Ação do Banco do Brasil salta apesar de ceticismo do mercado após lucro e ROE turbinados no 4T25. Por que BBAS3 ainda divide opiniões?
Apesar de um balanço mais forte que o esperado, o mercado ainda não se deu por convencido; entenda o que continua a frear o otimismo

A combinação de um lucro acima do esperado e uma rentabilidade de dois dígitos reacendeu o debate sobre uma possível virada do Banco do Brasil (BBAS3). Logo na abertura, as ações do BB iniciaram o pregão desta quinta-feira (12) em forte alta. Mas, para parte do mercado, ainda é cedo para cravar que o pior ficou para trás.
No último trimestre do ano passado, o BB teve um lucro líquido ajustado de R$ 5,74 bilhões, queda de 40,1% na comparação anual, mas recuperação de 51,7% frente aos três meses anteriores.
Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) chegou a 12,4% no trimestre, recuo de 8,4 pontos percentuais na base anual e avanço de 4 pontos na comparação trimestral.
Por volta das 10h40, as ações BBAS3 saltavam 5,22% na B3, negociadas a R$ 26,21. Desde o início do ano, a valorização supera os 19%.
Os destaques do balanço do Banco do Brasil (BBAS3) no 4T25:
| Indicador | Resultado 4T25 | Projeções | Variação (a/a) | Evolução (t/t) |
|---|---|---|---|---|
| Lucro líquido | R$ 5,74 bilhões | R$ 4,02 bilhões | -40,1% | +51,7% |
| ROAE | 12,4% | 8,7% | -8,4 p.p | +4 p.p |
| Margem financeira | R$ 27,8 bilhões | — | +3,8% | +5,4% |
| Carteira de crédito ampliada | R$ 1,29 trilhão | — | +2,5% | +1,4% |
Apesar da fotografia aparentemente mais colorida, a XP Investimentos, por exemplo, não comprou a tese de inflexão.
Na avaliação dos analistas, o quarto trimestre mostrou uma melhora importante — sobretudo na comparação com os períodos anteriores —, mas ainda não representa uma virada estrutural no quadro do banco.
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"Os resultados do 4T25 reforçam sinais de estabilização, mas não mudam materialmente nossa postura cautelosa”, disse a XP.
O que está por trás do lucro mais forte no Banco do Brasil no 4T25?
Embora a alta no lucro tenha surpreendido no trimestre, o mercado chama atenção para a composição do resultado: parte relevante da surpresa veio de um efeito tributário positivo de R$ 1,8 bilhão no trimestre.
Analistas esperavam, na verdade, uma despesa tributária. A XP projetava um impacto negativo de R$ 216 milhões. O que veio foi o oposto: uma reversão positiva, impulsionada por um resultado antes dos impostos (EBT) menor e por um mix de produtos que favoreceu o lucro líquido.
Ou seja, o número final foi beneficiado por um componente não recorrente — o que ajuda a explicar por que o mercado ainda mantém o pé atrás.
Enquanto isso, os custos de crédito seguiram elevados, e as tendências de qualidade da carteira, especialmente no agronegócio, continuam pressionando.
O head de research da Eleven Financial, Fernando Siqueira, descreve o resultado como “um lucro até alto, mas com uma qualidade muito baixa”.
O Itaú BBA também teve uma leitura negativa do resultado. Segundo os analistas, o Banco do Brasil apresentou tendências subjacentes fracas no 4T25 e um guidance conservador para 2026.
Já o JP Morgan adota um tom levemente mais construtivo, embora também longe de qualquer euforia. Para o banco norte-americano, mesmo que a reversão tributária tenha ajudado, o resultado operacional antes dos impostos (EBT) também veio acima do esperado.
O desempenho foi sustentado por menores despesas de captação e por uma receita de equivalência patrimonial superior às projeções, com contribuição relevante do Banco Patagonia.
“Para ser claro, um ROE de 12,6% está longe de ser um grande trimestre, mas dadas as expectativas baixas e o guidance de 2026 em linha, nossa primeira impressão é positiva”, avaliam os analistas.
Enquanto isso, o BTG Pactual admitiu frustração com o EBT do Banco do Brasil, que veio 17% abaixo das estimativas dos analistas, reflexo de maiores provisões e despesas operacionais mais fracas, parcialmente compensadas pela surpresa positiva na margem financeira.
O Citi também avalia que, apesar do resultado acima do esperado, o Banco do Brasil ainda não virou a chave. “O cenário ainda é desafiador para o Banco do Brasil, o que nos mantém cautelosos por ora”, afirmou.
