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Bi Ribeiro e João Barone, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, reconstituem a origem do álbum, explicam sua atualidade e antecipam o show integral dos Paralamas no badalado festival carioca

Selvagem? já tinha capa e nome antes mesmo de ganhar a primeira música. Aliás, antes mesmo de ser de fato um registro fonográfico lá em meados da década de 1980. Ideias, o trio tinha aos montes, mas o que Os Paralamas do Sucesso ainda não tinham era tempo para compor.
Depois do Rock in Rio de 1985, o trio atravessava o país impulsionado pelos sucessos do disco O Passo do Lui, até que um acidente de carro deixou João Barone temporariamente impossibilitado de tocar. “O acidente do João foi fundamental para a gente parar e começar o disco”, conta Bi Ribeiro ao Seu Dinheiro.
Quarenta anos depois, o álbum nascido em 1986, entre aquela imagem e a interrupção forçada, será apresentado na íntegra no Doce Maravilha, que acontece até domingo (9), no Jockey Club Brasileiro, Rio de Janeiro.

A imagem escolhida antes das canções era uma fotografia do irmão de Bi durante um acampamento em Brasília. Anos depois, ela decorava o quarto da casa da avó do baixista, em Copacabana, onde os Paralamas ensaiavam. Na foto, ele aparecia com uma camiseta amarrada à cabeça. Já a palavra que daria nome ao terceiro álbum da banda, acompanhada da interrogação que nunca deixou a provocação virar certeza, também já estava ali.
“A gente falou: ‘O próximo disco vai ter essa capa. Não vai ser a gente na capa, não vamos colocar a nossa cara. Vamos fazer uma coisa diferente’”, recorda Bi. “A capa e o nome vieram antes do disco.”
O problema era encontrar uma brecha na agenda, já que o sucesso de “Óculos”, “Meu Erro” e das demais músicas de O Passo do Lui havia sido ampliado pela apresentação no primeiro Rock in Rio. De acordo com Barone, os Paralamas chegaram a fazer dois shows por noite enquanto percorriam o Brasil “de norte a sul, de leste a oeste”.
Bi se lembra de um disco de apelo imediato, com músicas fáceis de guardar e cantar, que praticamente tocou inteiro no rádio. O primeiro álbum ainda havia deixado o trio insatisfeito com o resultado da gravação. Herbert respondeu compondo rapidamente o repertório de O Passo do Lui, lançado menos de um ano depois e transformado em uma sequência de sucessos. Quando chegou a hora do trabalho seguinte, nenhum dos três queria competir com aquela inspiração sob encomenda.
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A parada veio perto de Porto Alegre, quando Barone sofreu um acidente de carro, quebrou os joelhos e permaneceu afastado da bateria durante a recuperação. Foi nesse intervalo que escreveu a letra de “Melô do Marinheiro”. Quando voltou ao Rio, a música ganhou forma com os outros integrantes, enquanto Bi e Herbert Vianna já trabalhavam em novas composições.
O disco começou, portanto, com uma imagem pronta e uma pausa que ninguém havia planejado. Também nasceu sem a obrigação de repetir o álbum anterior. “Na nossa cabeça, seria um disco experimental, um disco de propostas para o futuro”, diz Bi. “Era uma guinada em relação a’O Passo do Lui: ‘Agora a gente não é apenas isso. Somos capazes de fazer outras coisas’.”
Produzido por Liminha, Selvagem? ampliou o vocabulário da banda com uma estrutura enxuta: “É um disco muito simples, quase todo feito de baixo, guitarra e bateria”, resume o baixista. “Foi criado de forma muito natural e relaxada, sem pressão, obrigação ou um objetivo determinado.” A experiência, continua Bi, acabou produzindo um conjunto de canções melhor e mais comunicativo do que os próprios músicos previam. A banda que pretendia abrir caminhos para o futuro terminou com um álbum capaz de fazer a ruptura chegar ao grande público.

