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Declarações truncadas do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, trouxeram instabilidade às negociações. A fala, depois, foi esclarecida, mas o Ibovespa ainda terminou em baixa
Os mercados brasileiros estão bastante sensíveis ao noticiário político local. E um exemplo nítido dessa sensibilidade pode ser percebido nesta segunda-feira (17), com um ruído de comunicação trazendo fortes oscilações ao Ibovespa e ao dólar à vista no meio da tarde.
Em linhas gerais, a sessão estava bastante tranquila: apesar da cautela em relação ao cenário de Brasília, o Ibovespa sustentava leve alta e o dólar operava em queda, na esteira do comportamento dos mercados globais. Só que, no início da tarde, ambos os ativos passaram por um susto — e não se recuperaram completamente dele.
Operadores e analistas me explicaram que tudo ocorreu por causa de um mal-entendido envolvendo uma declaração do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Mais cedo, ao comentar sobre a revisão das regras da aposentadoria, ele usou o termo "nova Previdência" — só que a fala foi inicialmente entendida como uma sinalização de que o governo pretendia lançar mais uma versão do texto.
"Nova Previdência", no caso, é um nome "artístico" da proposta elaborada pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, e que atualmente está em tramitação no Congresso. Mas essa confusão, embora tenha sido rapidamente desfeita, foi suficiente para mexer com os rumos dos mercados, como destacam as fontes.
O Ibovespa, por exemplo, sustentava desempenho levemente positivo até cerca de 14h45, quando as interpretações errôneas a respeito da fala de Onyx começaram a circular nas mesas de operação. A partir daí, o índice virou ao campo negativo — até conseguiu voltar à estabilidade depois, mas voltou a perder força no fechamento.
Ao fim do pregão, o Ibovespa registrava queda de 0,43%, aos 97.623,25 pontos, muito perto da mínima do dia, aos 97.622,65 pontos — mais cedo, o índice chegou a subir aos 98.439,36 pontos (+0,41%).
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O dólar à vista passou por comportamento semelhante: a moeda americana operava em queda desde o início da sessão e bateu os R$ 3,8811 na mínima (-0,46%). Mas, com o estresse gerado pelos ruídos de comunicação acerca das declarações de Onyx, o dólar virou e foi aos R$ 3,9244 na máxima (+0,75%) — fechou com leve alta de 0,01%, a R$ 3,8995.
Onyx esteve presente num evento do setor de etanol em São Paulo nesta tarde. Ele defendeu o parecer do relator da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara, deputado Samuel Moreira, e afirmou que a proposta "vai permitir ao Brasil incluir a palavrinha que os investidores adoram, a palavrinha mágica que é a previsibilidade".
Ao longo do dia, os mercados acompanham os desdobramentos do noticiário político na última semana e tentaram avaliar os eventuais impactos dos últimos acontecimentos para a tramitação da reforma da Previdência.
Entre os fatores de risco no horizonte, destaque para o pedido de demissão do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy — ele foi alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro no sábado (15).
"É uma situação bem negativa e que traz ruído", diz Rafael Passos, analista da Guide Investimentos. Os recentes atritos entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também trazem alguma cautela aos agentes financeiros, embora Passos pondere que as economias previstas seguem dentro das estimativas do mercado.
O próprio Maia se manifestou sobre o caso Levy, afirmando estar 'perplexo' com a demissão do presidente do BNDES. No entanto, o presidente da Câmara também disse que o episódio não afetará a Casa — trazendo alívio ao mercado quanto aos eventuais efeitos que o noticiário poderia trazer à tramitação da reforma.
Mas, de qualquer jeito, os agentes financeiros estão com o dedo no gatilho e prontos para agir caso o cenário de Brasília se deteriore — e os ruídos na fala de Onyx deixam clara essa postura.
Lá fora, a expectativa em relação à decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed) — o Banco Central americano —, na próxima quarta-feira (19), dominou as atenções dos mercados. Em linhas gerais, os agentes apostam que a entidade poderá emitir sinais mais claros quanto a um eventual corte de juros no país num futuro próximo.
