No ônibus e no hotel, a Marcopolo quer garantir as suas férias sem coronavírus
James Bellini, presidente da Marcopolo, conta como as medidas para tornar os ônibus mais seguros começam a render frutos em outras áreas e também os impactos da crise para a companhia

Desde que a pandemia do coronavírus atingiu em cheio o setor de transporte, a Marcopolo se lançou em uma missão: retomar a confiança das pessoas em fazer viagens de ônibus.
Com os principais clientes operando com no máximo 20% da frota em circulação e ainda com capacidade reduzida, a resposta demandou uma agilidade inédita na história da tradicional fabricante gaúcha de carrocerias fundada em 1949, segundo me contou James Bellini, presidente da Marcopolo.
O resultado surgiu em menos de três meses com o lançamento da plataforma Biosafe. Trata-se de um conjunto de soluções para os ônibus que vão desde o interior redesenhado para permitir um maior distanciamento entre as poltronas até a descontaminação por sistemas de UV do ar condicionado e sanitários.
“Com a Biosafe é praticamente impossível que haja uma contaminação dentro do ônibus”, me disse Bellini, enquanto tomava o tradicional chimarrão durante a entrevista feita por videoconferência.
A nova configuração dos assentos da Biosafe permite que os ônibus – novos ou adaptados – saiam em viagem com até 34 pessoas. Ou seja, as empresas podem transportar até 11 pessoas a mais do que nos modelos tradicionais, que em tempos de pandemia só podem partir com os lugares da janela ocupados.
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Os modelos adaptados ao “novo normal” já rendem algumas vendas, inclusive para o exterior. Uma delas foi para a empresa chilena Andimar, que comprou 13 ônibus para o transporte privado de passageiros de uma mineradora no país.
O programa inclui ainda um serviço de descontaminação por um sistema de névoa seca – ou no inglês "fog in place" (FIP). O sistema acabou atraindo a atenção de empresas de outros setores.
A Marcopolo já fechou contratos com hotéis de Trancoso, na Bahia, e vem recebendo diversas consultas. Ou seja, a empresa pode garantir não só o trajeto da sua viagem de férias livre de coronavírus como também a hospedagem .
“A gente ainda não pode precisar nada em termos de receita, mas estamos bem otimistas com essa diversificação.”
Antes e depois do coronavírus
Antes da pandemia, a Marcopolo vivia a expectativa de ter o melhor ano de sua história e inclusive planejava contratar mil pessoas. Mas com a crise, a empresa precisou se valer das medidas de redução de jornada e salário para manter o equilíbrio financeiro.
A projeção da empresa é de uma queda de 30% a 35% de queda na produção em relação ao planejado inicialmente. Mas a expectativa de Bellini é que as medidas de corte de custos aliada à alta do dólar, que melhora o preço das exportações, ajudem a compensar essa redução nos volumes.
“Não teremos um ano tão ruim. Não vai ser o que imaginávamos, mas dadas as circunstâncias não vai ser nenhum desastre, pelo contrário” — James Bellini, Marcopolo
No acumulado do ano, as ações da Marcopolo (POMO4) registram queda de mais de 30%, um desempenho bem pior que a baixa de pouco mais de 15% do Ibovespa no mesmo período.
Bellini disse que o resultado não podia ser diferente diante do impacto da crise para o setor. Mas manda um recado aos quase 90 mil acionistas da companhia na B3: “Tenham paciência. Esperem, que o nosso momento vai chegar, e não será tão longe assim.”
[captacao]
Leia a seguir alguns dos temas tratados na entrevista com James Bellini:
A Marcopolo hoje
Hoje todas as nossas plantas estão operando, inclusive a da Argentina, que estava há mais tempo parada. E a atividade de certa forma tem sido surpreendente. Mesmo com o mercado parado tivemos algumas vendas, possibilitando colocar a fábrica em operação já com clientes concretos e vendas novas.
No mercado de ônibus urbanos, as frotas estão sucateadas, e isso vai demandar uma renovação que se fala em torno de 4 mil a 5 mil unidades. E essa demanda por novos ônibus que vai se iniciar a partir do ano que vem certamente vai nos dar um bom fôlego.