O reencontro com esse repertório acontece agora, na quarta edição do Doce Maravilha, festival criado e realizado pela Bonus Track, de Luiz Oscar e Luiz Guilherme Niemeyer, com curadoria de Nelson Motta e capacidade anunciada de 15 mil pessoas por dia. Com Corona, Flying Fish, Guaraná Antarctica e Cantão entre as marcas oficiais, o evento ganha em 2026 uma terceira noite e abre pela primeira vez na sexta-feira.
Para Luiz Guilherme, a edição marca “uma nova etapa”: o projeto amplia o olhar para se afirmar como uma festa da cultura brasileira, com shows inéditos e projetos exclusivos na programação e mudanças na experiência oferecida ao público.

Bi revelou aqui nesse papo com o Seu Dinheiro que gostaria de ver, principalmente, Caetano Veloso, que se apresenta com Emicida no domingo (9), e Chico Chico, filho de Cássia Eller que está encantando multidões. Barone também destaca Chico Chico, que se apresenta no sábado (8), a quem chama de “talentosíssimo”, e lembra sua participação recente em um trabalho de Toni Platão.
Sobre Nelson Motta, o curador que assume as picapes do sábado no Noites Tropicais DJ Set, Barone diz não ter uma história particular, mas o define como “uma espécie de Forrest Gump da música”, “gente finíssima” e um baluarte presente em momentos decisivos da MPB e sempre nos bastidores. “Quando o Nelsinho está envolvido, é boa música na certa”, afirma. Para o baterista, é justamente a variedade que define o evento: “A música é o prato principal de um festival como esse”.
A apresentação no Doce Maravilha não será a primeira vez que os Paralamas tocam Selvagem? do início ao fim. Por volta dos 30 anos do álbum, a banda fez uma temporada no Sesc, em São Paulo, dedicada ao repertório. Naquele período, artistas estrangeiros já haviam popularizado os concertos centrados em discos históricos, formato que se espalharia pelo circuito de shows.
Em 2026, o álbum também será revisitado no C6 no Rock, em São Paulo, duas semanas depois da apresentação no Rio, em uma programação que terá ainda o Ira! e os Titãs tocando Cabeça Dinossauro.
O recorte, porém, lembra o baterista, ficará restrito a esses projetos no Brasil, e explica que a banda não pretende levar o concerto de Selvagem? para mais eventos ou até mesmo fora do país, onde na Argentina, Chile e Uruguai a banda tem público fiel há décadas. Nesses países, assim como na maior parte da agenda atual, os Paralamas seguem com um repertório de sucessos enquanto redesenham o formato de palco adotado depois do encerramento da turnê de 40 anos.
Para Barone, a transformação de uma obra em clássico é algo que escapa das mãos dos próprios autores. “A gente não é dono da nossa obra. No momento em que você lança um álbum, por mais que a gravadora tenha um plano e uma estratégia de divulgação, nunca sabe o que vai acontecer”, afirma. “Muitas coisas apareceram e foram embora naqueles tempos; outras acabaram ficando mais perenes, que é o caso de Selvagem?.”
Nada disso estava no plano da gravadora em 1986, quando, depois de um álbum de forte apelo popular e de uma apresentação que projetou a banda no Rock in Rio, a expectativa comercial apontava para a repetição. Bi conta que O Passo do Lui havia sido composto rapidamente, depois que o trio terminou insatisfeito com o resultado do primeiro disco. Reproduzir o processo ou superar aquele volume de sucessos não parecia um caminho possível nem desejado.
“Não tínhamos toda aquela inspiração nem a vontade de simplesmente superar o outro disco”, conta Bi. A alternativa foi assumir o risco: criar uma obra provocativa, experimental e capaz de indicar caminhos que a banda ainda não sabia se conseguiria percorrer.
“A gravadora queria um O Passo do Lui 2, com um ‘Óculos 2’ e um ‘Meu Erro 2’, e a gente disse: ‘Não, não, não’”, conta Barone. Bi descreve o estado de espírito do trio como rebeldia: “Não vamos fazer outro disco assim. Vamos fazer outra coisa”.