Essa percepção se deve aos dados econômicos mais fracos divulgados pela economia americana nas últimas semanas — e ao temor de que a guerra comercial com a China poderá trazer mais impactos à atividade do país.
Nesse contexto, o Dow Jones (+0,09%), o S&P 500 (+0,09%) e o Nasdaq (+0,62%) subiram em bloco — na Europa, o índice Stoxx 600 reduziu as perdas e fechou em queda de 0,09%. No mercado de câmbio, o clima é de menor aversão ao risco, com o dólar perdendo força ante a maior parte das divisas globais, sejam elas fortes ou de países emergentes.
Esse clima no mercado de moedas internacional vinha exercendo influência direta sobre as negociações no Brasil, mantendo o dólar à vista no campo negativo até o episódio envolvendo Onyx. Vale lembrar que o dólar à vista subiu mais de 1% na última sexta-feira (14), o que também abria espaço para movimentos de correção por aqui.
O Fed não é o único Banco Central que está na mira dos mercados globais. Por aqui, o BC também concentra as atenções dos agentes financeiros, já que a autoridade monetária também decide nesta quarta-feira o futuro da taxa Selic — e, assim como nos Estados Unidos, há expectativa quanto a possíveis sinalizações de cortes de juros no futuro.
Essa leitura mantinha os DIs no campo negativo nesta segunda-feira. Mas, com a instabilidade trazida pela fala do ministro-chefe da Casa Civil, os juros mudaram de comportamento e fecharam em leve alta.
As curvas para janeiro de 2021, por exemplo, terminaram em alta de 6,01% para 6,03%; entre os vencimentos mais longos, os DIs para janeiro de 2023 avançaram de 6,96% para 7,00%, e os para janeiro de 2025 foram de 7,51% para 7,56%.
A percepção de que o BC precisará promover ajustes negativos na Selic ganhou ainda mais força após o boletim Focus desta segunda-feira. Os economistas cortaram novamente a projeção de crescimento da economia em 2019, passando de 1% na semana passada para 0,93% hoje.
As ações da Petorbras apareceram na ponta positiva do Ibovespa durante boa parte do dia, refletindo o noticiário corporativo intenso relacionado à empresa.
A estatal fez em Sergipe sua maior descoberta desde o pré-sal, em 2006. De seis campos, espera extrair 20 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural, o equivalente a um terço da produção total brasileira. Divulgada no mês passado, a descoberta deve gerar R$ 7 bilhões de receita anual à estatal e sócias, calcula a consultoria Gas Energy.
No entanto, em meio à onda de cautela do meio da tarde, os papéis perderam força. Os ativos PN (PETR4) ainda conseguiram fechar o dia com leve ganho de 0,18%, mas as ações ON (PETR3) terminaram em queda de 0,13%.
Comportamento semelhante foi verificado no setor bancário. Após fecharem a semana anterior no vermelho, os bancos aproveitavam o clima mais tranquilo para recuperar parte das perdas recentes, também aparecendo na ponta positiva do Ibovespa ao longo da manhã.
Mas esse movimento perdeu força nas últimas horas do pregão. As units do Santander Brasil (SANB11), por exemplo, viraram e fecharam em queda de 0,71%, assim como Banco do Brasil ON (BBAS3) (-0,10%) e Itaú Unibanco PN (ITUB4) (-0,12%).
Os ativos do Bradesco seguiram caminho semelhante: o papéis ON (BBDC3) tiveram baixa de 0,56%, enquanto os PNs (BBDC4) recuaram 0,25%.
Na China, o minério de ferro negociado no porto chinês de Qingdao — que serve como referência para o mercado de commodities — fechou a sessão em queda de 1,89%. E, com isso, papéis de empresas mais sensíveis às oscilações dos preços, como Vale e CSN, apareceram entre as principais quedas do Ibovespa hoje.
As ações ON da Vale (VALE3), por exemplo, caíram 2,33%, enquanto CSN ON (CSNA3) recuou 2,39%. Gerdau PN (GGBR4) teve baixa de 0,98%, e Usiminas PNA (USIM5) cedeu 0,69%.
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