Uma onda de cautela tomou conta dos mercados e derrubou o Ibovespa aos 102 mil pontos
A postura mais paciente do Banco Central Europeu (BCE) em relação ao início do corte de juros na zona do euro mexeu com o sentimento dos mercados, disparando um movimento de aversão ao risco nos ativos globais. E o Ibovespa foi atingido em cheio

Na cabeça dos mercados, o plano era muito simples: o Banco Central Europeu (BCE) cortaria juros nesta quarta-feira (25) — ou, ao menos, daria um sinal forte de que a redução começaria em breve —, dando início à festa do afrouxamento monetário. Só que, na prática, as coisas não correram como o previsto. E, como resultado, o Ibovespa e as bolsas globais tiveram um dia de quedas intensas.
O principal índice acionário brasileiro terminou o pregão em forte baixa de 1,41%, aos 102.654,58 pontos — e olha que, no início do dia, o Ibovespa até chegou a ensaiar uma leve alta, batendo os 104.439,70 pontos (+0,31%). Lá fora, o tom foi semelhante: o Dow Jones (-0,47%), o S&P 500 (-0,53%) e o Nasdaq (-1,00%) caíram em bloco.
A cautela generalizada também contaminou o dólar à vista: ao fim da sessão, a moeda americana subiu 0,34%, aos R$ 3,7820, mas tocou os R$ 3,8065 no momento de maior estresse (+0,99%) — foi a primeira vez desde o dia 8 que o dólar apareceu na faixa de R$ 3,80.
Esse movimento global de correção se deve à quera de expectativa em relação à postura do BCE, que assumiu um tom bem menos agressivo que o esperado pelos mercados, sem demonstrar urgência para iniciar o corte de juros na zona do euro.
Assim, foi plantada a semente da dúvida na mente dos agentes financeiros: se o BCE está mais paciente, sera que o Federal Reserve (Fed) também mostrará uma postura parecida? E, no Brasil, o que o Banco Central fará com a Selic?
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Calminho, calminho
Nesta manhã, o BCE manteve as taxas de juros da zona do euro inalterada. E, embora uma parte dos agentes financeiros apostasse que o órgão poderia iniciar já hoje o processo de alívio monetário, a manutenção era o cenário-base dos mercados. Até aí, o plano corria conforme o imaginado.
Só que o comunicado da instituição já trouxe alguns elementos que provocaram estranheza, com destaque para as projeções para o futuro: o Banco Central Europeu afirmou que os juros devem permanecer nos níveis atuais ou mais baixos ao menos até o fim do primeiro semestre de 2020.
Isso quer dizer que o BCE deixou a porta aberta para iniciar um processo de corte de juros no futuro. Só que o tom empregado pelo órgão não foi exatamente incisivo: a instituição não parecia assumir um compromisso firme de ajuste negativo das taxas já na próxima reunião, em agosto.
Essa leitura ganhou ainda mais força quando o presidente do órgão, Mario Draghi, veio a público para cometar a decisão. Entre outros pontos, ele disse que um corte de juros já nesta quinta-feira sequer foi discutido pelos membros da instituição.
Para Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Asset, o BCE e Draghi mexeram com a sentimento dos mercados em relação à política monetária global, uma vez que a percepção generalizada era a de que um movimento iminente de corte de juros por parte dos principais bancos do mundo era garantido.
"O Draghi, ao dizer que eles nem conversaram sobre essa hipótese, fez todo mundo rever a sua mentalidade", diz Spyer, ressaltando que, agora, cresce a ansiedade em relação à próxima quarta-feira (31), data em que o Federal Reserve e o Banco Central do Brasil (BCB) divulgarão suas decisões de política monetária.
A analista Stefany Oliveira, da Toro Investimentos, faz leitura semelhante. Para ela, um corte de juros na Europa — ou, ao menos um sinal mais forte de redução no futuro — poderia fazer com que o Fed e o BCB seguissem um caminho semelhante. "Mas não foi isso o que aconteceu, e o mercado ficou com o pé atrás".
As bolsas da Europa também reagiram negativamente à surpresa com o BCE. No velho continente, as principais praças terminaram a sessão no vermelho, com destaque para a Alemanha: o DAX teve baixa de 1,28%.
Balanços intensos
"Mas por que é que o Ibovespa teve um desempenho pior que as bolsas americanas e europeias?", você pode estar se perguntando. A resposta está no noticiário corporativo, que trouxe pressão extra aos ativos domésticos.
Por aqui, a temporada de balanços do segundo trimestre foi decisiva para ditar o comportamento do índice, uma vez que três importantes empresas que compõem o Ibovespa reportaram seus números recentemente: Bradesco, Ambev e GPA.
E os ativos do Bradesco, que possuem um peso relevante na composição do índice, tiveram uma sessão bastante negativa, embora o banco tenha reportado lucro líquido de R$ 6,462 bilhões entre abril e junho deste ano, um crescimento de 25,2% na base anual — superando as expectativas dos analistas, que apontava para R$ 6,224 bilhões.
Os papéis PN do Bradesco (BBDC4) fecharam o dia com baixa de 5,82%, enquanto as ações ON (BBDC3) recuaram 4,91%, liderando a ponta negativa do Ibovespa. Em linhas gerais, os dados da instituição foram considerados fortes — um analista pondera que o aumento nas despesas do banco pode ser a fonte do desconforto do mercado.
O Ibovespa só não teve um desempenho ainda pior porque as ações ON da Ambev (ABEV3), que também têm participação elevada na carteira do índice, fecharam em alta de 8,52%. A fabricante de bebidas viu seu lucro aumentar 16,1% na mesma base de comparação, para R$ 2,712 bilhões, surpreendendo positivamente o mercado.
O GPA, por sua vez, teve lucro de R$ 490 milhões, uma alta de 217,4% ante o segundo trimestre de 2018. Com o resultado, os papéis PN da companhia (PCAR4) também conseguiram se sustentar no campo positivo, em alta de 5,57%.
Dólar pressionado
Os efeitos do mau humor global com a postura do BCE também foram sentidos no mercado de câmbio: lá fora, um movimento de aversão ao risco fez com que o dólar ganhasse força em relação a quase todas as divisas de países emergentes e ligados às commodities.
Nesse grupo, estão inclusos o rublo russo, o peso chileno, o rand sul-africano, o peso colombiano e o dólar neozelandês. O real, assim, foi contaminado por esse contexto, embora o dólar à vista tenha se afastado do nível de R$ 3,80 ao fim do dia.
Juros sobem
Com a sinalização mais paciente do BCE, o efeito dominó contaminou as curvas de juros e provocou ajustes positivos no DIs, já que, num cenário em que a autoridade monetária da zona do euro mostra pouca urgência, um corte de juros mais intenso no Brasil parece menos provável.
Com isso, as curvas de juros para janeiro de 2020 fecharam em alta de 5,57% para 5,60%, enquanto as com vencimento em janeiro de 2021 avançaram de 5,40% para 5,46%. Na ponta longa, os DIs para janeiro de 2023 subiram de 6,27% para 6,35%, e os para janeiro de 2025 foram de 6,84% para 6,90%.
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