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Concorrência digital

Distância entre Bradesco (BBDC4) e Itaú (ITUB4) aumenta ainda mais na bolsa. Há algo de errado na Cidade de Deus?

Último balanço do Bradesco levantou questionamentos sobre a transformação digital do banco: será que ele está ficando pra trás?

Banco Bradesco e Itaú
Imagem: Estadão Conteúdo/Shutterstock

Quando os bancos digitais e as fintechs começaram a cutucar os grandes bancos como Bradesco (BBDC4) e Itaú (ITUB4), alguns anos atrás, um enorme desafio se desenhou diante das instituições financeiras tradicionais. 

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Os novos concorrentes, com suas cores joviais, comunicação didática e produtos isentos de tarifas, foram ganhando novos clientes a um ritmo assustadoramente rápido e mudaram completamente o modo de a população se relacionar com as finanças.

Mais do que isso, alguns foram obtendo tanto sucesso no esforço de ganhar espaço no mercado que conseguiram, inclusive, tornar-se queridos pelos seus clientes, uma façanha admirável para um banco.

E, se alguém ainda tinha dúvidas sobre a necessidade de investimento em digitalização dos grandes bancos, a pandemia de Covid-19 veio para enterrá-las de vez. 

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Planos que estavam traçados para o médio-longo prazo tiveram de ser antecipados e os bancos foram obrigados a fazer uma escolha estratégica: incorporar o digital plenamente ou investir em algo separado.

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O tempo dirá quem tomou a direção certa, mas os resultados serão cruciais para manter a relevância dessas instituições ao longo do tempo.

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Só que, após a última rodada de balanços dos bancos brasileiros, o mercado começou a se questionar se um deles se atrasou para tomar o bonde da revolução digital.

Isso porque o Bradesco registrou um resultado tão decepcionante que forçou uma brutal correção de preços da ação na bolsa.

No dia seguinte à divulgação do balanço do terceiro trimestre, o papel levou um tombo de 17% e ampliou a distância que a ação sempre manteve do seu principal concorrente, o Itaú. Ou, como disse um analista, “a boca de jacaré aumentou”.

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Bradesco: mais que um balanço ruim?

As explicações técnicas para o balanço ruim do Bradesco passam por um erro no ciclo de crédito e um posicionamento infeliz na tesouraria, de acordo com analistas. 

Mas o time do BTG Pactual foi além e chegou a ventilar a possibilidade de que o banco com sede na Cidade de Deus, em Osasco (SP), estaria com a transformação digital defasada.

“Os resultados de tesouraria devem se recuperar apenas no final de 2023, e a inadimplência se normalizará em algum momento, mas nos perguntamos se a transformação digital do Bradesco está ficando para trás, traduzindo-se em uma lacuna maior de ROE [rentabilidade] e um desconto ‘justo’ maior do valuation em relação aos níveis históricos”.

BTG Pactual

De fato, a rentabilidade do Bradesco sofreu um duro golpe no terceiro trimestre. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) caiu 5,6 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2021, de 18,6% para 13%. 

Mas atribuir essa queda a uma defasagem na transformação digital passa por um exercício que foge um pouco da objetividade. Como fazer essa avaliação de maneira justa? Afinal, o Bradesco já chegou a ser reconhecido com prêmios pelos seus esforços nessa empreitada.

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Bem, algo possível de identificar mais claramente foi o caminho escolhido por Bradesco e Itaú no percurso rumo à digitalização.

Digitalização “terceirizada”

No final de 2017, o Bradesco lançou o Next, um banco totalmente digital voltado para o público jovem e com o intuito de fazer um contraponto em meio ao borbulhar das fintechs. Hoje, o Next conta com 13,6 milhões de clientes.

Além dele, o Bradesco comprou a participação do Banco do Brasil no Digio, banco digital focado em pessoas físicas, hoje com 4,5 milhões de contas totais.

Já na concorrência com as plataformas digitais de investimento, o Bradesco decidiu reativar a Ágora. A corretora era líder no mercado para pessoas físicas quando foi comprada pelo banco em 2008, mas nos anos seguintes perdeu espaço para nomes como a XP.

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O investimento em apps separados do Bradesco deu a impressão aos investidores de que esse foi o grande posicionamento do banco na seara digital. Só que especialistas no assunto defendem que os bancos vão precisar se reinventar para sobreviver, mais do que marcar uma presença digital.

“Os novos vencedores vão operar como empresas de tecnologia, com recursos avançados de dados, tecnologia de ponta e um modelo operacional ágil”, afirmou a McKinsey em relatório. Para a consultoria, o atual modelo de banco de varejo universal é insustentável no mundo digital.

Mas o diretor de Relações com Investidores do Bradesco Carlos Firetti acredita que a percepção de que a digitalização do banco está concentrada nos aplicativos externos está equivocada.

“Nosso ponto principal sempre foi a transformação do Bradesco. O que foi investido no Next é uma fração do que o banco investe na sua transformação total”, disse Firetti ao Seu Dinheiro.

