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Victor Aguiar

Victor Aguiar

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico. Em 2020, foi eleito pela Jornalistas & Cia como um dos 10 profissionais de imprensa mais admirados no segmento de economia, negócios e finanças.

Ruídos políticos

Ibovespa perde força e fecha em queda, mostrando cautela em relação ao cenário local

Declarações truncadas do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, trouxeram instabilidade às negociações. A fala, depois, foi esclarecida, mas o Ibovespa ainda terminou em baixa

Victor Aguiar
Victor Aguiar
17 de junho de 2019
10:31 - atualizado às 9:48
Selo marca a cobertura de mercados do Seu Dinheiro para o fechamento da Bolsa
Ibovespa e dólar ficam perto da estabilidade nesta tarde - Imagem: Seu Dinheiro

Os mercados brasileiros estão bastante sensíveis ao noticiário político local. E um exemplo nítido dessa sensibilidade pode ser percebido nesta segunda-feira (17), com um ruído de comunicação trazendo fortes oscilações ao Ibovespa e ao dólar à vista no meio da tarde.

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Em linhas gerais, a sessão estava bastante tranquila: apesar da cautela em relação ao cenário de Brasília, o Ibovespa sustentava leve alta e o dólar operava em queda, na esteira do comportamento dos mercados globais. Só que, no início da tarde, ambos os ativos passaram por um susto — e não se recuperaram completamente dele.

Operadores e analistas me explicaram que tudo ocorreu por causa de um mal-entendido envolvendo uma declaração do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Mais cedo, ao comentar sobre a revisão das regras da aposentadoria, ele usou o termo "nova Previdência" — só que a fala foi inicialmente entendida como uma sinalização de que o governo pretendia lançar mais uma versão do texto.

"Nova Previdência", no caso, é um nome "artístico" da proposta elaborada pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, e que atualmente está em tramitação no Congresso. Mas essa confusão, embora tenha sido rapidamente desfeita, foi suficiente para mexer com os rumos dos mercados, como destacam as fontes.

O Ibovespa, por exemplo, sustentava desempenho levemente positivo até cerca de 14h45, quando as interpretações errôneas a respeito da fala de Onyx começaram a circular nas mesas de operação. A partir daí, o índice virou ao campo negativo — até conseguiu voltar à estabilidade depois, mas voltou a perder força no fechamento.

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Ao fim do pregão, o Ibovespa registrava queda de 0,43%, aos 97.623,25 pontos, muito perto da mínima do dia, aos 97.622,65 pontos — mais cedo, o índice chegou a subir aos 98.439,36 pontos (+0,41%).

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O dólar à vista passou por comportamento semelhante: a moeda americana operava em queda desde o início da sessão e bateu os R$ 3,8811 na mínima (-0,46%). Mas, com o estresse gerado pelos ruídos de comunicação acerca das declarações de Onyx, o dólar virou e foi aos R$ 3,9244 na máxima (+0,75%) — fechou com leve alta de 0,01%, a R$ 3,8995.

Onyx esteve presente num evento do setor de etanol em São Paulo nesta tarde. Ele defendeu o parecer do relator da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara, deputado Samuel Moreira, e afirmou que a proposta "vai permitir ao Brasil incluir a palavrinha que os investidores adoram, a palavrinha mágica que é a previsibilidade".

Ruídos políticos

Ao longo do dia, os mercados acompanham os desdobramentos do noticiário político na última semana e tentaram avaliar os eventuais impactos dos últimos acontecimentos para a tramitação da reforma da Previdência.

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Entre os fatores de risco no horizonte, destaque para o pedido de demissão do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy  — ele foi alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro no sábado (15).

"É uma situação bem negativa e que traz ruído", diz Rafael Passos, analista da Guide Investimentos. Os recentes atritos entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também trazem alguma cautela aos agentes financeiros, embora Passos pondere que as economias previstas seguem dentro das estimativas do mercado.

O próprio Maia se manifestou sobre o caso Levy, afirmando estar 'perplexo' com a demissão do presidente do BNDES. No entanto, o presidente da Câmara também disse que o episódio não afetará a Casa — trazendo alívio ao mercado quanto aos eventuais efeitos que o noticiário poderia trazer à tramitação da reforma.

Mas, de qualquer jeito, os agentes financeiros estão com o dedo no gatilho e prontos para agir caso o cenário de Brasília se deteriore — e os ruídos na fala de Onyx deixam clara essa postura.