Herbert, segundo os dois companheiros, estava decidido a não acomodar a banda em uma fórmula de sucesso. A capa sem os rostos dos músicos era a primeira ruptura. “Alagados”, faixa escolhida para abrir o trabalho, aprofundava a ruptura ao combinar uma letra sobre desigualdade com uma sonoridade que a gravadora não esperava receber de uma banda identificada com o rock.
Barone chama a escolha estética de radical porque, enquanto boa parte do rock brasileiro mantinha uma orientação anglo-saxônica mais convencional, os Paralamas se aproximaram da música negra, do reggae e de elementos discretos da música brasileira. O movimento não foi orientado pela gravadora. Aconteceu contra a expectativa dela.
“Desde a capa até as músicas, tentamos ultrajar todo mundo”, diz Barone. “O Herbert sempre achou que a gente tinha que ficar diferente da manada.”
Quatro décadas depois, ele evita tratar a retomada como simples nostalgia: “É um disco que não envelheceu. Ainda tem um entendimento atual, tanto nas letras quanto na sonoridade”, afirma. Barone mede essa atualidade com uma comparação: “Tem o seu lugar naquela época, mas poderia ter sido feito hoje pelo BaianaSystem, de repente”.

O caminho até essa sonoridade não passou por um laboratório formal. Barone define o processo como espontâneo e orgânico, construído com discos compartilhados entre os integrantes e referências recolhidas durante as viagens.
Bi tinha um papel decisivo nessa circulação e levava para os colegas gravações africanas, achados sofisticados e músicas que despertavam interesse ou graça. Entre elas estavam os registros de Yellowman e de outros DJs jamaicanos que narravam histórias sobre bases de reggae antes da consolidação mundial do hip-hop.
“O Bi sempre teve esse negócio de trazer músicas interessantes, às vezes engraçadas, às vezes requintadas”, diz Barone. “Esses DJs jamaicanos contavam uma história sobre um casamento que não deu certo ou sobre uma briga com o diretor da gravadora que não queria que determinada música fosse gravada assim ou assado.”
Yellowman virou um dos ídolos do trio, que encontrou naqueles DJs jamaicanos uma forma de narrativa falada sobre bases de reggae antes de o hip-hop ganhar projeção mundial. O interesse não obedecia a uma pesquisa organizada: um integrante apresentava um disco, outro sugeria uma levada e os três testavam a combinação no ensaio.
Ao mesmo tempo, a estrada apresentava um país musical muito maior do que o circuito entre Rio de Janeiro e São Paulo. Em Belém, os integrantes encontraram a guitarrada e sua ligação com o Caribe e a música latina. Na Bahia, pouco depois do Rock in Rio, testemunharam a transformação do Carnaval e aquilo que Barone descreve como o nascimento da axé music.
“Eu e o Bi fomos a Salvador para alguns shows e vimos aquilo pensando: ‘Caramba, isso é grande, isso é incrível’”, relembra o baterista. “Fomos capazes de reconhecer aquilo como algo legítimo.”
As viagens mostraram um Brasil que não terminava no Rio nem em São Paulo. As referências entravam em grooves e levadas antes mesmo de a banda saber qual música surgiria delas. Barone chama o método de “quase aleatório, quase randômico”. O resultado foi “uma colcha de retalhos”, costurada com brasilidade, reggae, dub, música africana, guitarrada e rock.
“Alagados” é a síntese mais conhecida dessa costura e, para Barone, a composição se aproxima de um samba atravessado por uma “coisa meio Gonzaguinha”. Bi se lembra da primeira reação à letra de Herbert: “A gente falou: ‘Pô, parece um samba-enredo’”. Na hora de musicá-la, o trio voltou o ouvido para os discos africanos que consumia naquele período.
A mistura não levou os músicos a abandonar a identidade roqueira, e Bi cita o Clash como exemplo de banda capaz de incorporar a música jamaicana sem deixar de ser rock. Na base musical dos Paralamas estavam The Who, Led Zeppelin, Cream e Free. “Em qualquer música, vamos com a intenção do rock”, afirma.
