A temperatura baixou um pouco na guerra comercial, trazendo alívio ao Ibovespa
Com os EUA assumindo uma postura menos agressiva nas disputas comerciais com a China, o Ibovespa e os mercados globais se reenergizaram e fecharam em alta firme

Os mercados financeiros globais vinham sofrendo com uma súbita onda de calor. Desde o início do mês, os atritos entre Estados Unidos e China voltaram a crescer — e faíscas começaram a sair das negociações entre as duas potências. A chama da guerra comercial foi reacesa.
E, com o clima mais abafado, as principais bolsas do mundo têm mostrado um fôlego menor: o Ibovespa, os índices acionários de Nova York e as praças da Europa assumiram um tom mais cauteloso — afinal, com a temperatura tão elevada, é melhor não fazer esforços enormes para não correr o risco de ter passar mal mais para frente.
Só que, nesta terça-feira (13), os termômetros finalmente baixaram um pouco. O governo americano assumiu uma postura menos agressiva em relação às disputas com a China — e os ventos frescos trouxeram alívio aos mercados globais, que já começavam a dar os primeiros sinais de desidratação em meio ao forte calor.
Logo pela manhã, o Ibovespa e as principais bolsas globais exibiam um tom negativo, ainda preocupados com as incertezas no front da guerra comercial. Mas esse tom durou pouco: a frente fria começou a fazer efeito ainda na primeira hora do pregão, e os mercados acionários se reenergizaram.
O Ibovespa, por exemplo, fechou a sessão em alta de 1,36%, aos 103.299,47 pontos — nos Estados Unidos, o Dow Jones (+1,44%), o S&P 500 (+1,48%) e o Nasdaq (+1,95%) também fecharam o dia com ganhos firmes. Na Europa, as principais bolsas seguiram trajetória semelhante e viraram ao campo positivo.
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Por fim, o mercado de câmbio foi outro que respirou aliviado com a queda na temperatura: por aqui, o dólar à vista recuou 0,39%, a R$ 3,9678, após bater os R$ 4,0125 na máxima do dia (+0,73%).
Ventos refrescantes
Os termômetros começaram a cair — e as bolsas, a subir — pouco antes das 11h (horário de Brasília). Neste horário, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) atualizou a postura do país em relação às tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em importações chinesas a partir de 1º de setembro.
E as novidades agradaram os mercados, já que sinalizaram uma 'trégua' entre Washington e Pequim: a autoridade comercial anunciou a retirada de alguns itens dessa lista. Além disso, alguns produtos — sobretudo eletrônicos e de vestuário — só começarão a ser sobretaxados a partir de 15 de dezembro.
A resposta ao anúncio foi imediata: os papéis de empresas americanas do setor de tecnologia, como Apple e Intel, começaram a subir forte e puxaram os índices de Nova York pra o alto. E, com os mercados acionários americanos ganhando força, as demais bolsas do mundo acabaram pegando carona nesse movimento — incluindo o Ibovespa.
"Tivemos um arrefecimento nas disputas comerciais", pondera Luis Sales, analista da Guide Investimentos, lembrando que, na segunda-feira, o dia foi de perdas fortes para os mercados acionários como um todo, o que abriu espaço para um movimento de recuperação mais intenso nesta terça-feira a partir da sinalização do USTR.
Vale lembrar que, nas últimas semanas, as tensões entre EUA e China voltaram a escalar: primeiro com o anúncio das sobretaxas de 10% às importações chinesas por parte do governo americano, e, depois, com a desvalorização do yuan ante o dólar — movimento que foi visto como uma retaliação de Pequim, já que o yuan mais fraco aumenta a competitividade das exportações do país.
No entanto, o mercado também sabe que o alívio desta terça-feira pode ser apenas momentâneo, uma vez que as negociações entre EUA e China têm passado por sucessivas ondas de calmaria e de turbulência. "É preciso ficar com o pé atrás. O Trump pode tuitar alguma coisa e mexer com tudo outra vez", diz um operador.
Pegando um bronze
Com o sol menos intenso, os agentes financeiros ficaram mais a vontade para assumir riscos no mercado de câmbio. Nos últimos dias, a incerteza em relação às disputas entre EUA e China fez com que as moedas de países emergentes perdessem força em bloco ante o dólar. Mas o alívio global visto nesta manhã disparou um movimento contrário:.
Em meio à percepção de que as disputas estão menos intensas, divisas como o peso mexicano, o rublo russo, o peso chileno, o rand sul-africano, o peso colombiano e o dólar neozelandês estão se valorizando em relação ao dólar — e o real vai junto.
Sol argentino
E, falando em calor, a Argentina — país que ostenta o Sol de Maio em sua bandeira — segue enfrentando um clima bastante quente. Por lá, os mercados ainda refletem a incerteza relacionada à chapa encabeçada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner.
Nas prévias das eleições de outubro, os opositores apareceram com larga vantagem em relação ao grupo liderado pelo atual presidente, Mauricio Macri — liderança que já é vista como irreversível pelos analistas políticos. Assim, os agentes financeiros continuam se questionando a respeito das diretrizes econômicas da chapa de oposição.
Um operador pondera, no entanto, que Fernández deve começar a mostrar uma postura mais amigável ao mercado financeiro nos próximos dias, comparando a atual situação da Argentina à do México pós-eleição de Andrés Manuel López Obrador — num primeiro momento, os agentes financeiros reagiram com pânico à vitória do opositor, mas, conforme ele assumiu um tom mais moderado em seu discurso, houve uma acomodação nos mercados.
Nesta terça-feira, o Merval — principal índice acionário da Argentina — fechou em forte alta de mais de 10%, recuperando parte das perdas de cerca de 35% contabilizadas ontem. No mercado de câmbio, o dólar segue avançando em relação ao peso argentino, com ganhos são de 6% hoje.
Juros amenos
Com o alívio visto no dólar à vista, as curvas de juros também passaram por um movimento de acomodação: ficaram estáveis na ponta curta e tiveram leve baixa na longa.
No vértice mais curto, os DIs com vencimento em janeiro de 2021 ficaram inalterados em 6,39%. Na longa, as curvas para janeiro de 2023 recuaram de 6,39% para 6,36%, e as com vencimento em janeiro de 2025 caíram de 6,88% para 6,87%.
Balanços amenos
Voltando ao Ibovespa, a temporada de balanços do segundo trimestre está perto do fim. Cinco empresas que compõem o Ibovespa reportaram seus números trimestrais recentemente e movimentam o índice nesta terça-feira: Eletrobras, Magazine Luiza, Cosan, Yduqs (ex-Estácio) e Rumo.
E, em linhas gerais, os números apresentados por essas companhias não trouxeram grandes elevações na temperatura dos mercados. O destaque ficou com Magazine Luiza ON (MGLU3), que subiu 3,93% após a empresa reportar um crescimento de 174,7% no lucro líquido na base anual, para R$ 386,6 milhões.
O pior desempenho dentro deste grupo ficou com Cosan ON (CSAN3), que recuou 1,36% mesmo após a companhia reportar lucro líquido de R$ 418,3 milhões no trimestre, revertendo o prejuízo de R$ 64,3 milhões contabilizado há um ano.
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