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Tranquilidade no exterior

Lá fora, a expectativa em relação à decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed) — o Banco Central americano —, na próxima quarta-feira (19), dominou as atenções dos mercados. Em linhas gerais, os agentes apostam que a entidade poderá emitir sinais mais claros quanto a um eventual corte de juros no país num futuro próximo.

Essa percepção se deve aos dados econômicos mais fracos divulgados pela economia americana nas últimas semanas — e ao temor de que a guerra comercial com a China poderá trazer mais impactos à atividade do país.

Nesse contexto, o Dow Jones (+0,09%), o S&P 500 (+0,09%) e o Nasdaq (+0,62%) subiram em bloco — na Europa, o índice Stoxx 600 reduziu as perdas e fechou em queda de 0,09%. No mercado de câmbio, o clima é de menor aversão ao risco, com o dólar perdendo força ante a maior parte das divisas globais, sejam elas fortes ou de países emergentes.

Esse clima no mercado de moedas internacional vinha exercendo influência direta sobre as negociações no Brasil, mantendo o dólar à vista no campo negativo até o episódio envolvendo Onyx. Vale lembrar que o dólar à vista subiu mais de 1% na última sexta-feira (14), o que também abria espaço para movimentos de correção por aqui.

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DIs e o Copom

O Fed não é o único Banco Central que está na mira dos mercados globais. Por aqui, o BC também concentra as atenções dos agentes financeiros, já que a autoridade monetária também decide nesta quarta-feira o futuro da taxa Selic — e, assim como nos Estados Unidos, há expectativa quanto a possíveis sinalizações de cortes de juros no futuro.

Essa leitura mantinha os DIs no campo negativo nesta segunda-feira. Mas, com a instabilidade trazida pela fala do ministro-chefe da Casa Civil, os juros mudaram de comportamento e fecharam em leve alta.

As curvas para janeiro de 2021, por exemplo, terminaram em alta de 6,01% para 6,03%; entre os vencimentos mais longos, os DIs para janeiro de 2023 avançaram de 6,96% para 7,00%, e os para janeiro de 2025 foram de 7,51% para 7,56%.

A percepção de que o BC precisará promover ajustes negativos na Selic ganhou ainda mais força após o boletim Focus desta segunda-feira. Os economistas cortaram novamente a projeção de crescimento da economia em 2019, passando de 1% na semana passada para 0,93% hoje.

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Petrobras avançava, mas...

As ações da Petorbras apareceram na ponta positiva do Ibovespa durante boa parte do dia, refletindo o noticiário corporativo intenso relacionado à empresa.

A estatal fez em Sergipe sua maior descoberta desde o pré-sal, em 2006. De seis campos, espera extrair 20 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural, o equivalente a um terço da produção total brasileira. Divulgada no mês passado, a descoberta deve gerar R$ 7 bilhões de receita anual à estatal e sócias, calcula a consultoria Gas Energy.

No entanto, em meio à onda de cautela do meio da tarde, os papéis perderam força. Os ativos PN (PETR4) ainda conseguiram fechar o dia com leve ganho de 0,18%, mas as ações ON (PETR3) terminaram em queda de 0,13%.

Os bancos também se recuperam. Mas...

Comportamento semelhante foi verificado no setor bancário. Após fecharem a semana anterior no vermelho, os bancos aproveitavam o clima mais tranquilo para recuperar parte das perdas recentes, também aparecendo na ponta positiva do Ibovespa ao longo da manhã.

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Mas esse movimento perdeu força nas últimas horas do pregão. As units do Santander Brasil (SANB11), por exemplo, viraram e fecharam em queda de 0,71%, assim como Banco do Brasil ON (BBAS3) (-0,10%) e Itaú Unibanco PN (ITUB4) (-0,12%).

Os ativos do Bradesco seguiram caminho semelhante: o papéis ON (BBDC3) tiveram baixa de 0,56%, enquanto os PNs (BBDC4) recuaram 0,25%.

Minério em queda

Na China, o minério de ferro negociado no porto chinês de Qingdao — que serve como referência para o mercado de commodities — fechou a sessão em queda de 1,89%. E, com isso, papéis de empresas mais sensíveis às oscilações dos preços, como Vale e CSN, apareceram entre as principais quedas do Ibovespa hoje.

As ações ON da Vale (VALE3), por exemplo, caíram 2,33%, enquanto CSN ON (CSNA3) recuou 2,39%. Gerdau PN (GGBR4) teve baixa de 0,98%, e Usiminas PNA (USIM5) cedeu 0,69%.

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