A mudança sonora veio acompanhada por letras mais incisivas, nas quais Herbert, diz Barone, “afiou a navalha” e deslocou o cotidiano urbano das frustrações amorosas para o racismo, a desigualdade, a violência policial e as marcas deixadas pela ditadura. O movimento dialogava com uma geração que também alargava a pauta do rock, e Barone cita Legião Urbana, Titãs e Engenheiros do Hawaii entre as bandas que passaram a observar o cotidiano por outros ângulos. Nos Paralamas, a intenção era “ampliar a varredura do radar” sobre o entorno.
“‘Alagados’ é um tratado social. ‘Selvagem’ fala da censura, da agressão policial e do choque social que a gente vive até hoje”, afirma. “É o próprio nome do álbum, Selvagem?, com uma interrogação, uma coisa meio dúbia.”
O disco foi lançado em um país que acabava de deixar a ditadura, mas ainda convivia com a censura. Barone menciona a proibição, durante o governo José Sarney, de Je vous salue, Marie, filme de Jean-Luc Godard. O ambiente trazia a empolgação da democracia recuperada e, ao mesmo tempo, a permanência de práticas que aquele período deveria encerrar.
“Naquela época, falávamos sobre uma sombra da qual estávamos nos livrando, a sombra da opressão e da censura”, diz. Quarenta anos depois, essa sombra reaparece, para ele, na violência policial, no racismo e na exploração política do medo e da ignorância.
Ao revisitar as músicas em 2026, o baterista encontra um país ainda reconhecível nelas. “Hoje ainda é preciso falar porque parece que, em algum ponto, por incrível que pareça, as coisas pioraram desde então”, diz. “A gente espera que, em algum momento, isso seja apenas o retrato de uma época, mas ainda não é.”
Para Barone, a permanência desses temas também recoloca a discussão sobre o posicionamento dos artistas. Ele situa o show no campo do entretenimento, mas identifica na banda uma postura que prefere chamar de humanitária. A desigualdade, em sua leitura, priva uma parcela da população de cidadania e alimenta um ciclo de insegurança explorado politicamente.
O raciocínio parte de uma relação direta entre dignidade e segurança pública, como explica Barone: “Somos um país tão rico e a riqueza não é distribuída como deveria, de maneira a proporcionar o mínimo de dignidade e cidadania para todo mundo. No momento em que se oferecer cidadania irrestritamente para todos, acho que uma grande parcela dos problemas da sociedade vai acabar.”
“Enquanto acharmos que a pobreza é uma escolha e que alguém pega um fuzil simplesmente porque é muito malvado, continuaremos vivendo esse clima terrível de insegurança e medo”, afirma.
Depois de décadas viajando pelo país, o baterista diz que os Paralamas conheceram tanto as possibilidades quanto as fraturas desse Brasil profundo. A posição, insiste, é humanitária antes de ser ideológica. Ela não exige discurso partidário no palco porque já está nas músicas.
Bi chega ao mesmo ponto por outra porta ao afirmar que as diferenças sociais e a violência mantêm Selvagem? atual.
Se Herbert ampliou a mira das letras, a seção rítmica deu ao álbum sua geografia musical. No baixo de Bi, o reggae abriu espaço para um instrumento que poderia conduzir a canção em vez de apenas sustentá-la. “É uma coisa melódica, muitas vezes uma melodia paralela à voz, enquanto os outros instrumentos fazem a marcação, são percussivos, e o baixo vai viajando ali”, explica.
A assinatura nasceu, em parte, de uma limitação assumida pelo próprio músico, que, desde O Passo do Lui, sentia que tocava melhor e sabia o que buscava, mas ainda procurava espaço entre dois instrumentistas que considera virtuosos. “Como não tinha muita habilidade no começo, isso me ajudava a criar essas frases e a inventar um baixo que funcionasse bem para a música”, conta. Foi assim que encontrou uma maneira de também aparecer.
Bi aprendeu a tocar dentro da convivência com Herbert e Barone, e a escola jamaicana lhe mostrou como buscar, dentro da harmonia proposta, uma segunda melodia que acompanhasse a voz sem copiá-la. O baixo podia embelezar a canção, produzir o grave e, ao mesmo tempo, fazer algo diferente da marcação dos demais instrumentos.
