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Em Sperlonga, a vila onde o imperador Tibério descansava, um antigo molho romano brilha à mesa, enquanto a cidade resiste a uma nova forma de invasão: a dos turistas.

Espremida entre o Mar Tirreno e altas falésias, Sperlonga se guardou bem no tempo. Ruelas estreitas de pedra, casinhas brancas, janelas floridas voltadas para o mar e silêncio, esse item cada vez mais raro na costa italiana. Tudo o que a gente imagina num filme da Brigitte Bardot, que inclusive frequentou muito essas bandas nos anos 1960.
Há quase dois mil anos, um dos homens mais poderosos da Terra escolheu exatamente esse pedaço da atual Itália para descansar. Foi aqui que construiu uma das residências imperiais romanas mais espetaculares. Integrada a uma enorme gruta natural voltada para o Mediterrâneo, ela tinha termas, piscinas de água salgada e um palácio onde política, poder e prazer dividiam espaço com banquetes à beira-mar em terraços espetaculares.

Os historiadores contam que Tibério gostava tanto de vinho que faziam um trocadilho com seu nome: em vez de Tiberius Claudius Nero, chamavam-no de algo como “Biberius Caldius Mero”, brincando com bibere (beber) e merum (vinho puro). “Gente da gente o velho Tibe”.
Hoje, quem visita essa cidadezinha da região do Lácio encontra um local completamente diferente da Roma imperial. Mas basta olhar para o horizonte para perceber que existe algo que permaneceu igual: o mar. É ele quem liga Tibério aos pescadores de hoje, aos cozinheiros e à gastronomia. Talvez seja esse o verdadeiro fio condutor da história de Sperlonga.
Sperlonga também guarda outra característica rara na Itália de hoje: conseguiu escapar de uma invasão. Não estou falando das invasões bárbaras que ajudaram a acelerar o fim do Império Romano. Tampouco das incursões dos piratas sarracenos que, durante séculos, obrigaram as populações costeiras a construir vilas fortificadas longe da praia.
A invasão da qual Sperlonga escapou é muito mais recente e muito mais numerosa. É a dos milhões de turistas que transformaram boa parte do litoral italiano em um espaço difícil para caminhar. Ou, no meu caso, para estacionar o carro. Um Fiat 500 pequeno, aliás, vermelho como tomate-cereja, e que mesmo assim não cabe em vagas na maioria das vezes.
Enquanto Positano, Capri, Amalfi e até Sorrento convivem diariamente com filas, congestionamentos e multidões desembarcando de navios de cruzeiro, Sperlonga continua vivendo em outro ritmo. Aqui ainda existe silêncio, espaço e alguma paz.
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Sentado num café do centro histórico, depois de quatro dias aqui, já consigo reconhecer rostos familiares. As roupas continuam secando nas janelas. Idosos conversam nas pequenas praças. Crianças correm pelas escadarias e o café da manhã acontece sem pressa, diante de um Mediterrâneo que parece ignorar completamente a ansiedade do turismo moderno de massa.
E pense comigo que ironia enorme: durante séculos, essas cidades temiam que inimigos surgissem no horizonte. Hoje, os invasores chegam de avião, desembarcam de ônibus ou de cruzeiros. No lugar de espadas, carregam celulares, transformando algumas das paisagens mais bonitas da Itália em cenários disputados minuto a minuto para uma dancinha de TikTok.
Sperlonga, por enquanto, permanece uma exceção. É uma das últimas joias do litoral italiano onde ainda se tem a sensação de que a cidade pertence primeiro aos seus moradores e só depois aos visitantes. Talvez esse seja seu maior luxo.

Na Villa di Tiberio, construída no século 1, arqueólogos encontraram esculturas monumentais inspiradas na Odisseia. Além disso, tanques para criação de peixes e uma estrutura desenhada sugerem grandes banquetes diante do mar.
Fui pesquisar quais eram os alimentos que constam historicamente em seus banquetes. A lista incluía cogumelos e pequenas aves selvagens consideradas iguarias como, por exemplo, o tordo (que no Brasil seria algo como o sabiá). Ostras, lulas e peixes também entravam na lista, como as anchovas, que eram produtos de luxo. Há, inclusive, relatos de que o imperador reclamava dos preços que estavam sendo vendidos os pescados na época. Tibério teria ficado indignado porque três salmonetes haviam sido comercializados por 30 mil sestércios e tentou controlar os preços.

