Montadoras pisam no acelerador da reciclagem para não travar na falta de matérias-primas
Enquanto Toyota inaugura fábrica com foco em circularidade, empresa global de inteligência de mercado alerta para gargalos na cadeia de suprimentos de veículos elétricos.

À medida que o mundo acelera para uma frota de automóveis cada vez mais elétrica, as montadoras fazem as contas: sem reciclagem, a viagem pode acabar mais cedo do que o esperado.
A S&P Global Mobility, uma divisão da empresa de inteligência de mercado S&P Global que fornece dados e análises sobre o setor automobilístico, projeta déficit de lítio - principal componente das baterias de carros elétricos (EVs) - já em 2027. Enquanto isso, a Toyota antecipa a curva com o anúncio de uma fábrica dedicada à circularidade e reaproveitamento de matérias-primas de veículos em fim de vida útil.
A Toyota Circular Fabric (TCF) será inaugurada no Reino Unido, dentro de uma planta já existente, e deve entrar em operação no terceiro trimestre deste ano. A empresa não informa o valor do investimento.
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O projeto da TCF está dividido em duas fases: na primeira, a fábrica circular inglesa será capaz de processar 10 mil veículos por ano, dando nova vida a centenas de milhares de peças e recuperando quantidades significativas de matérias-primas.
"Inicialmente, prevemos reciclar cerca de 10.000 veículos por ano em nossa unidade do Reino Unido, o que dará nova vida a 120.000 peças, recuperará 300 toneladas de plástico de alta pureza e 8.200 toneladas de aço — entre outros materiais”, destacou Leon van der Merwe, Vice-Presidente de Economia Circular da Toyota Motor Europe, em comunicado.
Na segunda fase, o objetivo da Toyota é expandir as operações para outros países e continentes, em parceria com organizações que tenham interesse em investir na circularidade e descarbonização da economia.
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“Em geral, uma peça refabricada implica em 80% menos energia, 88% menos água, 92% menos produtos químicos e 70% menos desperdício”, afirma Guilherme Suertegaray, gerente sênior de projetos e responsável pelo relacionamento com as grandes empresas da América Latina na Fundação Ellen MacArthur.
Reutilizar, remanufaturar e reciclar para alcançar a neutralidade de carbono
Com esta iniciativa, a fabricante de automóveis japonesa pretende se tornar um centro de excelência para futuras operações de reciclagem em toda a Europa e no mundo.
A abordagem da Toyota Circular Factory para o processamento de veículos em fim de vida será estruturada em torno de três áreas principais: peças reutilizáveis, itens de consumo que podem ser remanufaturados e materiais que podem ser reciclados.
As peças reutilizáveis serão reintroduzidas no mercado por meio de varejistas ou distribuidores de peças, após um processo completo de validação. Baterias e rodas, por serem itens de consumo, serão avaliadas para remanufatura, reaproveitamento ou reciclagem.
Por fim, a Toyota tem como objetivo reciclar matérias-primas como cobre, alumínio, aço e plástico, substituindo, quando possível, materiais virgens na produção de novas peças para novos veículos.
A Toyota Motor Europe planeja atingir a neutralidade de carbono em todas as suas instalações até 2030, com o objetivo de alcançar a neutralidade total de carbono até 2040. Além disso, a empresa pretende zerar as emissões de CO2 em todos os seus produtos europeus até 2035.
S&P projeta reciclagem de baterias como chave para sustentar o crescimento dos veículos elétricos
De acordo com um estudo da S&P Global Mobility, a reciclagem de baterias será um fator estratégico essencial para sustentar o avanço da mobilidade elétrica nas próximas décadas.
Com o aumento esperado nas vendas de veículos elétricos (EVs) até o final da década, a pressão sobre a cadeia de suprimentos de matérias-primas críticas, como lítio, cobalto e níquel, tende a se intensificar.
A S&P alerta que, embora atualmente haja um excedente de lítio, as projeções apontam para um déficit já em 2027. Esse cenário deve levar a indústria de automóveis a acelerar investimentos em reciclagem de sucata da produção e de baterias em fim de vida útil, como forma de controlar custos e reduzir gargalos no fornecimento.
A estimativa é que, até 2032, cerca de 900 GWh de baterias usadas estejam disponíveis para reciclagem — energia suficiente para abastecer 12 milhões de veículos elétricos.
De acordo com a S&P Global Mobility, empresas como Volkswagen, Audi, Mercedes-Benz e Tesla já firmaram parcerias estratégicas ou criaram operações próprias de reciclagem para mitigar riscos e garantir maior autonomia no fornecimento de insumos.
A análise da S&P reforça que a aposta na reciclagem não é apenas uma medida ecológica, mas uma necessidade econômica e geopolítica para a consolidação do mercado global de veículos elétricos.
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