Ao voltar recentemente às gravações antigas, encontrou uma inventividade que na época não avaliava dessa maneira. “Poxa, caramba, o negócio tinha muita inspiração”, pensou. “Tinha e acho que ainda tem.”
Uma referência decisiva apareceu no início da carreira, quando os Paralamas abriram uma turnê brasileira de Jimmy Cliff. Foi assim que tocaram pela primeira vez em Belo Horizonte e em Salvador e puderam observar de perto músicos experientes, alguns com passagem pela banda de Bob Marley.
No Doce Maravilha, essa interação será ampliada pela formação que acompanha atualmente os Paralamas. Herbert, Bi e Barone sobem ao palco com João Fera nos teclados, além de saxofone e trombone. Segundo Bi, o tecladista completa 40 anos de banda em 2026; o integrante mais recente dos metais, observa, já está no conjunto há 28 anos.
O álbum será tocado na íntegra, mas não ocupará sozinho todo o horário: “Não dá para fazer somente Selvagem?, porque seria um show muito curto. Temos que fazer o álbum e complementar com músicas de outros discos”, antecipa o baixista.
Os músicos adicionais também ajudam a reconstruir detalhes da gravação e, em “Você”, releitura de Tim Maia que encerra o LP original, João Fera assumirá a parte de teclado tocada por Liminha no estúdio.
A formação, no entanto, nem sempre foi essa: durante boa parte dos primeiros shows de Selvagem?, os Paralamas ainda se apresentavam como trio. João Fera entrou no fim de 1986, quando a banda já pensava na participação no Festival de Montreux de 1987 e na gravação do álbum ao vivo D.
Bi, que atualmente mora em Salvador, guarda uma lembrança particular daquela fase, já que o lançamento de Selvagem? na capital baiana aconteceu no Teatro Castro Alves, apenas com os três integrantes. “Foi um barato”, recorda.
Na data da entrevista ao Seu Dinheiro, ocorreria a reinauguração do próprio Teatro Castro Alves. A coincidência levou Bi de volta àquele lançamento de 1986, quando a banda ainda testava diante do público o repertório que agora retorna cercado por quatro décadas de memória.
O espetáculo atual leva essa base de volta a uma plateia muito diferente daquela encontrada em 1986. Para Barone, o público já conhece o campo afetivo que um show dos Paralamas oferece. “São tantas músicas que ficaram no sentimento de todo mundo: o rock, as baladas, o reggae, os afros.”
Barone explica a permanência do trio de forma simples: os integrantes continuam porque gostam de tocar juntos e ainda reconhecem valor no que fazem quando sobem ao palco ou ensaiam músicas novas. Ele evita transformar essa experiência em regra para outras bandas, pois algumas associações não duraram, enquanto outras atravessaram décadas e ainda se sentem bem com o próprio trabalho. Os Paralamas pertencem ao segundo grupo porque preservaram o prazer de tocar e continuam recebendo uma resposta de público capaz de manter a banda em atividade.
O encontro original também aconteceu por acaso, em 1981, quando Barone tocou com Herbert e Bi em um festival de música na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica. Em junho de 2026, os três e João Fera retornaram à instituição para receber o título de doutor honoris causa. Mais de quatro décadas depois daquele primeiro encontro, “aquela mágica continua presente”, afirma o baterista: “Quando a gente sobe no palco, quando se dispõe a gravar músicas novas e um disco novo, isso tudo ainda tem esse valor para a gente.”
A longevidade, contudo, não produziu dentro da banda a solenidade que poderia acompanhar mais de quatro décadas de estrada. Barone descreve uma política interna criada para impedir que o reconhecimento se transforme em pose. “A gente sempre se auto-sacaneou muito. Nunca subiu no salto alto para dizer ‘a gente é isso’ ou ‘a gente é aquilo’. A gente se auto-sacaneia e desinfla o ego”, conta. “Ninguém nos Paralamas tem o ego inflado.”
