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CAMINHO DO MEIO

De um lado, a maior economia do mundo. Do outro, um parceiro do Brics. Qual será a posição do Brasil na guerra?

Depois dos ataques coordenados de EUA e Israel ao Irã neste sábado (28), entenda qual deve ser o posicionamento do governo brasileiro e as implicações do conflito para o País

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28 de fevereiro de 2026
21:29 - atualizado às 21:33
Montagem da bandeira dos EUA, do Brasil e do Irã
Bandeiras dos EUA, Brasil e Irã - Imagem: ChatGPT

De um lado, a maior economia do mundo. Do outro, um parceiro do Brics (grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e aliados). No meio, o Brasil que, segundo especialistas, deve adotar postura cautelosa em relação aos ataques dos EUA e de Israel ao Irã neste sábado (28).

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Esse comportamento é explicado por um cenário em que o governo brasileiro conduz negociações tarifárias com os norte-americanos e tem nos iranianos um aliado que forma o Brics, grupo de nações do chamado Sul Global.

Mesmo em meio a negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano, os EUA realizaram uma ofensiva militar contra alvos no território iraniano. Israel também executou ataques.

O Irã retaliou com o lançamento de mísseis a países vizinhos que ostentam bases norte-americanas. O país do Oriente Médio sustenta que o desenvolvimento de tecnologia nuclear tem fins pacíficos.

EUA, Irã e a cautela brasileira

O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), defende que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro tem que encontrar uma “posição intermediária” entre Irã e EUA.

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“Como o Irã agora é um membro dos Brics, o Brasil se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os EUA, dado que o Brasil tem essa negociação com os EUA”, avalia.

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Há a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontre com Donald Trump nos EUA, no fim de março.

A negociação a qual se refere Feliciano trata de tarifas de importação impostas em agosto passado pelo governo Trump. O Brasil chegou a ter produtos tarifados em até 50%. 

Ao elevar taxas sobre produtos importados, o governo norte-americano justifica que pretende proteger a economia dos EUA, já que, com taxação, Washington tenderia a fabricar produtos localmente em vez de adquiri-los no exterior. 

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Desde então, os governos brasileiro e norte-americano negociam formas de buscar acordos para a parceria comercial. Houve retiradas de produtos da lista de tarifas.

No dia 20 de fevereiro, uma decisão da Suprema Corte dos EUA derrubou a decisão de Trump, que reagiu impondo tarifa de 10% a diversos países. 

O professor titular aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves destaca que a posição de cautela que precisa ser adotada pelo Brasil tem a ver com o fato de o país ser fundador do Brics, grupo que reúne 11 países-membros e 10 países-parceiros que se definem como Sul Global.

A Rússia e a China, dois importantes aliados do Irã, também são fundadores do Brics, em 2006. O Irã passou a ser país-membro em 2024.

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“O Brasil tem uma relação com a Rússia e com a China forte e tem uma relação não tão forte, mas tem uma relação com Irã”, assinala o professor.

“Estão todos [países] dentro do mesmo barco do Brics, todos engajados, pelo menos teoricamente, na ideia de mudança da ordem internacional”, enfatiza Gonçalves.

EUA na Venezuela: uma lição aprendida?

Williams Gonçalves lembra que o Brasil tem adotado cautela também em virtude das ações de Trump na Venezuela.

“O regime de Trump foi lá e sequestrou um presidente da República na América do Sul, nosso vizinho”, cita, em referência à captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.

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“Nossa posição tem sido de muita cautela, procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”, afirma.

No entanto, Gonçalves entende que o desdobrar dos acontecimentos pode exigir posições mais fortes do Brasil. Ele cita a pretensão declarada dos EUA de mudar o regime no Irã.

“O Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, que sempre defendeu o princípio da não ingerência, não pode agora apoiar governos que intervenham em outros estados com a finalidade de mudar o sistema político escolhido pelo seu povo”, avalia.

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Efeito limitado sobre o Brasil

O pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) Leonardo Paz Neves acredita que o Brasil pode ser afetado de forma limitada pelo conflito no Oriente Médio.

Segundo ele, o posicionamento do governo foi “protocolar”, criticando o ataque.

“Não acho que o presidente Lula e o Brasil vão se engajar muito nesse conflito. Está muito longe do Brasil, não tem grandes interesses específicos do Brasil nesse processo. Obviamente o Brasil está em uma tentativa muito prolongada de negociação com os Estados Unidos”, avalia.

Ao comentar a possível viagem de Lula aos EUA em março, o pesquisador diz acreditar que o país deve manter posição “crítica institucional”, chamando Irã e Estados Unidos para voltarem à mesa de negociação.

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“Mas sem se envolver muito fortemente porque tem muito a perder”, ressalta.

“Ele [Lula] sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o Brasil muito grande”, justifica.

Comércio com Irã

Para Leonardo Paz Neves, os efeitos econômicos que o Brasil pode sofrer com a escalada do conflito passam pelo petróleo, que pode subir de preço. 

“O que gera inflação. Toda vez que o petróleo sobe ─ o petróleo é base de cadeia ─ então impacta em diversos setores”.

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Outro reflexo, acrescenta o pesquisador, é no comércio internacional com o Irã.

“O Irã é um importador importante dos produtos brasileiros, especialmente a soja, o milho e alguma coisa de proteína”, lista.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2025, a corrente de comércio Brasil-Irã ficou em US$ 3 bilhões, o equivalente a mais de R$ 15 bilhões. O Brasil tem superávit na relação comercial, tendo exportado US$ 2,9 bilhões e importado US$ 85 milhões.

O Irã foi no ano passado o 31º país para os quais o Brasil mais exportou. O principal produto de exportação é o milho não moído, que responde por 67,9% do valor dos embarques. Em seguida aparece a soja, com 19,3%.

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“Se o conflito escalar muito e tiver o Irã cercado pela marinha americana, vai ser um problema mandar a exportação brasileira para lá. Vai ter alguns setores aqui no Brasil que vão sofrer um pouco, perder um importante comprador”, diz.

*Com informações da Agência Brasil

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