Ibovespa sobe e encosta nos 99 mil pontos com otimismo político, exterior e Petrobras
O Ibovespa avançou mais de 1% nesta terça-feira (11), puxado pelo bom desempenho da Vale e das siderúrgicas, pelo alívio no front político e pelos ganhos da Petrobras. O dólar caiu a R$ 3,84

Quem olha para os números de fechamento do Ibovespa e do dólar à vista nesta terça-feira (11) pode ter a impressão de que os mercados brasileiros estão ignorando a turbulência política relacionada ao ministro da Justiça, Sergio Moro. A história, no entanto, não é bem assim.
De fato, o dia foi de forte alívio para os ativos locais: o principal índice da bolsa brasileira terminou em alta de 1,53%, aos 98.960,00 pontos — o maior nível de fechamento desde 19 de março —, enquanto o dólar à vista teve baixa de 0,88%, a R$ 3,8496. Mas uma série de fatores ajuda a explicar esse bom desempenho — e muitos deles não possuem relação com o noticiário político.
Sim, há uma percepção no mercado de que o caso Moro não deve trazer maiores impactos à tramitação da reforma da Previdência, mas esse é um fator de risco que segue sendo monitorado de perto pelos agentes financeiros. E eventuais movimentações no cenário de Brasília em função desse noticiário podem influenciar as negociações ao longo da semana.
O que acontece é que hoje foi um dia em que quase tudo deu certo para os mercados brasileiros, com fatores positivos sendo revelados ao longo do pregão — e trazendo ondas de calmaria que foram se acumulando. Como resultado, o Ibovespa fechou muito perto da máxima intradiária, ao 98.984,60 pontos (+1,56%) — e a um triz do patamar dos 99 mil pontos.
Primeira onda: minério de ferro
Tanto o Ibovespa quanto o dólar abriram o dia dando sinais de que engatariam uma recuperação nesta terça-feira. E o motivo da calmaria dos ativos vinha lá de fora. Mais especificamente, da China.
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Mais cedo, o governo chinês anunciou um pacote de estímulos aos governos locais, de modo a impulsionar o crescimento do país em meio à guerra comercial com os Estados Unidos. E a notícia deu impulso ao minério de ferro, já que a China é a maior consumidora da commodity no mundo — e a leitura de que a economia local perdia força vinha afetando os preços do produto.
Nesse cenário, a tonelada do minério de ferro negociado no porto chinês de Qingdao — cotação que serve como referência para o mercado — fechou em forte alta de 5,02%. E os ganhos expressivos das commodities deram força às ações do setor de mineração e siderurgia, além de reduzir a percepção de risco em relação aos ativos emergentes no exterior.
E qual o impacto disso tudo para a bolsa? Basta olhar para as ações ON da Vale (VALE3): um dos ativos de maior peso na composição individual do índice, os papéis da mineradora subiram 6,39% — o melhor desempenho do Ibovespa nesta terça-feira.
Entre as siderúrgicas, CSN ON (CSNA3) teve ganho de 5,68% Gerdau PN (GGBR4) avançou 2,97% e Usiminas PNA (USIM5) fechou em alta de 3,56%, também impulsionadas pelo minério de ferro. Por fim, Bradespar PN (BRAP4) valorizou 5,58% — a empresa possui participação relevante na Vale.
No exterior, o noticiário vindo da China se traduziu em alívio para as divisas de países emergentes e ligados às commodities, que ganharam terreno ante o dólar. Neste grupo, estão o peso mexicano, o rublo russo, o rand sul-africano e o peso chileno. O real, assim, aproveitou o comportamento dos pares.
Segunda onda: política
O dia, que já era positivo para os ativos locais, melhorou ainda mais no início da tarde. E, dessa vez, a calmaria veio de Brasília.
E isso porque a Comissão Mista de Orçamento (CMO) aprovou a concessão de um crédito extraordinário de R$ 248,9 bilhões ao governo, após um acordo ter sido costurado entre as lideranças políticas. Com isso, o texto do PLN4 segue para apreciação no Congresso.
O tema é sensível à gestão Bolsonaro e aos mercados porque o governo precisava de tais recursos para não descumprir a chamada "regra de ouro", que não permite que o governo se endivide para pagar despesas correntes. Sem tais recursos, a administração federal provavelmente deixaria de pagar benefícios sociais, como o Bolsa Família.
A aprovação da pauta na CMO deu força extra aos ativos locais, levando o Ibovespa a se aproximar dos 99 mil pontos e fazendo o dólar ampliar as perdas. Mas não foi só isso que fez o humor dos mercados melhorar.
Uma declaração do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, contribuiu para trazer conforto aos agentes financeiros. Via Twitter, ele afirmou que irá blindar a Casa de qualquer crise, e que o esforço e foco está na aprovação das reformas.
"A tensão começa a se dissipar um pouco", diz Ari Santos, gerente da mesa de operações da H. Commcor, referindo-se ao noticiário envolvendo o ministro da Justiça. "É um problema que, aparentemente, não vai interferir no andar da carruagem da Previdência".
Terceira onda: Petrobras
Um terceiro fator positivo contribuiu para trazer mais calmaria aos mercados brasileiros na reta final da sessão desta terça-feira: o fechamento de um acordo entre Petrobras e Cade, liberando a venda de oito refinarias da estatal.
A notícia é positiva para a companhia e para o governo, já que abre o caminho para o programa de desinvestimentos da estatal. Os oito ativos totalizam capacidade de refino de 1,1 milhão de barris por dia, ou 50% da capacidade atual da Petrobras.
Com o fechamento do acordo, as ações da Petrobras ganharam força. Os papéis ON (PETR3), por exemplo, fecharam em alta de 2,04%, enquanto os PNs (PETR4) subiram 1,91% — ambos tinham desempenhos discretos antes da decisão.
O otimismo em relação à notícia também contagiou o dólar, fazendo a moeda americana fechara abaixo do nível de R$ 3,85 no segmento à vista pela primeira vez desde 10 de abril.
Juros em queda
O alívio visto no dólar à vista se refletiu nas curvas de juros no Brasil, que tiveram mais um dia de ajuste negativo. Na ponta curta, os DIs para janeiro de 2021 caíram de 6,22% para 6,17%; na longa, as curvas para janeiro de 2023 recuaram de 7,14% para 7,06%, e as com vencimento em janeiro de 2025 tiveram baixa de 7,74% para 7,59%.
Por aqui, o mercado aposta num corte da taxa Selic pelo Banco Central, considerando a fraqueza da economia local e a desaceleração da inflação no país, apesar de o BC dar sinais de que não planeja fazer ajustes negativos na taxa básica de juros no curto prazo.
E as bolsas americanas?
Lá fora, o dia começou positivo, na esteira do otimismo global em relação às medidas de estímulo anunciadas pelo governo da China. Mas, ao longo da sessão, esse sentimento foi se dissipando nos mercados de Nova York, uma vez que a guerra comercial ainda não dá sinais de arrefecimento.
Ontem, o secretário do Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, disse que não será possível americanos e chineses fecharem um acordo comercial definitivo durante a reunião de cúpula de líderes do G20. E, sem avanços nesse front, as bolsas americanas ficaram perto da estabilidade.
Ao fim do dia, o Dow Jones fechou em queda de 0,05%, o S&P 500 teve baixa de 0,03% e o Nasdaq recuou 0,01%.
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