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Com dermocosméticos de ticket alto, perfumaria e wellness no portfólio, drogarias agora apostam na alta renda para transformar a farmácia em destino de beleza

O varejo farmacêutico paulistano está mudando de cara. Nas novas lojas voltadas ao público de alta renda, as prateleiras de medicamentos dividem cada vez mais espaço com dermocosméticos de R$ 500, k-beauty, fragrâncias importadas, produtos profissionais de cabelo e itens de wellness.
O movimento ganhou dois novos endereços nos últimos meses, que, podem, inclusive, competir com lojas da Sephora e Soneda, por exemplo. No Itaim Bibi, a RD Saúde (antiga RaiaDrogasil) dona das redes Raia e Drogasil, abriu a Raia Conceito, primeira unidade do grupo desenhada como um espaço de beleza premium.

Alguns quilômetros de distância do Itaim Bibi, no interior de São Paulo, dentro do CJ Boa Vista Village, empreendimento da JHSF em Porto Feliz voltado para moradores de condomínios de altíssima renda, o Grupo DI instalou uma unidade da Discover.

A mudança acompanha um mercado que cresce. Segundo dados da Circana citados pela RD Saúde, o segmento de beleza premium avançou 10% no primeiro trimestre de 2026, acima da média global, de cerca de 7%. O Brasil responde por aproximadamente um terço das vendas de beleza premium da América Latina, puxado principalmente por fragrâncias, hair care e maquiagem. Esse mercado que as grandes redes querem entrar, ou aumentar sua participação.
Inaugurada na quarta-feira, 5, de agosto, a Raia Conceito tem 364 metros quadrados, quase o dobro do tamanho de uma farmácia de grande porte da rede. Mais de 65% da área é dedicada à beleza. A unidade reúne cerca de 50 novas marcas, como os queridinhos asiáticos Skin1004 e Beauty of Joseon, por exemplo. Um terço delas são classificadas como premium, e mais de 2.500 produtos inéditos no portfólio de beleza da companhia, chegando a 12 mil itens.
A loja também marca a entrada da RD Saúde em categorias como fragrâncias e produtos profissionais para cabelo. Na loja, dez consultoras especializadas tiram dúvidas de consumidores e um equipamento de análise de pele pode ser usado para orientar as recomendações aos clientes.
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Para o CEO da RD Saúde, Renato Raduan, a mudança acompanha a transformação do consumidor. Mas também responde a uma ameaça ao modelo tradicional de varejo. Segundo ele, a companhia sentiu o aumento da concorrência de plataformas digitais no segmento de Higiene e Cuidados Pessoais. A resposta foi apostar em algo que o comércio eletrônico ainda não consegue reproduzir com facilidade: atendimento presencial e consultoria especializada.
Antes de a expressão “farmácia de luxo” ganhar força, a Drogaria Iguatemi já vinha construindo esse caminho. A rede, que hoje pertence ao Grupo DI, abriu sua primeira unidade dentro de um shopping em 1966, no Iguatemi São Paulo, na Faria Lima. Quase seis décadas depois, o conceito parece ter encontrado um novo momento.
Segundo Leonardo Diniz Jorge, sócio-diretor do Grupo DI, a diferença entre uma farmácia tradicional e uma operação voltada à alta renda também aparece no faturamento. Em entrevista à Bloomberg Brasil, ele explica que, no varejo farmacêutico convencional, os medicamentos representam entre 60% e 70% das vendas.

Nas lojas voltadas ao público de altíssima renda, porém, a proporção se inverte. Cerca de 60% da receita vem de dermocosméticos, perfumaria e produtos sem prescrição. Os medicamentos respondem pelos outros 40%.
A explicação está no perfil do cliente. Em vez de procurar a farmácia principalmente quando está doente ou precisa resolver uma necessidade imediata, esse consumidor já chega com outro tipo de demanda. Geralmente para cuidados com a pele, cabelo, longevidade, suplementação e bem-estar.
Essa estratégia ganhou um novo endereço em maio, quando o Grupo DI abriu uma Discover dentro do CJ Boa Vista Village, em Porto Feliz.
O empreendimento de 15 mil metros quadrados da JHSF foi desenhado para atender moradores dos condomínios de altíssima renda da região. A Discover reúne marcas de luxo, como Loro Piana e Louis Vuitton.
Com 150 metros quadrados, a unidade concentra dermocosméticos, suplementação e produtos de wellness. O grupo já havia testado uma operação semelhante durante a pandemia, em uma unidade restrita aos moradores da Fazenda Boa Vista, no mesmo complexo do CJ Boa Vista Village.
Agora, a estratégia é transformar esse público de alta renda em uma oportunidade permanente de consumo. O Grupo DI trabalha com entre 3 mil e 5 mil itens de dermocosméticos e inclui no portfólio marcas de nicho, como a francesa Filorga, que tem cosméticos faciais na casa dos R$ 500. A companhia também desenvolveu a própria marca, a NuSpace, com produtos como ceras capilares e acessórios de cabelo.
A aposta, no entanto, não é novidade fora do país. No Reino Unido, a Boots é um dos exemplos mais claros. A rede se define como a principal varejista de saúde e beleza do país e possui cerca de 1.900 lojas, que vão de farmácias de bairro a grandes unidades dedicadas a saúde e beleza.
A operação de beleza é tão relevante que a Boots já criou lojas específicas para a categoria, inclusive. Em Bristol e Londres, por exemplo, as chamadas Boots Beauty Store reúnem mais de 250 marcas, incluindo nomes como Kérastase, Laneige, Tom Ford, Huda Beauty e Color Wow. Há ainda serviços como análise de pele, diagnóstico do couro cabeludo e consultas com farmacêuticos treinados em dermatologia.
Nos Estados Unidos, redes gigantes como as CVS também transformaram beleza em uma categoria relevante do negócio. A companhia possui cerca de 9 mil farmácias e mantém uma operação dedicada a maquiagem, skincare, cabelo, fragrâncias e ferramentas de beleza. A diferença é que, nos EUA, o movimento ainda aparece mais associado ao grande varejo de farmácia do que a uma “farmácia de luxo” propriamente dita.
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