Por isso, o reconhecimento externo tem peso especial e, quando Selvagem? aparece entre os discos referenciais da música brasileira do século 20, Barone se lembra dos músicos de vinte e poucos anos que ainda tentavam descobrir até onde poderiam chegar.
O baterista valoriza essas classificações quando elas vêm acompanhadas de reflexão sobre a história do rock brasileiro, a renovação da cena e os nomes já consagrados. Para ele, a inclusão de Selvagem? nessas listas devolve aos músicos de hoje a dimensão do que três jovens tentavam fazer sem saber se chegariam além do próximo palco.
“Não era um plano mesquinho nosso nos tornarmos um baluarte do rock brasileiro”, afirma. “Depois que tocamos no Circo Voador, em 1983, não sabíamos o que poderíamos fazer além daquilo.” Isso não significa ausência de ambição. Segundo o baterista, os três tinham objetivos pessoais e coletivos, mas mantinham os pés no chão ao decidir o que queriam fazer e quais concessões aceitariam no caminho.
Para Barone, a geração surgida nos anos 1980 ajudou a ancorar definitivamente o rock na música brasileira. Mutantes, Raul Seixas e Rita Lee já haviam aberto caminhos decisivos, mas aquela nova produção popularizou o gênero em uma escala associada ao fim da censura e à abertura democrática.
Barone rejeita uma hierarquia entre essas fases, porque o mérito da geração de 1980 não diminui o que veio antes. O que a distinguiu foi o volume de produção, especialmente em 1986, e a capacidade de tornar o rock pertinente para uma faixa muito maior do público brasileiro.
“Não era mais uma coisa exógena, da classe média abastada”, avalia. “Aquela coisa que estava represada havia muito tempo encontrou seus caminhos.”
A resposta do público deu sustentação material a essa longevidade, e Barone chama a possibilidade de continuar vivendo daquilo que ama de “uma dádiva” e “uma bênção”. A turnê de 40 anos foi estendida até culminar em uma apresentação para 50 mil pessoas no Allianz Parque, em São Paulo, em 2025. Encerrado esse ciclo, os Paralamas reformulam o show de sucessos que mantêm na estrada e procuram espaço para voltar à composição.
Selvagem? acompanhou a expansão latino-americana dos Paralamas, cujos primeiros shows na Argentina aconteceram em 1986, enquanto o disco era gravado. A recepção e a força da cena local convenceram a banda a olhar para fora do Brasil.
O movimento começou por encantamento, não por um plano de internacionalização pronto, quando a banda viu artistas argentinos lotando casas e estádios com um repertório próprio e contemporâneo. Herbert se entusiasmou e convenceu a gravadora a apoiar ações de divulgação fora do país. A brasilidade de “Alagados” funcionou como cartão de visita.
“Havia uma cena musical atual e muito pulsante”, recorda Barone, ao citar Charly García, Fito Páez, Soda Stereo e outras bandas capazes de lotar grandes espaços. “Aquilo inspirou muito a gente, especialmente o Herbert.”
Na primeira passagem pelo Chile, também em 1986, o trio apresentou “Alagados” em um programa de televisão. Era, segundo Barone, um trabalho de formiga.
O investimento ganhou importância ainda maior na década seguinte: com a economia brasileira em crise e a imprensa de rock tratando parte da geração de 1980 como um conjunto de “dinossauros condenados à extinção”, a Argentina ofereceu um segundo fôlego. Houve anos em que os Paralamas fizeram mais shows por lá do que no Brasil.
Barone não guarda uma leitura amena daquele período e diz que os críticos que decretavam o fim da geração “foram muito arrogantes”: “Tinham certa presunção de que eram os juízes do que era bom e ruim, do que duraria e do que não duraria.”
Na Argentina, a banda chegou a tocar em estádios para 40 mil pessoas, participar de festivais e cumprir temporadas nos grandes teatros da Avenida Corrientes. Barone define aquele público como “muito apaixonado, muito criterioso e muito sentimental”. As crises econômicas reduziram a frequência, mas não romperam o vínculo.
