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Dentro da National Gallery, restaurante que traduziu cozinha francesa sem afetação completa uma década como ativo do luxo global

Dentro de um dos edifícios mais elegantes de Cingapura, o restaurante Odette celebra uma década como um dos grandes símbolos da alta gastronomia asiática. Instalado dentro da National Gallery Singapore, o restaurante do chef Julien Royer não apenas consolidou três estrelas Michelin, como redefiniu o que significa luxo à mesa no Sudeste Asiático.
O curioso é perceber como o Odette mudou ao longo desses dez anos sem jamais perder sua essência. Em 2019, na primeira vez em que estive ali, a sensação era de que o grande símbolo do refinamento era a trufa. Ela aparecia generosa, intensa, um selo universal de sofisticação. Sete anos depois, na celebração de aniversário do restaurante, o luxo ganhou aparece mais maduro e preciso. O protagonista agora é o caviar.
Nascido na França, Julien Royer cresceu cercado pela cozinha familiar e pela relação quase espiritual que os franceses têm com ingredientes e produtores locais. Sua trajetória profissional passou por nomes importantes da gastronomia mundial, incluindo temporadas ao lado de Michel Bras, uma das maiores referências da cozinha contemporânea francesa.
Mas foi em Cingapura que Royer encontrou seu território definitivo.
Quando comandou o restaurante Jaan começou a chamar atenção da crítica internacional. Mas em 2015 virou um fenômeno com a inauguração o Odette.

Batizado em homenagem à sua avó, figura central na formação afetiva do chef, o restaurante segue uma tradição familiar fundada na França rural. Logo, no entanto, ele se viu cercado de estrelas Michelin. A terceira veio em 2019, com apenas 4 anos de restaurante. Junto, foi reconhecido como o melhor endereço da Ásia. Logo, avolumou-se uma fila interminável de clientes vindos do mundo inteiro.
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Porém, reduzir o sucesso do Odette às listas seria injusto. O que Julien Royer construiu foi algo além: um restaurante que consegue ser extremamente sofisticado sem parecer distante. Há técnica. E absurda, diga-se de passagem. Há precisão e ingredientes do mais alto nível. Mas existe também delicadeza – uma hospitalidade quase doméstica, que alguém mais emocionado poderia dizer ser a verdadeira herança de uma avó.
Ao completar dez anos, o Odette passou por uma renovação visual que acompanha perfeitamente a evolução da cozinha. O ambiente ganhou linhas ainda mais elegantes. Paleta suave, refinamento silencioso e iluminação cinematográfica não negam que estamos em um três estrelas Michelin maduro.
Mas esse filme não é um Crazy Rich Asian: nada ali grita riqueza opulenta. O luxo aparece no detalhe, na textura, na louça, no ritmo do serviço.

Cingapura entende isso como poucos lugares do mundo. Mais que um centro financeiro eficiente, a cidade se tornou um dos maiores polos gastronômicos do planeta. E o Odette ocupa uma posição central nessa transformação, inclusive pela localização: quando sobe as escadas do museu, o cliente logo percebe que aqui, a gastronomia se une à arquietura e à arte, como parte de uma mesma experiência indissociável.
Já na entrada, uma instalação de papel chamada “Winter, Spring, Summer or Fall” (2025) da artista local Dawn Ng brinda os visitantes com a delicadeza que deverá ser vista posteriormente em cada prato. À mesa, porém, o visitante pode tocar as obras.
A mudança dos ingredientes-símbolo do restaurante conta muito sobre a evolução do próprio mercado de luxo.
Em 2019, a trufa ainda representava aquele glamour exuberante que dominou a gastronomia internacional durante anos. Era o ingrediente da opulência imediata, reconhecível em segundos.
Atualmente, o Odette trabalha com os menus Terre & Mer (298 dólares de Cingapura, cerca de R$ 1.196 na cotação atual) e Indulgence (428 dólares locais ou R$ 1.717), ambos servidos no almoço. No jantar, o destaque é o Epicure (498 dólares locais ou R$ 1.998). Nos dois horários, há ainda o vegetariano Nature & Découverte (a partir de 328 dólares locais, ou R$ 1.316).

Em cada um deles, o caviar ocupa outro lugar. Mais elegante. Mais discreto. E mais ligado à textura, salinidade e profundidade do sabor do que ao impacto imediato. A ideia é tratar o ingrediente com inteligência, sem transformar o jantar em um desfile de extravagâncias.
A ideia aparece, por exemplo, no camarão-pintado glaceado com yuzu sobre gelatina de dashi e crème fraîche. Nele, o caviar Maison Kaviari aparece apenas como um detalhe final, mas incontornável. Algo que se repete na ostra, também servida sobre gelatina de dashi, com fatias de maçã verde, cebola roxa crua e um velouté de aspargos brancos. Envolvendo a composição, entra o caviar, marcante sem ocupar o prato inteiro.
O reconhecimento internacional de Julien Royer ultrapassou as paredes do restaurante. O chef também assina o menu da classe executiva da Air France na rota Cingapura-Paris, levando sua cozinha para um dos trechos mais estratégicos da aviação internacional.
Poucos chefs conseguem traduzir sofisticação de maneira tão universal. Royer domina uma cozinha francesa contemporânea que conversa perfeitamente com o paladar asiático, algo essencial em um mercado globalizado. A receita parece o equilíbrio na excelência absoluta, sem exageros ou performance desnecessária. Sem menus concebidos apenas para Instagram. Luxuoso, intimista e profundamente autêntico. Como no Odette.
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