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Plataforma tem histórico de não impedir a disseminação de discurso de ódio; investigadores da ONU já concluíram que a rede social desempenhou um papel fundamental no fomento da violência em Mianmar e agora se vê envolvida em uma guerra civil
A Meta, de Mark Zuckerberg, entrou na mira da justiça de novo — mais uma vez, acusada de não impedir a disseminação de discursos de ódio no Facebook, que levaram à morte de um professor.
O caso aconteceu na Etiópia. Meareg Amare, professor de química da Universidade Bahir Dar, foi morto a tiros do lado de fora de sua casa.
Amare, que era da etnia Tigrayan, havia sido alvo de uma série de postagens no Facebook no mês anterior, alegando que havia roubado equipamentos da universidade, vendido e usado os lucros para comprar propriedades. Nos comentários, as pessoas pediram sua morte.
O filho de Amare, o pesquisador Abrham Amare, apelou ao Facebook para que as postagens fossem removidas, mas não houve resposta por semanas. Oito dias após o assassinato de seu pai, Abrham recebeu uma resposta do Facebook: uma das postagens, compartilhada por uma página com mais de 50.000 seguidores, havia sido removida.
Abrham, assim como seus colegas pesquisadores e o consultor jurídico da Anistia Internacional, Fisseha Tekle, entraram com uma ação contra a Meta, alegando que a empresa permitiu que o discurso de ódio corresse solto na plataforma, causando violência generalizada.
O processo pede que a empresa não priorize o conteúdo odioso no algoritmo da plataforma e aumente a equipe de moderação de conteúdo.
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A porta-voz da Meta, Sally Aldous, disse que o discurso de ódio e a incitação à violência são contra as políticas da empresa.
“Nosso trabalho de segurança e integridade na Etiópia é guiado pelo feedback de organizações locais da sociedade civil e instituições internacionais”, afirmou.
“Empregamos funcionários com conhecimento e experiência local e continuamos a desenvolver nossas capacidades para detectar conteúdo infrator nos idiomas mais falados no país, incluindo amárico, oromo, somali e tigrínia”, acrescentou.
A Etiópia está envolvida em uma guerra civil desde 2020. O primeiro-ministro Abiy Ahmed respondeu aos ataques a bases militares federais enviando tropas para Tigray, uma região no norte do país que faz fronteira com a vizinha Eritreia.
Um relatório de abril divulgado pela Anistia Internacional e Human Rights Watch encontrou evidências substanciais de crimes contra a humanidade e uma campanha de limpeza étnica contra a etnia Tigrayans pelas forças do governo etíope.
O Facebook, que é usado por mais de 6 milhões de pessoas na Etiópia, tem sido um meio importante por meio do qual se espalharam narrativas que visam e desumanizam os Tigrayans.
Em uma postagem no Facebook de julho de 2021, o primeiro-ministro Ahmed se referiu aos rebeldes Tigrayan como “ervas daninhas” que devem ser arrancadas.
A postagem permanece na plataforma e o Facebook Papers revelou que a empresa não tinha capacidade para moderar adequadamente o conteúdo na maioria dos mais de 45 idiomas do país.
Até dezembro de 2020, Meta precisava de classificadores de discurso de ódio para oromo e amárico, duas das principais línguas faladas na Etiópia.
Para compensar a equipe inadequada e a ausência de classificadores, a equipe da Meta buscou outros proxies que permitissem identificar conteúdos perigosos, método conhecido como moderação baseada em rede.
Em 2021, a Meta designou a Etiópia como um país em risco “terrível” de violência e, em uma avaliação da resposta da empresa a conteúdo violento e incitante, classificou sua própria capacidade na Etiópia como 0 em 3.
No entanto, em outro documento, um membro da equipe da Meta reconheceu que a empresa carecia de “capacidade de revisão humana” para a Etiópia nas vésperas das eleições do país.
O caso da Etiópia não é o único no qual o Facebook é acusado de não controlar a disseminação de discursos de ódio e inflamar guerras civis.
Em 2012, a violência eclodiu entre a maioria budista e a minoria muçulmana Rohingya no Estado de Rakhine, em Mianmar. Na ocasião, havia temores de que as redes sociais, especialmente o Facebook, fossem capazes de amplificar as tensões existentes, resultando em violência.
Em 2014, um monge extremista e antimuçulmano, Ashin Wirathu, compartilhou uma postagem alegando que uma menina budista havia sido violentada por homens muçulmanos, viralizando no Facebook.
Dias depois, uma multidão atacou os acusados, e duas pessoas morreram na violência que se seguiu. Mais tarde, uma investigação policial descobriu que a acusação do monge havia sido inventada.
Investigadores de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) concluíram que o discurso de ódio no Facebook desempenhou um papel fundamental no fomento da violência em Mianmar.
Na época, o Facebook admitiu que não conseguiu evitar que sua plataforma fosse usada para "incitar a violência". Desde então, a rede social tomou algumas medidas para remover ativamente o discurso de ódio e banir oficiais militares.
*Com informações do Wired e do G1
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