Mudança de perspectiva
A crise afetou bastante o setor, obviamente. Nós vínhamos num processo muito forte de aumento de produção e crescimento. No início de março nós planejávamos contratar mil pessoas. A demanda estava muito forte. Nós estávamos nos preparando psicologicamente para o melhor ano da nossa história quando veio a crise.
A nossa projeção é que, apesar de tudo, não teremos um ano tão ruim. Não vai ser o que imaginávamos, mas dadas as circunstâncias não vai ser nenhum desastre, pelo contrário. Vai ser um ano até relativamente promissor, porque vai nos deixar preparados para o ano que vem, quando esperamos uma retomada.
Medidas na crise
Nossa carteira era muito boa, e tivemos a sorte de ter muito poucos cancelamentos. Como nós diminuímos o ritmo de produção pela metade, conseguimos alongar essa carteira. Com o alongamento, somado às alavancas permitidas pelo governo [de redução de carga de trabalho e salários], diminuímos os custos na mesma proporção.
“A gente está conseguindo manter o nível de atividade sem entrar no vermelho e até com certo lucro. Apresentamos um primeiro trimestre relativamente bom, e esse segundo trimestre não vai ser ruim.”
Nível de produção
De uma maneira geral, todas as nossas operações estão muito alinhadas com o que está acontecendo no Brasil. Estamos no patamar de 50% da capacidade em praticamente todas as fábricas, com exceção da Austrália, porque a crise lá foi um pouco mais leve.
Exportações e Caminho da Escola
Houve dois fatores que nos ajudaram na crise. O primeiro deles é o Caminho da Escola [programa do governo federal de compra de ônibus escolares]. A gente ganhou a licitação para fornecer 4,8 mil dos 6,2 mil ônibus no ano passado, e isso tem sido um vetor importante para manter as fábricas ativas.
O outro fator foi justamente a exportação, que não teve essa queda tão acentuada como aqui no Brasil, principalmente em alguns negócios pontuais que a gente fez na África. Tudo isso com a ajuda da alavanca do câmbio ajuda a dar uma compensada no volume.
Vendas na crise
Talvez em função da nossa preocupação com a biossegurança, a plataforma que a gente lançou já teve reflexos em novas vendas, o que nos possibilita manter o ano inteiro no mínimo nesse nível de produção, mas a gente acha que vai crescer.
A nossa projeção é ter até o fim do ano em torno de 30% a 35% de queda em relação ao que estava planejado. Então com a redução de custos a gente consegue equilibrar a empresa.
O que muda no setor
A gente não tem certeza absoluta do que vai acontecer, mas temos os nossos sentimentos e estamos trabalhando nessa direção. Em termos de perspectivas da Marcopolo e do setor, estamos vendo que a biossegurança passou a ser crucial com a pandemia do covid-19.
A exemplo do 11 de setembro, a gente entende que o comportamento das pessoas no quesito segurança onboard deverá mudar radicalmente. E essa mudança radical de comportamento deverá gerar boas oportunidades para quem, a exemplo da Marcopolo, estiver preparada para atender essas exigências.
Confiança no ônibus
A Marcopolo lançou a Biosafe, uma plataforma que traz para o mercado um conjunto de soluções que vão trazer tranquilidade para os passageiros e buscando a retomada da confiança das pessoas no ônibus.
Com a Biosafe estamos desmistificando que o ônibus é um vetor de contaminação. Por exemplo: existe a sensação de que o ar condicionado pode transmitir o vírus.
Só que dentro de um ônibus a renovação de ar acontece 20 vezes por hora, ou seja, todo o ar é trocado a cada três minutos. Em nenhum ambiente, como shopping ou lojas, existe essa taxa de renovação. E com a descontaminação do ar através de lâmpadas de UV dentro do equipamento é praticamente impossível que haja uma contaminação dentro do ônibus.
Novo ônibus
Hoje os ônibus estão saindo só com pessoas na janela, ou seja, metade da ocupação. Um ônibus de 46 lugares está saindo com 23 pessoas. Com o nosso kit biosafe, o número sobe para 34 pessoas. São três fileiras de assento com dois corredores, com isso tu tens um distanciamento entre todas as poltronas de no mínimo um metro.