Para os analisas, apesar das tendências positivas na margem financeira, impulsionadas pela melhora no custo de captação e por alguns ventos favoráveis da Patagonia, os indicadores de qualidade de ativos ainda mostram que pode ser cedo para afirmar que o BB chegou ao pico do ciclo de inadimplência.
Qualidade do crédito e crescimento menor da carteira
Para os analistas, o cenário para o crédito permanece turbulento. A inadimplência no agro piorou, como já era esperado, e houve leve deterioração na carteira de pessoa física. O segmento corporativo, por outro lado, apresentou melhora no trimestre.
É por isso que a desaceleração do crescimento da carteira de crédito nos três grandes segmentos foi vista como um ponto positivo pel o mercado. Em um momento em que a qualidade dos ativos ainda não se estabilizou, crescer menos pode significar errar menos.
"Vemos com bons olhos a postura prudente e a governança do banco em um momento em que o ciclo de aperto monetário tem afetado negativamente a qualidade dos ativos”, afirmou a XP.
A visão do mercado para 2026: expansão contida e cautela
O guidance para 2026 reforça essa estratégia mais conservadora. O Banco do Brasil projetou:
- Carteira de crédito: 0,5% a 4,5%
- Pessoas físicas: 6% a 10%
- Empresas: -3% a 1%
- Agronegócios: -2% a 2%
- Carteira sustentável: 2% a 6%
- Margem financeira bruta: 4% a 8%
- Custo do crédito: R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões
- Receitas de prestação de serviços: 2% a 6%
- Despesas administrativas: 5% a 9%
- Lucro líquido ajustado: R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões
Para a XP, as projeções indicam um ROE próximo de 14% neste ano — uma “recuperação gradual, sustentada por melhores spreads e provisões ligeiramente menores”. Mas a corretora reforça: o ritmo de melhora da qualidade do crédito será a variável decisiva para este ano.
Por sua vez, o JP Morgan avalia que a decisão da gestão de definir um ritmo contido de expansão de crédito ao longo de 2026 é um sinal positivo.
"Embora investidores possam questionar se a companhia entregará o guidance após revisões em 2025 e se os R$ 22 bilhões refinanciados no agro via MP 1314 são uma solução temporária ou permanente, vemos de forma positiva os sinais tangíveis da gestão de menor apetite por crédito”, disse o banco norte-americano.
Para o Itaú BBA, ainda que o guidance finalmente pareça “conservador o suficiente para começar a construir confiança do mercado”, a sinalização é de uma recuperação mais demorada e com vários fatores incertos, especialmente a normalização dos custos de crédito no agro e o impacto da trajetória da Selic sobre o custo de captação.
Quando a inadimplência vai melhorar?
A grande interrogação do balanço continua sendo o agronegócio — historicamente um dos pilares do Banco do Brasil.
A XP acredita que as medidas de apoio do governo devem começar a aliviar de forma mais relevante os indicadores de inadimplência a partir do segundo trimestre de 2026.
“O BB sempre foi muito relevante em Agronegócio, com uma carteira em torno de R$ 400 bilhões. Porém, o que antes era um ponto de força — o banco detém mais de 50% de participação de mercado — acabou se tornando um desafio nos últimos anos, diante da alta da inadimplência”, reforçou a XP.
No fim do ano, cerca de 15,9% da carteira rural estava classificada como carteira de rolagem, com inadimplência ainda crescente dentro da parcela reestruturada. "Ainda não é possível afirmar que o pior já passou”, diz a XP.
A aposta do Citi é que a visibilidade sobre a qualidade de ativos do BB deve melhorar mais para o fim do primeiro semestre de 2026.
Para o JP Morgan, o pacote de socorro ao setor deve fornecer algum alívio até 2029, o que também torna as comparações com os pares mais complexas.
Chegou a hora de apostar nas ações do Banco do Brasil?
Apesar do resultado acima das expectativas, o mercado segue reticente. Entre sete recomendações compiladas pelo TradeMap para BBAS3, apenas uma é de compra; as outras seis são neutras.
A própria XP manteve recomendação neutra, citando o cenário ainda pressionado de qualidade de ativos, visibilidade limitada sobre a velocidade de normalização, custos de crédito elevados, múltiplos mais exigentes e um dividend yield menos atraente.
O BTG também seguiu com classificação neutra para as ações BBAS3, diante da "baixa visibilidade de normalização do risco no agro", segundo os analistas.
Na visão do Itaú BBA, dados os múltiplos de 0,8 vez o valor patrimonial para 2025 e de 6,4 vezes os lucros para este ano, a assimetria das ações "parece desfavorável, e a visibilidade sobre o ritmo de recuperação permanece incerta".
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