespa quanto o real. O problema é que, enquanto o investidor local se preocupa com a eleição, o estrangeiro ainda nem começou a colocar na conta.
Na leitura de Keleti, se já entraram R$ 20 bilhões, nada impede que esse número chegue a R$ 200 bilhões caso o vetor macro global continue favorável, e a sinalização de queda de juros se consolide.
“O investidor estrangeiro está jogando o jogo dele. O fluxo macro atropela os fundamentos”, afirma. “Se o cenário político e de juros convergir, o Ibovespa pode chegar aos 300 mil pontos por pura falta de oferta.”
Segundo o gestor, esse movimento pode empurrar para cima até empresas com fundamentos frágeis. Ele cita a Ambev (ABEV3) como exemplo.
“É um business que não cresce, tem dificuldade de repassar preço e não aumenta Ebitda há uma década. Mesmo assim, sobe junto com o Ibovespa. Eu estou short”, estratégia para lucrar com a queda do preço de um ativo, vendendo ações que você não possui e recomprando-as mais barato depois.
O risco adicional é estrutural: com o fechamento de capital de várias empresas e a concentração de liquidez em poucos nomes, uma entrada de capital muito maior pode provocar uma valorização explosiva do mercado local simplesmente por falta de ações disponíveis.
Ainda assim, Faricelli pondera que o mercado brasileiro não está completamente distorcido. “Ainda tem muita coisa boa e no preço justo.”
Quando os fundamentos entram em segundo plano, como escolher ações?
Mesmo em um mercado dominado por fluxos, os gestores defendem que o micro ainda importa. O diferencial para gerar alfa, ou retornos superiores à média ou ao benchmark, segundo eles, estará na capacidade de escolher boas teses e, principalmente, evitar armadilhas.
Keleti destaca Hapvida (HAPV3) e Natura (NATU3) como exemplos recentes de “cascas de banana” que drenaram capital do mercado. “Escapar dessas quedas grandes já gera alfa naturalmente.”
As ações favoritas dos gestores na bolsa
Na Absolute, o foco está em empresas com vantagens competitivas claras. A principal aposta hoje é a Sabesp (SBSP3). Segundo o CEO, a empresa passa por uma transformação profunda, com investimentos saltando de R$ 5 bilhões para R$ 16 bilhões por ano, sem aumento de tarifa, graças à eficiência regulatória.
“Consideramos a ação totalmente assimétrica, com uma taxa interna de retorno acima de 10%, muito atrativa”, disse.
Outra aposta é a Prio (PRIO3 ex-PetroRio), pela forte capacidade de geração de caixa.
Na Alpha Key, Keleti aposta que o verdadeiro valor da bolsa brasileira não está nas gigantes do Ibovespa, mas fora do top 10.
Uma das principais teses da gestora é a Allos (ALOS3), considerada um dos melhores veículos de alocação de capital do setor de shoppings, com potencial de retorno anual de até 30% entre dividendos e valorização.
Outros nomes fora do consenso incluem Copel (CPLE3), Axia (AXIA3; ex-Eletrobras), Moura Dubeux (MDNE3) e IRB (Re) (IRBR3). Do lado vendido, a aposta é em Suzano (SUZB3).
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