Então o ônibus está levando de 10 a 11 pessoas a mais, e isso viabiliza o negócio. Até porque quando tu consideras que, na compra de um ônibus novo, a configuração de 2x2 versus a configuração de 1x1x1 não tem muita diferença de custo. Para quem faz a conversão, a gente entende que esses 10 ou 11 passageiros que leva a mais é o suficiente pra pagar o processo.

Vantagem contra o avião
Outro fator que a gente entende que vai contribuir bastante nessa retomada é a queda de demanda do setor aéreo, seja pelo medo da aglomeração e falta de distanciamento entre as poltronas, seja pelo preço da passagem, que já subiu muito e tende a subir ainda mais. Então quando as pessoas começarem a viajar novo vão optar pelo ônibus.
Dos ônibus para o hotel
Nós criamos há um ano a Next, o braço de inovação da Marcopolo, com foco em gerar novos negócios. Com crise, a gente conseguiu agilizar esse processo e fazer o lançamento de forma muito rápida. E junto com isso vieram muitas oportunidades.
Uma delas, nesse desenvolvimento da Biosafe, foi o FIP [fog in place], um sistema de névoa seca sanitizante com nano partículas que desinfecta o ônibus e deixa uma camada residual que protege por até 72 horas.
E a gente começou a ter muitas consultas e demandas de outros setores nesse tipo de serviço, e já temos negócio fechado com alguns hotéis de Trancoso e fazendo muitos testes em muitos hotéis. A gente ainda não pode precisar nada em termos de receita, mas estamos bem otimistas com essa diversificação.
Ônibus elétrico
A gente tem trabalhado muito em novos modais e fontes de gerar negócios por meio da Next, que vem desenvolvendo outros negócios e modais, como a Marcopolo Rail e a Marcopolo System. Nessa última, já temos um negócio de ônibus elétricos com a EDP e a BYD, fabricante de chassis elétricos. Nessa parceria, acabamos fechando com a prefeitura de São José dos Campos um negócio para iniciar neste e ano e ser implementado no ano que vem.
Apoio ao turismo
Uma hora as pessoas vão precisar viajar. E nós estamos trabalhando essa retomada com ações inclusive de marketing. Vamos trabalhar na questão de incentivo ao turismo interno no Brasil. As pessoas têm que trabalhar, e quando isso acontecer vamos estar preparados. Não vai existir no mundo nenhum ônibus mais seguro que o da Marcopolo. As pessoas já estão começando a perceber isso e entendemos que esse é um vetor vai nos impulsionar fortemente lá na frente.
De paquiderme para leopardo
Estamos trabalhando fortemente em inovação não só no core [negócio principal]. Estamos na verdade redesenhando a Marcopolo, criando uma empresa completamente nova. Eu tenho trazido muito forte para o pessoal a questão da redefinição do tempo.
O que era ano é mês, o que era mês é semana, o que é semana é dia, e o que era dia é hora. Nós estamos no processo de transformar o paquiderme em leopardo, esse é o objetivo e estamos bem próximos disso.
Aquisições e caixa
Estamos olhando para possíveis oportunidades, temos algumas ideias em mente. Não estamos parados, mas obviamente agora não é o momento para se arriscar demais. Nós tínhamos um nível de caixa muito bom, em torno de R$ 1,2 bilhão no fim do ano passado. E por conta desse conservadorismo a gente ainda não precisou realizar nenhuma captação extraordinária, e estamos trabalhando internamente para continuar gerando caixa e temos conseguido.
Recado para os acionistas
Temos que ter plena consciência de que o nosso setor foi um dos mais afetados pela crise. O impacto foi gigantesco e brutal, por que com uma crise sanitária com um vírus espalhando pelo mundo inteiro matando um monte de gente é óbvio que um setor que trata basicamente de transportar pessoas aglomeradas tinha que sofrer muito mesmo.
Até hoje a maioria dos nossos clientes está com 15% a 20% das frotas em operação. Não teria como ser diferente a queda das ações na bolsa, isso é um reflexo do impacto muito forte da crise no setor.
Cientes disso, nós não cruzamos os braços. O pessoal aqui está extremamente motivado apesar da crise. E isso tem feito com que a empresa consiga apresentar bom resultado, e as perspectivas são as melhores. Só não vai acontecer se realmente o desastre for ainda maior.
Então, o meu recado para os acionistas é: tenham paciência. Esperem, que o nosso momento vai chegar, e não será tão longe assim.
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