Isso é particularmente interessante porque o salmonete era um dos grandes símbolos da ostentação gastronômica romana. Plínio descreve a enorme valorização desse peixe entre os gourmets.
Mas havia um ingrediente considerado indispensável na culinária romana: o garum. Produzido a partir da lenta fermentação de peixes em sal, era um molho intenso, rico em umami, utilizado praticamente em todas as refeições da elite romana. Para o império estadunidense existe o ketchup; para os romanos, o garum.
Dois mil anos depois, ele é conhecido como colatura di alici. Os puristas vão dizer que não se trata exatamente da mesma coisa, mas é basicamente o mesmo princípio. Produzida principalmente na vizinha Cetara, na Costa Amalfitana, a colatura preserva praticamente o mesmo método utilizado pelos romanos.
Para mim é impossível provar um prato preparado com colatura sem imaginar que sabores muito parecidos já percorriam as mesas de Tibério enquanto ele observava exatamente o mesmo Mediterrâneo. Às vezes, a gastronomia consegue preservar a história melhor do que qualquer monumento.
No coração do centro histórico, escondido sob antigos arcos de pedra que deram nome à casa, o restaurante Gli Archi entende perfeitamente a ligação entre passado e presente.
Nada ali tenta reinventar a cozinha italiana. Ao contrário. A proposta é deixar que o mar faça a maior parte do trabalho.
Peixes frescos, frutos do mar capturados na região e massas preparadas de forma bem artesanal formam um cardápio que muda conforme a pesca do dia. O proprietário me falou que não há um prato estrela no menu; tudo é feito com o mesmo amor. Mas, obviamente, eu tinha que provar algo com massa fresca e a tal da colatura di alici.

É um daqueles casos em que um simples molho conta dois mil anos de história. Os pratos principais costumam variar entre 22 e 30 euros, uma excelente relação entre qualidade, técnica e localização.
Ali, mais do que um almoço, existe uma continuidade histórica. Pensei, enquanto degustava meu tonnarelli com alici, flor de abobrinha e colatura di alici, que talvez o imperador Tibério reconhecesse aqueles mesmos sabores.
Sperlonga também oferece uma experiência cada vez mais difícil de encontrar na costa italiana: hotéis onde a paisagem ainda é o atrativo principal.
Construído sobre uma falésia com vista para o Mar Tirreno, o Grand Hotel Le Rocce parece suspenso entre o céu e a água. Os quartos, dependendo da categoria e da época do ano, partem de aproximadamente 350 euros por noite, podendo ultrapassar os 700 euros nas suítes com vista para o mar durante o verão.
Piscina de borda infinita, boa cozinha em um restaurante panorâmico e praia privativa completam a experiência.

Ao contrário da Costa Amalfitana, Sperlonga oferece longas faixas de areia clara e águas surpreendentemente transparentes, de temperatura agradável.
A profundidade aumenta lentamente. Eu vim com criança e é perfeito. É possível caminhar dezenas de metros mar adentro mantendo a água apenas na cintura. Não é difícil entender por que tantas famílias italianas voltam todos os anos.
A cidade continua pequena. Quase tudo pode ser feito a pé. As ruas sempre terminam em uma escadaria, uma praça ou um mirante onde o azul do Mediterrâneo reaparece. Sem pressa.

Poucos destinos conseguem reunir arqueologia, gastronomia e paisagem de forma tão natural. Sperlonga não tenta competir com Capri, Positano ou Amalfi. Talvez nem queira.
Seu maior patrimônio nem é apenas a beleza. É ter permanecido fiel à própria identidade, mesmo em uma Itália onde quase tudo já foi descoberto. E talvez seja justamente isso que Tibério mais apreciaria se voltasse a Sperlonga. Não apenas o mar, mas o privilégio de ainda encontrar silêncio à sua mesa.

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