Duelo EUA x China esquenta e derruba Ibovespa ao nível de janeiro; dólar encosta em R$ 4,00
As tensões comerciais entre Estados Unidos e China aumentaram ainda mais. Nesse ambiente, os mercados assumiram uma postura de cautela extrema nesta segunda-feira (13) — por aqui, o Ibovespa caiu ao patamar de 91 mil pontos e o dólar à vista chegou a tocar os R$ 4,00

Dois dos mais importantes pistoleiros do mundo estão prontos para um duelo. Os cowboys Donald Trump e Xi Jinping estão se encarando numa rua empoeirada, prestes a sacarem suas armas ao menor sinal de hesitação do oponente. O ar está tão pesado que até mesmo os habitantes do mercado financeiro, tão acostumados com um bangue-bangue, estão prendendo a respiração.
Afinal, a guerra comercial entre Estados Unidos e China parece ter chegado ao ápice da tensão nesta segunda-feira (13), com o governo chinês anunciando a elevação de tarifas sobre produtos americanos — e trazendo um sentimento de extrema cautela às negociações no mundo todo.
Em Nova York, a escalada nos atritos entre os países culminou em perdas massivas: o Dow Jones fechou em queda de 2,38%, o S&P 500 recuou 2,41% e o Nasdaq teve perda de 3,41%. E, no Brasil, o Ibovespa não ficou para trás: terminou a sessão com baixa de 2,69%, aos 91.726,54 pontos.
Este é o menor nível de fechamento para o principal índice da bolsa brasileira desde 7 de janeiro, quando terminou o pregão aos 91.699,05 pontos. Com o desempenho de hoje, o Ibovespa já acumula queda de 4,8% em maio — desde o início do ano, contudo, os ganhos ainda somam 4,37%.
O mercado parece acreditar cada vez menos num final feliz para o filme da guerra comercial. Os cowboys, que pareciam estar acertando suas diferenças, dão indícios cada vez maiores de que podem partir para uma batalha de vida ou morte.
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Dobrando a aposta
A tensão envolvendo Estados Unidos e China tinha diminuído na última sexta-feira, quando o presidente americano, Donald Trump, sinalizou que as negociações entre os governos haviam evoluído. Mas, já no fim de semana, ele afirmou que o país asiático não deveria impor retaliações contra produtos americanos "ou as coisas ficariam piores".
Pois bem: nesta manhã, o ministério das Finanças da China anunciou, em comunicado, que irá impor tarifas sobre US$ 60 bilhões em produtos americanos a partir de 1º de junho — na última sexta-feira (10), os EUA colocaram um prática uma elevação, de 10% para 25%, nas importações sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses.
Com os atritos cada vez maiores entre as duas potências, o mercado vê um acerto comercial cada vez mais distante — e já teme os eventuais impactos que a disputa poderá trazer à economia global. "Isso só vai acalmar quando um dos dois baixar o tom e recuar. Mas acho que nenhum dos lados vai fazer isso tão cedo", diz um operador.
Dólar perto de R$ 4,00
Essa cautela não atingiu apenas o Ibovespa, contaminando também o mercado de câmbio. O dólar se fortaleceu em relação às moedas emergentes, como o como o peso colombiano, rand sul-africano, peso mexicano e rublo russo, num contexto de fuga de ativos de risco.
Tal cenário foi sentido por aqui: o dólar à vista fechou em alta de 0,84%, a R$ 3,9795 — na máxima do dia, chegou a R$ 4,0052 (+1,52%).
"Essa briga tem só um desfecho: a queda do crescimento global", diz Reginaldo Galhardo, gerente da Treviso Corretora de Câmbio. "E nós, como emergentes que somos, sofremos mais que os outros no curto prazo".
O contexto de cautela global e pressão no dólar gerou correções nas curvas de juros, especialmente nas mais longas. Os DIs para janeiro de 2021 fecharam em alta de 6,88% para 6,92%, os para janeiro de 2023 avançaram de 7,99% para 8,05%, e os com vencimento em janeiro de 2025 foram de 8,53% para 8,60%.
Cautela local
Por aqui, o noticiário também traz focos de tensão — o que contribui para manter a cautela dos investidores elevada.
