A Selic não vai mais cair? O que pode acontecer com os juros no Brasil e no mundo com o Oriente Médio em chamas
A disparada do petróleo pode reascender a inflação global, e alguns líderes de bancos centrais ao redor do mundo já estão em alerta

O Oriente Médio está em chamas depois que os ataques coordenados entre EUA e Israel contra o Irã no sábado (28) levaram a retaliações de Teerã e se espalharam pelo Líbano. Os mercados no Brasil e no mundo acordaram em alerta nesta segunda-feira (2) e as taxas de juros globais voltaram à berlinda.
A disparada do petróleo, que chegou a subir 12% na esteira do conflito, alimenta a inflação ao redor do mundo. Preços mais altos, demandam juros mais altos. E alguns líderes de bancos centrais já indicaram que estão prontos para puxar o gatilho do aperto monetário se a situação ameaçar as economias.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne no próximo dia 18 de março e o plano indicado na última decisão prevê um corte de juros — as apostas majoritárias indicavam, até então, um afrouxamento de 50 pontos-base (bp), o que tiraria a Selic dos atuais 15% ao ano para 14,50% ao ano.
Para Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, os planos do Banco Central para o encontro deste mês não devem mudar, mas o calibre do corte pode sofrer alterações a depender dos efeitos do conflito no Oriente Médio nos mercados e na economia.
“O Copom deve manter o plano de cortar os juros agora, mas, com os eventos no Oriente Médio, a redução de 25 bp voltam para a mesa”, afirmou.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio fundador da Forum Investimentos, diz que os desdobramentos do conflito no Oriente Médio ditarão os rumos da política monetária daqui para frente, e que para a reunião deste mês, o corte de 50 pb da Selic segue como o mais provável.
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“Tudo vai depender dos desdobramentos daqui para frente. Acho improvável que o Brasil tenha que subir juros por causa disso, já que a tendência estrutural segue a mesma”, afirmou.
“A chance de o Brasil ter que subir juros é muito mais distante do que a de outras economias já que o Brasil já tem um diferencial de taxas muito grande em relação aos países desenvolvidos e um juro muito contracionista”, acrescentou.
Perri afirma que se o câmbio subir muito por conta dos desdobramentos do conflito, os cortes de juros no Brasil podem ser mais tímidos. “O Banco Central pode cortar menos ou demorar mais para cortar em um cenário mais radical”, disse.
Já André Valério, economista sênior do Inter, afirma que o Banco Central brasileiro pode também encerrar o ciclo de cortes de juros antes do tempo, dependendo da duração do conflito.
“Acreditamos que nada muda, em princípio, e continuamos esperando o início do ciclo de cortes para a reunião deste mês”, afirma.
Mais cedo, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse que a alta do petróleo após os ataques dos EUA e Israel contra o Irã no sábado (28) não deve ter impacto na próxima decisão do Copom.
Segundo Ceron, o impacto de um avanço mais intenso do petróleo seria mais provavelmente uma parada do ciclo de cortes mais cedo do que o esperado este ano.
“Me parece que o cenário está traçado e, obviamente, em princípio, não tem um efeito relevante nesse primeiro momento se [o petróleo] ficar mais ou menos nesse patamar, dada a apreciação cambial que aconteceu", disse Ceron, em um evento do jornal Valor Econômico.
O que diz o Focus sobre os juros no Brasil
O relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (2) mostra que a mediana para a Selic no fim de 2026 caiu de 12,13% para 12%. A projeção para 2027 seguiu em 10,50%. Para 2028 e 2029, a estimativa foi mantida em 10% e 9,50%, respectivamente.
Em janeiro, o Copom decidiu manter a Selic em 15% pela quinta vez seguida, mas indicou que deve começar o processo de corte dos juros agora em março.
"O comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", disse a ata da decisão.
Já para a inflação, a projeção manteve o índice de preços para o consumidor amplo (IPCA) de 2026 em 3,91% — 0,91 ponto percentual (pp) acima do centro da meta, de 3%. Para 2027, a projeção para o IPCA caiu de 3,80% para 3,79%.
Vale lembrar que o IPCA encerrou 2025 com alta acumulada de 4,26%, um resultado abaixo da última mediana do Focus, que previa alta de 4,31%, e da estimativa do Banco Central, de alta de 4,4%.
O Citi espera um impacto limitado do conflito Irã-EUA no curto prazo, já que as expectativas de inflação estão praticamente estáveis.
O time do banco ressalta a estabilidade das expectativas de inflação para 2026 segundo o Focus, apesar do índice de preços ao consumidor (IPC) da primeira metade de fevereiro ter sido divulgado na última sexta-feira (27) ter sido consideravelmente mais alto.
“Para nós, o provável aumento nas expectativas de inflação do IPC de fevereiro nas próximas semanas — em comparação com o nível atual de 0,47% — deve levar as projeções de inflação para o final de 2026 de volta para cerca de 4,0% nas próximas semanas”, disseram os analistas do Citi em relatório.
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E os juros no mundo?
Se, no Brasil, a expectativa é de que o Copom corte os juros na reunião deste mês, no exterior, a perspectiva é outra.
Na Ásia, que sentiu primeiro os efeitos do conflito entre EUA e Irã nos mercados, o membro do Conselho do Banco do Japão (BoJ) Ryozo Himino renovou o compromisso da autoridade monetária com o aumento dos juros. Depois de anos de juros negativos, a taxa por lá está em 0,75% ao ano.
Himino afirmou que a inflação subjacente tem acelerado de forma constante e que, em tal cenário, o BoJ deve mudar gradualmente de postura por meio de um aumento moderado dos juros.
Na Europa, o presidente do BC da Áustria, Martin Kocher, disse que o Banco Central Europeu (BCE) deve estar preparado para ajustar os juros rapidamente em qualquer direção diante da elevada incerteza que o conflito no Oriente Médio provoca. A taxa por lá está em 2,15% ao ano.
Já a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou mais cedo que está monitorando atentamente a situação global "atípica", sem fornecer mais detalhes.
No Reino Unido, os traders passaram a precificar chance de 50% para um corte de juros pelo Banco da Inglaterra (BoE) ainda este mês, abaixo dos mais de 80% anteriormente. Eles não preveem mais três cortes em 2026.
No caso do Federal Reserve (Fed), a equipe de estratégia global da TD Securities espera que os riscos geopolíticos impulsionem as expectativas de mais afrouxamento monetário por parte do banco central norte-americano.
“Avaliaremos os impactos inflacionários nos EUA mais tarde, já que dados de emprego e do varejo norte-americano serão divulgados nos próximos dias e podem dar um quadro melhor do que o Fed pode fazer com juros”, afirmam.
O comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) do Fed tem reunião marcada no mesmo dia do Copom, no dia 18 deste mês.
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