Copom: Banco Central confirma corte de juros ‘cauteloso’ em março, e expectativa para reajuste de 0,25 pp ganha força
Segundo a ata do Copom, em um ambiente de inflação mais baixa, a estratégia passa pela calibração do nível de juros

A sinalização clara de que o ciclo de corte de juros vai começar já em março surpreendeu o mercado. Agora, o Banco Central reformou a previsão, com a divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
O documento, porém, afirma que o afrouxamento monetário será cauteloso e sereno, abrindo espaço para as expectativas de um ajuste de 0,25 ponto percentual.
Segundo a ata, em um ambiente de inflação mais baixa e com sinais mais claros de transmissão da política monetária, a estratégia passa pela calibração do nível de juros. Na semana passada, o BC manteve a Selic em 15% ao ano, no maior patamar em duas décadas.
“O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", disse a ata.
A meta é uma inflação de 3% em 12 meses, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo. Segundo o IPCA-15, a prévia da inflação, de janeiro, a alta de preços foi de 4,5%.
O documento mantém, de um lado, a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda, que exige uma política monetária contracionista por um período prolongado. De outro, aponta que a política monetária tem contribuído de forma determinante para a desinflação observada.
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O Copom destacou ainda que as expectativas de inflação mantiveram trajetória de declínio, mas seguem acima do centro da meta, e que "perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária" são importantes para a convergência da inflação à meta com menor custo.
Com isso, o Banco Central indicou que o tamanho dos cortes e por quanto tempo eles devem se estender serão definidas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às análises, permitindo uma avaliação mais precisa.
Qual o risco inflacionário segundo o Copom
A ata indica que as leituras recentes apontam para um arrefecimento da inflação, tanto no índice cheio quanto em aberturas e medidas subjacentes. A combinação de um câmbio mais apreciado para o real e um comportamento mais benigno das commodities contribuiu para reduzir a inflação de bens industrializados e alimentos.
A inflação de serviços também mostrou algum arrefecimento, embora siga mais resiliente, refletindo um mercado de trabalho ainda dinâmico e uma atividade econômica que vem apresentando moderação gradual.
As projeções para a inflação acumulada em quatro trimestres em 2026 e no terceiro trimestre de 2027 — atual horizonte relevante de política monetária — são, respectivamente, de 3,4% e 3,2%.
No cenário de referência, a trajetória para a taxa de juros é extraída do Relatório Focus e a taxa de câmbio parte de R$ 5,35/US$ 2, evoluindo segundo a paridade do poder de compra. O preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente.
Além disso, adota-se a hipótese de bandeira tarifária “amarela” em dezembro de 2026. O Comitê também continuará acompanhando os dados para calibrar e refinar os impactos da medida de ampliação da isenção do Imposto de Renda.
Política fiscal
Em relação à política fiscal, o Banco Central avalia que ela tem impacto no curto prazo, majoritariamente por meio do estímulo à demanda agregada, e também uma dimensão mais estrutural. Nesse caso, pode afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e influenciar o prêmio a termo na curva de juros.
Segundo a autoridade monetária, uma política fiscal contracíclica, que contribua para reduzir o prêmio de risco, favorece a convergência da inflação à meta.
“O Comitê reforçou a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”, afirma.
O BC também defende que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. “Em particular, o debate do Comitê evidenciou, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, completa.
Economia e mercado de trabalho
No cenário doméstico, o conjunto de indicadores segue apontando para uma moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho continua mostrando sinais de resiliência.
“O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”, diz a ata.
A moderação — e a heterogeneidade do crescimento entre setores e mercados — é compatível com a política monetária em curso. Em momentos de inflexão no ciclo econômico, é comum observar sinais mistos nos indicadores e diferenças entre expectativas e divulgações.
O Comitê afirma que segue acompanhando de perto o mercado de trabalho. No período mais recente, a taxa de desemprego permaneceu em patamares historicamente baixos, enquanto os rendimentos reais médios continuaram avançando acima do crescimento da produtividade.
“O Comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”, diz.
Cenário externo
O Copom avalia que o ambiente externo segue incerto, em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais — o que exige maior cautela por parte de países emergentes.
Por outro lado, embora os riscos de longo prazo permaneçam, as condições recentes indicam algum arrefecimento na incerteza.
“Elevações das tensões geopolíticas e seus desdobramentos seguem sendo monitorados, porém, no contexto atual os preços das principais commodities permaneceram contidos, e as condições financeiras, favoráveis”, diz a ata.
Com Money Times
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