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BET QUE NÃO É BET?

Bilionária brasileira que fez fortuna sem ser herdeira quer trazer empresa polêmica para o Brasil

Semanas após levantar US$ 1 bilhão em uma rodada de investimentos, a fundadora da Kalshi revelou planos para desembarcar no Brasil

Luana Lopes Lara, fundadora da Kalshi.
Luana Lopes Lara, fundadora da Kalshi. - Imagem: Reprodução/Instagram

E se, em vez de investir em ações ou outros títulos, o investidor pudesse literalmente ganhar dinheiro com previsões sobre o futuro? Essa é a proposta da Kalshi, empresa americana que construiu um mercado em torno de eventos que ainda não aconteceram — e agora mira um país que adora apostas: o Brasil

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O interesse da startup — que se apresenta como um mercado de previsões — pelo mercado brasileiro surge em um momento especialmente favorável para a empresa, cuja natureza que remete a uma casa de apostas, ainda que não se apresente como tal, desperta polêmicas.  

Há poucas semanas, a Kalshi levantou US$ 1 bilhão em uma rodada de investimentos que elevou sua avaliação para US$ 11 bilhões, algo em torno de R$ 61 bilhões pelo câmbio atual.  

O novo fôlego financeiro acelerou a estratégia de expansão internacional e colocou os holofotes sobre a fundadora brasileira da empresa, Luana Lopes Lara.  

Segundo a Forbes, Luana conquistou o posto de bilionária “self-made” mais jovem do mundo, ou seja, alguém que construiu a própria fortuna sem herança. O patrimônio da empresária está avaliado em US$ 1,3 bilhão (R$ 7,2 bilhões). 

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Em entrevista ao Valor Econômico, Luana confirmou que o Brasil está no radar. Segundo ela, a companhia pretende acelerar o crescimento fora dos Estados Unidos e vê o país como um dos destinos prioritários, ainda que os planos estejam em estágio inicial.  

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“Ainda não temos nada para anunciar, mas esperamos que, no início do ano que vem, consigamos divulgar alguma novidade e começar a operar no Brasil”, afirmou. 

"Não existe nada parecido com a Kalshi no Brasil. Ou existem casas de apostas, ou existem mercados de derivativos, que é exatamente o que havia nos EUA antes da Kalshi existir. Não sabemos exatamente e estamos começando agora a analisar como o sistema funciona. Vamos tentar encontrar uma forma de levar o produto para o Brasil, mantendo o nosso modelo de funcionamento, que é o mercado em si”, disse na entrevista ao Valor. 

Com o caixa reforçado, a empresa afirma que os recursos do novo aporte serão direcionados principalmente à expansão da integração com corretoras e à formação de novas parcerias com veículos de comunicação.  

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Mas, afinal, o que exatamente faz a Kalshi — e por que ela desperta tanto interesse? 

O que é a Kalshi? 

Fundada em 2018 por Luana e seu sócio, Tarek Mansour, a Kalshi se define como uma empresa de mercado de previsões focada na negociação de contratos atrelados ao resultado de eventos futuros. 

A ideia para o negócio nasceu de uma simples constatação. “Tarek e Luana observaram que muitas decisões financeiras eram motivadas por previsões sobre eventos futuros. No entanto, perceberam uma lacuna no mercado: não havia uma maneira direta para as pessoas negociarem com base nos resultados desses eventos”, diz a própria empresa, no site. 

A proposta foi criar uma plataforma mais direta e acessível, na qual os usuários pudessem negociar posições relacionadas a acontecimentos específicos.  

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O mercado de apostas de sim e não 

Na prática, o funcionamento é binário: os investidores compram contratos de “sim” ou “não” para determinado evento. Se o evento ocorrer, o contrato paga US$ 1; se não, paga zero. 

A plataforma permite que os usuários apostem em diferentes temas e situações. Vão desde indicadores da economia dos Estados Unidos, como inflação e taxa de juros, até esportes, cultura e eventos climáticos.  

Por exemplo, uma das principais apostas na plataforma é quem será o próximo vencedor das eleições presidenciais dos EUA. Mas temas como “qual a temperatura mais alta registrada em Nova York hoje” também ganham força. 

Hoje, porém, o coração do negócio ainda bate no esporte: mais de 90% do volume negociado na plataforma vem de apostas esportivas, segundo a Forbes

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"A visão da Kalshi é permitir que as pessoas capitalizem em suas opiniões, negociem no âmbito do cotidiano e protejam-se dos riscos relacionados a elas”, disse a empresa. 

Mas essa proposta só foi possível porque a Kalshi obteve autorização dos reguladores para operar neste segmento em 2020.  

startup se tornou a primeira bolsa totalmente regulamentada nos EUA exclusivamente a contratos de eventos, ao ser oficialmente designada como Mercado de Contratos Designado (DCM, na sigla em inglês) pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), o regulador do mercado de derivativos no país. 

É bet? É bolsa? É corretora? 

Ainda assim, uma dúvida que acompanha a empresa desde o início persiste: afinal, a Kalshi é uma bet, uma bolsa de valores ou um modelo de negócios híbrido dos dois? 

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A associação com casas de apostas é quase inevitável. No fim das contas, o usuário coloca dinheiro em previsões sobre o futuro.  

Mas a fundadora faz questão de rebater essa leitura. “Não somos uma casa de apostas”, costuma afirmar. Para ela, a lógica do negócio se aproxima muito mais da de uma corretora ou de uma bolsa de valores. 

Segundo a brasileira, a diferença está no incentivo econômico do negócio. Na Kalshi, a empresa não aposta contra o usuário. Ela só cria o mercado em que compradores e vendedores negociam entre si.  

“A Kalshi funciona como uma bolsa de valores, onde as pessoas compram e vendem com base em sua previsão do futuro. E é mais do que esportes. Pode ser sobre economia, política, saúde, qualquer evento futuro mensurável”, disse a empresária, em entrevista à Exame

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“O que é importante entender é que a Kalshi não está apostando contra você, ela apenas cria o mercado onde você pode negociar com outros usuários”, acrescentou.  

Em uma casa de apostas tradicional, o usuário aposta contra a própria plataforma, que estrutura probabilidades de forma a manter vantagem.  

Kalshi enfrenta disputas regulatórias 

Essa linha tênue entre aposta e mercado financeiro, porém, trouxe desafios para a Kalshi desde o começo.  

Apesar da autorização inicial da CFTC, em 2020, a Kalshi esbarrou em barreiras regulatórias alguns anos depois. No fim de 2023, o regulador rejeitou os contratos eleitorais da empresa, por considerá-los semelhantes a jogos de azar. 

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Porém, a companhia recorreu da decisão e, em setembro de 2024, obteve uma vitória importante: a Justiça autorizou a Kalshi a oferecer contratos eleitorais legais nos EUA. 

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