Prêmio das debêntures de infraestrutura é o menor em cinco anos — quem está comprando esse risco e por quê?
Diferença nas taxas em relação aos retornos dos títulos públicos está cada vez menor, diante da corrida aos isentos impulsionada por uma possível cobrança de imposto

O apetite por crédito privado está nas alturas — e isso não é novidade. Esse movimento chegou ao ápice em 2024 e segue intenso neste ano. Entretanto, agosto registrou um novo marco: o menor nível de prêmio das debêntures de infraestrutura em cinco anos.
Como dívidas de empresas, as debêntures de infraestrutura costumam oferecer taxas de retorno superiores às dos títulos públicos. Afinal, o risco de calote por uma dívida de empresa é maior do que o risco de o governo federal não pagar suas dívidas.
Por isso, as empresas precisam oferecer retornos melhores em seus papéis. Essa diferença são os spreads.
Em agosto, os spreads das debêntures de infraestrutura registraram o menor nível em cinco anos, segundo um levantamento do BTG Pactual. A diferença em relação ao Tesouro IPCA+ — referência para essa classe — chegou a 14 pontos-base.
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Esse nível já estava baixo em julho, na faixa de 16 pontos-base, enquanto em maio era de 37 pontos-base.
Na prática, isso significa que a demanda por essas debêntures está tão forte que os investidores estão aceitando um retorno menor ao comprar os títulos — mesmo que esse prêmio não pague o risco de crédito embutido no investimento.
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No acumulado de 2025, os spreads das debêntures de infraestrutura fecharam 40 pontos-base — um número considerado bastante alto pelo BTG. A taxa nominal do índice IDA IPCA, que acompanha esses ativos, caiu de IPCA + 8,22% em dezembro para IPCA + 7,80% em agosto.
Por que o prêmio das debêntures está tão baixo?
Segundo o relatório do BTG Pactual, a demanda pelas debêntures aumentou muito em julho. E o gatilho é político.
O governo federal publicou em 11 de junho uma Medida Provisória (MP 1.303/25) que prevê criar uma tributação para as debêntures incentivadas e outros títulos isentos de imposto de renda a partir de janeiro de 2026.
O texto propõe uma alíquota de 5% de IR para esses papéis. Os títulos emitidos até dezembro de 2025, entretanto, manteriam o benefício tributário.
Isso provocou uma “corrida aos isentos”. Pessoas físicas que querem manter a isenção sobre os ativos financeiros correram para comprar. Gestores de fundos de crédito também correram para colher lucro com o preço dos papéis em vendas futuras.
Resultado: uma demanda tão intensa que achatou os prêmios oferecidos pelas empresas, visto que a atratividade no momento é outra: manter a isenção fiscal.
A MP está valendo, mas ainda precisa ser apreciada pelo Congresso Nacional para ter força de lei. Durante a tramitação, deputados e senadores podem mudar muitos aspectos no texto, inclusive retirar a tributação dos isentos.
Mas, por via das dúvidas, os gestores de crédito aumentaram suas alocações e as pessoas físicas também.
Todos compram
O relatório do BTG mostra que a maior captação partiu dos fundos de infraestrutura: mais de R$ 40 bilhões no ano. Esses fundos investem exclusivamente em debêntures incentivadas e têm o mesmo benefício fiscal que os títulos.
Mas os investidores pessoas físicas também entraram na onda. Tanto o segmento de private — alta renda com mais de R$ 5 milhões — quanto o varejo avançaram nas alocações: aumento de 17% no ano, segundo o BTG.
Um relatório da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) já tinha mostrado esse avanço sobre as debêntures incentivadas.
Segundo a associação, o varejo de alta renda foi o que mais aumentou a sua alocação: alta de 27% no primeiro semestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano passado. Em volume, equivale a R$ 6,4 bilhões.
O BTG também relata o aumento das negociações de títulos de crédito no mercado secundário, entre investidores. Os dados parciais de agosto mostram um volume médio diário de R$ 2,9 bilhões até o dia 15 — uma alta de 24% em relação a julho, com 35% do fluxo concentrado em debêntures incentivadas.
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