Grupo Corpo chega a São Paulo com dois espetáculos — e o “molho brasileiro” que virou sua assinatura
Companhia mineira coloca lado a lado 'Lecuona' e 'Piracema', obras separadas por 21 anos em temporada no BTG Pactual Hall; o diretor Paulo Pederneiras e os coreógrafos Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches contam ao Seu Dinheiro os bastidores das criações

De um lado, um espetáculo de 2004 guiado pelo romantismo e pela composição mais clássica. Do outro, uma criação de 2025 nascida de um experimento entre dois coreógrafos. É com Lecuona e Piracema que o Grupo Corpo chega a São Paulo, trazendo aos palcos duas fases distintas de uma companhia que, há 51 anos, produz e populariza a dança contemporânea no Brasil.
A temporada, que teve início em Araxá, Minas Gerais, também passará pelo Rio de Janeiro e por Belo Horizonte, cidade natal do grupo. Na capital paulista, o programa fica em cartaz no BTG Pactual Hall de 14 a 16 e de 19 a 23 de agosto. Os ingressos, no entanto, já se encontram praticamente esgotados, fazendo jus à fama de uma das companhias mais consagradas do país.
“O que posso dizer é que chegar a mais de 50 anos como uma companhia profissional, criando, viajando, renovando o repertório e continuando a encher teatros nos deixa muito felizes. Significa que ainda temos alguma coisa para dizer”, diz Paulo Pederneiras, diretor-geral e fundador do Grupo Corpo ao Seu Dinheiro.
Aclamado pelo público, ‘Lecuona’ retorna após hiato de 10 anos
Estreado em 2004, Lecuona foi criada por Rodrigo Pederneiras, irmão de Paulo e coreógrafo residente do Grupo Corpo desde 1978. O nome não é por acaso: o espetáculo parte das composições do pianista cubano Ernesto Lecuona. “São canções de amor absolutamente rasgadas, sem vergonha de serem românticas, e o Rodrigo construiu praticamente todo o balé em pas de deux (dueto executado por dois bailarinos)”, explica o diretor Paulo Pederneiras.

Depois de quase uma década longe dos palcos, a apresentação volta ao repertório do Corpo em 2026. A decisão de resgatá-lo passa tanto pelo carinho da companhia pela obra quanto pela relação que o espetáculo construiu com o público.
“Têm trabalhos que, depois de muitos anos, você assiste e sente que envelheceram um pouco. E têm outros que permanecem com o mesmo frescor da época da criação. Esse é o caso de Lecuona. Eu não mudei nenhuma vírgula do que foi estreado e apresentado há mais de 20 anos”, revela o coreógrafo Rodrigo Pederneiras ao Seu Dinheiro.
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Agora, seu retorno abre espaço para que uma nova geração, que nunca teve contato com a obra ao vivo, conheça o espetáculo nos palcos.
Obra mais recente do Grupo Corpo, ‘Piracema’ marca os 50 anos da companhia
Lançada em 2025 para celebrar os 50 anos do Grupo Corpo, Piracema se inspira no movimento dos peixes que nadam contra a correnteza em direção às nascentes para desovar. O nome vem do tupi — pira, peixe, e cema, subir.
Com trilha original de Clarice Assad, o espetáculo ganha ainda um cenário de forte impacto visual: 82 mil tampas de latas de sardinha, reunidas por Paulo Pederneiras em grandes painéis.

Além disso, o projeto inaugura a parceria de Rodrigo Pederneiras com Cassi Abranches, que assumiu no ano passado o posto de coreógrafa residente do Corpo. Antes disso, ela integrou o elenco como bailarina por 13 anos e, ainda nesse período, começou a se aproximar da criação. Em 2015, assinou Suíte Branca, seu primeiro trabalho coreográfico para o grupo.
A nova função, portanto, marca seu retorno à casa. “Ser coreógrafa residente do Grupo Corpo representa muito para mim, pessoal e artisticamente. É voltar ao lugar onde construí grande parte da minha carreira, agora em uma nova posição, contribuindo para o trabalho criativo”, diz Cassi ao Seu Dinheiro.
Dois trabalhos que viraram um terceiro
“Piracema nasceu de uma experiência que a gente nunca tinha feito. Dividimos os bailarinos em dois grupos e um coreógrafo não acompanhava o trabalho do outro. A ideia era criar dois universos independentes e só depois colocá-los frente a frente”, conta Paulo Pederneiras.
Quando eles finalmente viram o trabalho um do outro, começou uma segunda etapa: descobrir como aquelas duas linguagens poderiam coexistir numa obra única.

“Em alguns momentos, as coisas se chocavam; em outros, as ideias se complementavam de uma forma muito inesperada”, lembra Rodrigo. “Foi um trabalho a quatro mãos bem diferente de tudo o que tanto eu quanto a Cassi já tínhamos feito.”
Já Cassi define o processo como “muito generoso e colaborativo. “Para mim, foi especialmente marcante trabalhar ao lado do Rodrigo em uma companhia e com uma linguagem que fazem parte da minha própria história”, conta.
O “molho brasileiro” do Grupo Corpo
Seja em Lecuona ou Piracema, há algo na movimentação do Grupo Corpo que permite reconhecer a companhia quase de imediato. Para Rodrigo Pederneiras, essa identidade começou a ser construída principalmente a partir dos anos 1990.

“Até então, eu ouvia muita música erudita, música clássica, e durante toda a década de 1980 fiz um trabalho quase neoclássico. Isso começou a se quebrar no início dos anos 1990, quando passei a buscar uma identidade brasileira, uma forma de dançar que fosse reconhecível e que tivesse esse molho, esse caldo, essa cor brasileira.”
A busca levou a companhia às danças populares e às festas de diferentes partes do país, para identificar movimentos que pudessem dialogar com a forte base de técnica clássica do Corpo.
Décadas depois, o coreógrafo consegue apontar alguns ingredientes desse “molho”.
“Esse reconhecimento vem dessa brasilidade, da sensualidade e, principalmente, da utilização da bacia. Em quase todas as danças populares brasileiras, é a bacia que inicia a movimentação e acaba levando o corpo todo”, explica Rodrigo.

Um Corpo em constante renovação
Quando o Grupo Corpo começou, em 1975, o cenário da dança no Brasil era bastante diferente. “Havia pouquíssimas companhias profissionais no Brasil e um público de dança bastante restrito”, lembra Paulo Pederneiras. Hoje, segundo ele, a plateia é muito maior e mais diversa, interessada não apenas em dança, mas também em artes cênicas, música e cultura de maneira geral.
A transformação também aconteceu dentro do próprio Grupo Corpo. “Não acho que tenha envelhecido. Acho que amadureceu e ficou mais exigente. A companhia foi encontrando sua linguagem ao longo do caminho, sem transformar isso numa fórmula”, afirma.

Para Paulo, talvez esteja justamente aí uma das explicações para a longevidade do grupo: preservar uma identidade própria sem se fechar às mudanças que o tempo proporciona.
“O elenco muda, as gerações mudam, a maneira de produzir muda, o mundo muda. A companhia precisa estar permeável a isso”, conclui.
SERVIÇO:
GRUPO CORPO - PIRACEMA E LECUONA
Data: 14 a 23 de Agosto;
Horário: Quarta, Quinta e Sexta às 20h30, Sábado e Domingo às 18h00
Endereço: BTG Pactual Hall – Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo
Ingressos: Sympla
- Plateia VIP: R$ 350 (inteira) / R$ 175 (meia)
- Plateia: R$ 320 (inteira) / R$ 160 (meia)
- Balcão: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia)
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