Os mercados continuam acompanhando os debates da comissão especial da Câmara a respeito da reforma da Previdência, mas também ficam atentos a outros fatores, com destaque para a votação da medida provisória que faz a reestruturação administrativa do governo — evento que pode gerar um "tsunami", nas palavras do próprio presidente Jair Bolsonaro.
Além disso, os agentes financeiros seguem pessimistas a respeito da economia brasileira. O boletim Focus desta segunda-feira mostrou mais uma redução nas projeções de crescimento do PIB para 2019, passando de 1,49% na semana passada para 1,45% — é a 11ª retração consecutiva.
Caos aéreo
As ações da Azul e Gol despontaram entre as maiores perdas do Ibovespa, em meio ao fortalecimento do dólar ante o real — e ao imbróglio envolvendo o futuro da Avianca.
Os ativos de companhias aéreas são bastante sensíveis às oscilações do câmbio, já que esse tipo de empresa possui uma parte relevante de seus custos denominada em dólar — especialmente as despesas com combustível de aviação e arrendamento de aeronaves. Assim, com a moeda americana rondando a faixa de R$ 4,00, tais ações são as primeiras a serem pressionadas.
Nesse contexto, Gol PN (GOLL4) recuou 7,02% hoje, enquanto Azul PN (AZUL4) fechou em queda de 3,91%.
Além disso, vale lembrar que a Azul fez um requerimento nesta manhã para a aquisição de uma "Nova UPI", que contempla determinados horários de chegada e partida atualmente operados pela Avianca, incluindo os da ponte aérea Rio-São Paulo, por um valor mínimo de US$ 145 milhões.
Vale e siderúrgicas caem forte
Com a guerra comercial dominando as atenções, os papéis da Vale e das siderúrgicas também despontam entre os destaques negativos do Ibovespa nesta segunda-feira — tais companhias possuem forte ligação com o mercado chinês, e o acirramento das disputas do país com os EUA levantam preocupações quanto ao desaquecimento da economia do gigante asiático.
Vale ON (VALE3), por exemplo, caiu 4,1%, o que também pressionou os ativos PN da Bradespar (BRAP4) — detentora de fatia relevante do capital da mineradora —, em queda de 4,62%.
Entre as siderúrgicas, os papéis ON da CSN (CSNA3) recuaram 4,73%, seguidos por Usiminas PNA (USIM5), com perda de 2,97%, e Gerdau PN (GGBR4), em baixa de 2,40%.
Braskem sofre
As ações PNA da Braskem (BRKM5) terminaram a sessão em queda de 6,99%, também entre as principais perdas do Ibovespa. Os papéis perderam força no fim da manhã, após a Bolsa de Nova York (Nyse) suspender as negociações com os recibos de ações (ADS, ou American Depositary Shares na sigla em inglês) da petroquímica.
A decisão ocorreu após a empresa informar que não conseguirá entregar o formulário 20-F referente ao ano de 2017, que deveria ser apresentado no ano passado.
Blue chips seguem o embalo
As demais blue chips do Ibovespa — ações de grande liquidez e representatividade na carteira do índice — também tiveram um dia bastante negativo, impactadas pelo movimento aversão global ao risco nesta segunda-feira (13).
As ações da Petrobras, por exemplo, operam em queda desde o início do dia, também pressionadas pelo petróleo — o Brent fechou em queda de 0,55%, enquanto o WTI recuou 1%. Os papéis PN da estatal (PETR4) tiveram baixa de 2,92%, enquanto os ON (PETR3) tiveram perda de 2,86%.
O tom foi igualmente negativo no setor bancário: Banco do Brasil ON (BBAS3) tiveram o pior desempenho do segmento, em queda de 3,57%. Bradesco ON (BBDC3) (-2,86%), Bradesco PN (BBDC4) (-2,49%), units do Santander Brasil (SANB11) (-2,39%) e Itaú Unibanco PN (ITUB4) (-1,57%) também caíram forte.
Via Varejo destoa
Num dia tão negativo para o Ibovespa, apenas duas ações que compõem o índice terminaram a sessão em terreno positivo: BRF ON (BRFS3), com alta de 0,33%, e Via Varejo ON (VVAR3), com ganho de 2,6%.
No caso da Via Varejo, o mercado reagiu uma notícia publicada mais cedo pelo Valor PRO. De acordo com a publicação, o empresário Michael Klein e a XP Asset Management estariam estudando fazer uma proposta para adquirir as ações da empresa detidas pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA).
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