Como o café especial pode crescer no Brasil? São Paulo Coffee Festival 2026 mostra novas direções para o setor além da xícara
Em meio à quinta edição do SPCF na capital, realizador do evento aponta tendências do setor, com foco em novos modelos de produção e hospitalidade

O São Paulo Coffee Festival chegou à quinta edição, realizada entre 26 e 28 de junho na Bienal do Parque Ibirapuera, reunindo mais de 150 marcas e cerca de 16 mil visitantes. O evento, que nasceu em Londres e já passou por Nova York, Paris e Amsterdã, funciona como um termômetro do mercado de cafés especiais na América Latina, e o que se viu nesta edição é um segmento em expansão, mas que ainda tem desafios pela frente.
O principal deles ainda é ampliar o consumo. Estimativas do setor indicam que entre 12% e 14% das sacas de café verde comercializadas no Brasil pertencem ao segmento de cafés especiais certificados. O número cresceu nas últimas décadas, mas ainda mostra espaço relevante para expansão no país, que é o maior produtor e o segundo maior consumidor de café do mundo.
“O trabalho atual é continuar divulgando e apresentando esses cafés para o público final”, afirma Caio Alonso Fontes, diretor da Espresso&CO e realizador do festival. “Não há problema de oferta de cafés bons para o mercado brasileiro. O nosso papel é trazer as marcas que hoje lideram e inovam no mercado de cafés de qualidade e levar informação ao consumidor”, diz.
A seguir, as tendências e oportunidades do mercado de cafés especiais no Brasil de acordo com o executivo.

Verticalização da cadeia
Uma das mudanças mais observadas no festival é a verticalização da cadeia produtiva. Cada vez mais fazendas deixam de vender apenas café verde para torrefações e passam a torrar e comercializar o produto com marca própria, chegando diretamente ao consumidor.
É que o produtor que depende apenas do café verde fica exposto à variação de preço da commodity, que tem apresentado oscilações nos últimos anos. Ao agregar a etapa de torra ao negócio, cria uma nova fonte de receita e reduz a dependência do mercado internacional.
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“Hoje ele [o produtor] pode comprar um equipamento de torra de pequeno porte”, afirma Fontes. “Grandes empresas de tecnologia também estão entrando nesse mercado, acompanhando o desenvolvimento da cadeia.”
Outra alternativa é firmar parcerias com torrefações locais já estruturadas, sem necessidade de investir em infraestrutura própria.
O efeito para o consumidor é uma oferta maior de cafés com origem rastreável, diferentes variedades e perfis de torra chegando ao mercado com mais frequência. A tendência, aliás, acompanha a entrada de grandes grupos industriais no segmento, como a Três Corações, que ampliou sua atuação em cafés especiais.

Métodos de preparo
No pavilhão da Bienal, era possível provar um café preservado em nitrogênio e extraído na hora, enquanto em outra bancada, baristas apresentavam a Aeropress para visitantes que ainda conheciam o método. Essa convivência entre novidade e descoberta mostra um mercado que inova e, ao mesmo tempo, amplia sua base de consumidores.
“Para quem já está no setor, isso já é algo consolidado, mas para o consumidor final esses equipamentos ainda são novidade”, diz Fontes.

A Aeropress, criada nos Estados Unidos em 2005, segue como uma das queridinhas do café especial. Compacta e capaz de preparar uma xícara concentrada em poucos minutos, ganhou espaço com degustações e demonstrações no festival.
Outro destaque foi o Hario V60 Suiren, lançamento recente da japonesa Hario que reinventa o clássico V60. Inspirado na flor de nenúfar, o equipamento mantém apenas as costelas espirais que sustentam o filtro de papel, criando uma extração mais aberta e delicada.

Entre os lançamentos voltados ao consumo cotidiano, a Cafellow apresentou o primeiro café em sachê no Brasil: basta colocar o sachê na água quente para preparar um café coado, sem necessidade de coador ou outros acessórios.
“Estamos vivendo um momento de forte crescimento no consumo de cafés especiais. O consumidor está cada vez mais interessado em beber cafés melhores, e essa diversidade de produtos e métodos acompanha essa demanda”, finaliza o executivo.

Hospitalidade
Com o avanço da qualidade dos cafés especiais e um consumidor mais informado, a experiência oferecida pelas cafeterias passa a ter um papel mais importante colocando a hospitalidade como um dos principais temas para o setor.
“Nos mercados mais maduros, o café especial em uma cafeteria, restaurante ou hotel é uma premissa, não é mais um diferencial”, afirma Fontes. “A hospitalidade entra oferecendo um serviço de experiência e integrando a gastronomia ao café.”
Segundo o especialista, quando o produto deixa de ser um diferencial, outros fatores passam a influenciar a escolha do consumidor. “Serviço, ambiente e gastronomia passam a ser elementos centrais na definição das cafeterias. O foco deixa de ser apenas apresentar o produto e passa a ser oferecer uma experiência completa”.
Como exemplo, Fontes cita a rede Café Cultura, que combina cafés especiais com brunch e outras opções gastronômicas. “Vender apenas café gera um determinado ticket médio. Quando você amplia a oferta de produtos ao redor dele, consegue sustentar melhor o negócio”, afirma.

Aproveitamento integral da planta
Entre as possibilidades para os próximos anos, Fontes acredita no aproveitamento integral do cafeeiro, transformando partes da planta que hoje têm pouco valor comercial em novos produtos. Segundo ele, apenas o fruto é amplamente aproveitado pela indústria, o que representa cerca de 5% da planta.
“Não digo que já seja uma tendência, mas é algo que o setor deve olhar como uma oportunidade”, afirma. Ele compara o momento ao que aconteceu com o cacau, cuja cadeia passou a incorporar subprodutos antes descartados. “No café, ainda temos um trabalho pequeno nesse sentido. É uma oportunidade de desenvolvimento de produtos. À medida que o mercado cresce, essas iniciativas começam a surgir.”
O exemplo mais conhecido é a cascara, uma infusão feita com a casca seca do fruto do café. Já consolidada em parte do mercado internacional de cafés especiais, ela ainda dá os primeiros passos no Brasil, embora já seja produzida por fazendas como a Camocim, no Espírito Santo.
E as possibilidades vão além da bebida. Pesquisadores da Embrapa Rondônia e da Universidade de Brasília desenvolveram uma farinha feita a partir da casca do café robusta amazônico, capaz de substituir parte da farinha de trigo em biscoitos, com mais fibras e antioxidantes.
Para Fontes, o desafio agora é transformar esses subprodutos em itens de interesse para o consumidor. Esse movimento depende tanto da inovação da indústria quanto de um mercado mais aberto a novas formas de consumo do café.
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