Reforma tributária pode virar dor de cabeça para a Ambev (ABEV3): BofA vê risco ainda ignorado pelo mercado
Banco mantém recomendação neutra para as ações, mas alerta para riscos tributários que podem reduzir o crescimento e a rentabilidade da cervejaria

A reforma tributária pode trazer um problema para a Ambev (ABEV3) nos próximos anos. Embora a mudança para o novo sistema de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) tenha potencial para beneficiar a fabricante de cervejas, o ganho pode ser completamente neutralizado pela criação do Imposto Seletivo (IS) sobre bebidas alcoólicas.
É o que aponta o relatório do Bank of America (BofA), divulgado na segunda-feira (1). Os analistas mantiveram recomendação neutra para as ações da companhia, com preço-alvo de R$ 16, mas alertaram para riscos que ainda não parecem refletidos nas expectativas do mercado para 2027.
Nesta terça-feira (2), as ações da Ambev fecharam o pregão com alta de 0,12% no Ibovespa, cotadas a R$ 16,45. Assim, o preço-alvo de R$ 16 estabelecido pelo BofA representa um potencial de desvalorização de 2,75%.
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Onde a Ambev pode sair ganhando
Segundo o banco, a adoção do novo modelo tributário tende a favorecer a operação brasileira de cervejas da Ambev ao reduzir distorções causadas pelo atual sistema de cobrança de impostos, especialmente o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
A estimativa é que a transição para o IVA possa elevar os preços líquidos da cerveja em cerca de 5% inicialmente e em até 10% ao final do período de implementação, previsto para terminar em 2033.
O problema é que esse benefício pode desaparecer dependendo do tamanho da alíquota do Imposto Seletivo, que ainda será definida pelo governo.
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O ponto de atenção para a Ambev
Na avaliação do BofA, uma alíquota superior a 7% já seria suficiente para compensar integralmente os ganhos gerados pela migração para o novo sistema de IVA.
Os analistas lembram que experiências internacionais oferecem motivos para cautela. No México e no Chile, por exemplo, impostos seletivos aplicados a bebidas resultaram em cargas efetivas equivalentes a 10% a 18% dos preços líquidos dos produtos.
Como os detalhes da regulamentação ainda não foram divulgados, o banco utilizou um cenário simplificado para medir os possíveis impactos sobre o valor da companhia.
As contas mostram que cada aumento de 5 pontos percentuais (pp) na alíquota do Imposto Seletivo reduziria em aproximadamente 4,2% a projeção de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da divisão de cervejas no Brasil em 2027.
O desafio de repassar preços
Outro ponto destacado pelo BofA é a dificuldade de transferir integralmente o aumento da carga tributária para o consumidor.
Os analistas calculam que um Imposto Seletivo de 15%, combinado com uma alíquota de 8,8% da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), um dos novos tributos criados pela reforma tributária, exigiria um reajuste de aproximadamente 9,6% nos preços da cerveja em 2027 para preservar a rentabilidade da companhia.
A estratégia, porém, pode encontrar resistência do mercado.
O banco destaca que o setor já enfrentou dificuldades recentemente. Em 2025, o volume da indústria de cervejas recuou cerca de 4%, mesmo com preços avançando apenas em linha com a inflação.
Considerando um cenário em que a Ambev consiga repassar apenas metade do aumento de custos, com elasticidade de demanda de 0,5 e crescimento de mercado de 1%, o Ebitda da operação brasileira de cervejas poderia cair 17% em 2027.
No consolidado da companhia, a redução seria de aproximadamente 8,6%.
Por que o BofA manteve recomendação neutra
Apesar dos riscos de médio prazo, o Bank of America avalia que a Ambev continua apresentando um cenário operacional favorável no curto prazo.
O banco cita os ganhos de participação de mercado e uma base de comparação mais fácil nos próximos trimestres como fatores que devem sustentar os resultados da companhia.
Ainda assim, os analistas acreditam que o mercado pode estar subestimando os impactos da reforma tributária e de uma possível elevação dos custos a partir de 2027.
Segundo o relatório, a projeção de lucro por ação do BofA para a Ambev já está cerca de 11% abaixo do consenso do mercado.
Além disso, as ações negociam atualmente a 17,1 vezes o lucro estimado para 2027, em linha com a AB InBev, enquanto historicamente costumavam ser negociadas com desconto de aproximadamente 23%.
Para o banco, isso sugere que os investidores ainda não incorporaram totalmente os riscos que podem surgir com a implementação definitiva da reforma tributária.
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