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De acordo com Firetti, o Bradesco investe cerca de R$ 6 bilhões em tecnologia anualmente, e a maior parte desse orçamento vai para o processo de transformação.

Itaú: lição de casa dentro de casa

Em vez de lançar um banco digital separado, o Itaú optou por iniciar a transformação dentro de casa.

“A decisão mais difícil de tomar foi como a gente enfrentaria isso. E a conclusão que a gente chegou foi que precisaria trazer pra dentro em vez de criar um banco digital do lado”, disse recentemente o presidente do Itaú, Milton Maluhy.

De acordo com o presidente da instituição, dos cerca de 3.800 serviços de negócios dentro do banco em tecnologia, hoje metade deles já está 100% modernizada. 

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“A gente quebrou os grandes monolitos sistêmicos e reescreveu todo o código em tecnologia nova. Já estamos com metade dos nossos sistemas rodando em cloud”, relatou Maluhy.

Cloud computing, ou computação em nuvem, é uma tendência em praticamente todas as indústrias. É tida como pré-requisito para a transformação digital dos grandes bancos por trazer maior agilidade a um custo mais baixo.

O Itaú também tentou cortar caminho via aquisições, como foi o caso da XP em 2017. Mas o negócio foi desfeito justamente porque o Banco Central vetou a possibilidade de o banco assumir o controle da corretora.

Vale destacar que a transformação do Itaú em algum momento também passou por lançar aplicativo à parte. No final de 2019, o banco lançou o iti, que começou como um aplicativo de pagamentos e hoje evoluiu para banco digital.

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Bradesco e Itaú: diferenças históricas 

Não é de hoje que os dois maiores bancos privados brasileiros adotam filosofias diferentes de gestão. Ambos chegaram à posição em que se encontram liderando o processo de consolidação pelo qual o sistema financeiro passou nas últimas décadas.

O Itaú conquistou a liderança em ativos após a união com o Unibanco, no furacão da crise financeira de 2008. Já o Bradesco fez o que provavelmente foi o último movimento de consolidação com a aquisição da operação local do HSBC em 2015, por R$ 16 bilhões.

Da porta para dentro, porém, os dois bancos adotam linhas bem distintas. O Itaú é considerado um “banco de engenheiros” — uma referência à formação da maioria dos executivos do primeiro escalão.

Já o Bradesco valoriza a promoção interna e os quadros da própria Cidade de Deus. Esse inclusive é o caso de Octavio de Lazari, o atual CEO, que entrou no banco aos 15 anos como office boy.

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O mercado sempre preferiu o modelo do Itaú.

Na visão de um executivo com passagem por grandes bancos, a transformação se deu porque o conselho de administração do Itaú “dá a caneta” aos executivos para tocar o dia a dia, uma autonomia que ele acredita faltar no Bradesco.

No entanto, vale ressaltar que o Bradesco não está parado procurando formas nas nuvens. O banco tem uma meta de estar com 75% das transações de canais digitais operando em cloud até 2025 e escolheu a Azure, da Microsoft, para fazer a migração.

De acordo com o banco, as operações digitais hoje já representam 98% das transações totais, incluindo os clientes do Next, do Digio e os 76,8 milhões do bancão. Isso, na visão de Firetti, prova que a operação do Bradesco não está atrás de nenhum dos principais concorrentes.

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Erro de previsão

Portanto, não dá para afirmar, categoricamente, que o resultado ruim da operação do Bradesco no terceiro trimestre foi provocado por um atraso na transformação digital. No entanto, o resultado colocou uma lente de aumento sobre a estratégia do banco.

De acordo com um analista próximo ao Bradesco, o descolamento do balanço em relação às expectativas do mercado demonstra que faltou boa gestão. Ele citou o guidance do Bradesco para este ano, divulgado no final de 2021, que se mostrou otimista se comparado com o cauteloso Itaú.

No primeiro trimestre, uma revisão nas projeções do Bradesco para sua operação acabou interpretada como uma tentativa de fazer com que elas ficassem mais alinhadas com as do seu principal concorrente.

“Havia uma disparidade de entendimento sobre o comportamento do mercado. Acho que, naquele momento, o Bradesco não reforçou tanto as provisões contra devedores duvidosos e viu o mercado se comportar muito pior do que ele imaginava”, avaliou o analista.

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O erro no ciclo de crédito deve custar mais alguns trimestres para o Bradesco em termos de recuperação. Vale ressaltar, inclusive, que Lazari deixou claro que as coisas vão piorar antes de melhorar e que a inadimplência ainda não atingiu o pico.

Até lá, é certo que tanto o Itaú quanto o Bradesco seguirão tocando suas estratégias de transformação digital, por questão de sobrevivência.

Mas, segundo um analista que vê o Itaú na frente nesse processo, o Bradesco deveria “procurar o mesmo psicólogo que Pedro Moreira Salles e Roberto Setubal procuraram”.

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