Os Paralamas permaneceram, nas palavras do baterista, “nos píncaros da fama” no país até o fim dos anos 1990. Quando a economia argentina deixou de sustentar a mesma escala de circulação, as visitas se tornaram mais pontuais, sempre com forte repercussão.
“Eles não esquecem os Paralamas. Consideram os Paralamas uma banda local”, afirma Barone. Bi confirma que a troca continua ativa. No fim de maio, o trio fez quatro apresentações em um teatro argentino. Em cada viagem, procura reencontrar artistas e participar da cena cultural local, em vez de cumprir apenas o compromisso do show.
A banda mantém alguma atividade sul-americana todos os anos, ainda que não passe por todos os países a cada temporada. O calendário de 2026 prevê um retorno ao Chile em setembro, no Teatro Nescafé, em Santiago, enquanto Montevidéu permanece uma parada frequente. Esse circuito receberá o show de sucessos, não o concerto integral de Selvagem? reservado ao Doce Maravilha e ao C6 no Rock.
Depois de olhar novamente para 1986, os Paralamas querem abrir outra frente de criação. Barone afirma que a banda procura reservar tempo para voltar às bases e preparar um repertório autoral. Ainda não existe um álbum anunciado, mas há a falta sentida pelos músicos e a vontade de sair por algum tempo do circuito de grandes sucessos. Depois de encerrar a turnê de 40 anos no Allianz Parque e começar a alterar o desenho do espetáculo de estrada, a próxima necessidade é voltar a compor.
“Estamos sentindo falta”, admite Barone, ao reconhecer um desejo que repete, em circunstâncias muito melhores, o impasse de 1985. Quarenta anos atrás, os músicos também precisavam interromper a estrada para descobrir o que ainda eram capazes de fazer juntos. Desta vez, esperam encontrar a pausa sem que um acidente decida por eles.
A melhor recomendação, por isso, não depende dos 40 anos nem das listas de melhores discos. “É um álbum provocante”, define Bi. “Qualquer pessoa que goste de música e tenha um pouco de curiosidade vai se interessar.”

Na sexta-feira, o Doce Maravilha anunciou o cancelamento dos shows para aquela noite (7) devido a condições meteorológicas instáveis. Fresno, Raimundos, Dibob, DJ Julia Barros e Melton Sello estavam entre as atrações.
A quem comprou o ingresso, o festival ofereceu a possibilidade de reembolso ou de utilização em um dos dois dias seguintes, sábado (8) ou domingo (9).
O sábado desloca o festival para o samba, o rap, a música baiana e diferentes gerações da canção brasileira. Paulinho da Viola recebe Maria Bethânia, enquanto Leci Brandão divide um espetáculo inteiro com Rappin’ Hood. O Cortejo Afro convida Luedji Luna e Margareth Menezes; Chico Chico celebra Belchior com Juliana Linhares; e Amanda Magalhães apresenta o single recém-lançado “Vida de Rei, Vida de Cão”. O dia ainda reúne Bloco do Silva, Man from Rio, Mango DJ Set, Yasmin Lisboa, Sô Lyma e Larinhx. Nelson Motta assume as picapes com Lou Cascudo no Noites Tropicais DJ Set, que o curador promete transformar em um set “ultradançante” de música brasileira.
No domingo, os Paralamas sobem ao Palco Corona às 19h, depois de Falamansa com Ruan Vitor Vaqueirinho e antes do encontro de Caetano Veloso com Emicida, preparado especialmente para o festival. Em outro palco, Sandra Sá comemora os 40 anos do álbum que lançou em 1986, mesmo ano de Selvagem?; a Academia da Berlinda celebra uma década de Nada Sem Ela com Louise; e a Nova Orquestra toca Bloco do Eu Sozinho.
Quando: 7, 8 e 9 de agosto de 2026
Onde: Jockey Club Brasileiro, Praça Santos Dumont, 31, Gávea, Rio de Janeiro
Horários: sexta-feira, das 17h às 22h; sábado e domingo, abertura às 14h e shows a partir das 14h35
Classificação: 16 anos. Pessoas de 5 a 15 anos entram acompanhadas dos pais ou do responsável legal
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