Crise climática traz mais oportunidades que riscos para o negócio da Renner, e agora a varejista tem isso na ponta do lápis
Brasileira foi a segunda companhia a publicar novo modelo de relatório de sustentabilidade, que será obrigatório no Brasil para empresas de capital aberto a partir de 2027

O quanto uma empresa pode ganhar e perder com as mudanças climáticas? É possível, sim, medir em reais os riscos e as oportunidades gerados pela crise do clima, e duas empresas brasileiras já sabem como fazer isso: Vale (VALE3) e Renner (LREN3).
As duas foram pioneiras em publicar um relatório “turbinado”, que mescla informações de sustentabilidade e dados financeiros, seguindo as normas do International Sustainability Standards Board (ISSB), conhecidas como IFRS S1 e S2.
Aqui no Brasil, esse novo padrão será obrigatório para empresas de capital aberto a partir de 2027 (para o reporte do exercício de 2026), mas elas podem se adiantar de forma voluntária — e foi o que as duas decidiram fazer.
O Seu Dinheiro conversou com porta-vozes da Renner para entender o que motivou essa decisão, o que a empresa descobriu com seu levantamento e o que pretende fazer agora com essas informações. Confira a seguir.
Crise climática e Renner: mais oportunidades do que riscos
A principal informação do relatório da Renner é que a empresa tem mais a ganhar do que a perder com as mudanças climáticas. Ou seja, a companhia vê mais oportunidades ao se adaptar às suas metas ambientais do que riscos e prejuízos causados pelas intempéries do clima. E essa máxima vale tanto para o curto como para o longo prazo.
Os riscos climáticos para os negócios identificados pela companhia são incêndios florestais, seca, inundações e ondas de calor.
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Por exemplo, as ondas de calor podem afetar as vendas da Renner e fazer com que o inventário de produtos não esteja adequado àquilo que o consumidor busca. Também faz aumentar o consumo de energia elétrica, devido à necessidade de refrigerar as lojas.
Já as oportunidades visualizadas pela Renner foram a venda de produtos mais sustentáveis e o uso de energia renovável de baixo impacto (que tem custo mais baixo).
No ano passado, por exemplo, a varejista de moda estima ter perdido cerca de R$ 18 milhões com ondas de calor e R$ 10 milhões com inundações, totalizando R$ 28 milhões em prejuízos.
Por outro lado, ganhou R$ 94 milhões com a venda de produtos mais sustentáveis e economizou R$ 34 milhões com o uso de energia renovável de baixo impacto.
No caso do longo prazo, para um período de 10 anos, a companhia calcula oportunidades de ganhar entre R$ 424 milhões e R$ 488 milhões com a venda de produtos mais sustentáveis e o uso de energia renovável de baixo impacto.
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Também para o período de 10 anos, estima um impacto de R$ 85 milhões a R$ 99 milhões devido a inundações e ondas de calor, além de um gasto adicional de R$ 148 milhões a R$ 172 milhões com o uso de matérias-primas de menor impacto ambiental.
Ou seja: ainda que a empresa pague mais caro por matérias-primas mais sustentáveis, o ganho com os produtos derivados delas compensa esse custo adicional. Portanto, o saldo é positivo para a empresa, de acordo com o relatório.
Meio caminho já estava andado, segundo o CFO
Daniel Martins, CFO da Renner, conta que a empresa criou sua área de sustentabilidade em 2013 e, desde então, passou a publicar relatórios anuais ESG. Portanto, segundo ele, boa parte do caminho para o atual relatório já estava adiantada.
“O grande salto que a gente tinha que fazer era a parte de mensuração dos riscos”, explica.
“Conversamos com o nosso conselho e com o grupo executivo, e concluímos que fazia todo o sentido se antecipar como parte de um aprendizado e até mesmo de cooperação com o restante da indústria, porque, uma vez que a gente puxa essa agenda, teria outras empresas que viriam junto.”
O processo começou em janeiro de 2024, com o início dos trabalhos de diagnóstico. Por volta de junho, essa fase foi concluída e, em seguida, veio o período de aprovação dos dados e de construção do relatório em si.
Decisões de negócio baseadas em questões climáticas
Qual a relevância desse report para a empresa e para o mercado? Segundo o CFO da Renner, a mensuração financeira dos riscos e das oportunidades climáticas traz mais clareza, tanto interna quanto externamente, do que deve ser priorizado e como deve ser endereçado.
E isso, segundo ele, também deve ser considerado pelo mercado na hora de investir. “Eles [os riscos climáticos] interferem na capacidade da companhia de gerar valor, fazer uma geração de fluxo de caixa, seja no sentido dos investimentos necessários, seja no sentido de que um risco mal gerenciado pode atrapalhar o resultado de uma empresa”, afirma Martins.
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“A gente tem vários exemplos de empresas que menosprezaram ou não conseguiram gerenciar bem esse risco, o quanto isso impactou, seja no sentido econômico, no sentido do custo de lidar com aquela situação, seja no risco de imagem.”
E quais decisões da Renner levam em conta questões climáticas? Martins e o diretor de Sustentabilidade, Eduardo Ferlauto, citam como exemplo a decisão de abrir uma nova loja, de onde colocar um centro de distribuição e até mesmo o sortimento de produtos em cada ponto de venda.
“Essa parte de resiliência climática e agenda de sustentabilidade faz parte de toda e qualquer decisão de negócio hoje na Renner. Eu acho que esse é um ponto importante. Ela não é considerada ou tratada como uma agenda separada”, diz Martins.
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