Pressão no retrovisor: Localiza (RENT3) cai forte na B3 após UBS BB reduzir recomendação; culpa pode ser da “segunda onda” de carros chineses
Banco vê risco de depreciação mais forte da frota com nova enxurrada de carros chineses e diz que espaço para surpresas positivas diminuiu; veja a visão dos analistas

O pregão desta quinta-feira (5) trouxe um freio brusco para as ações da Localiza (RENT3). Os papéis da locadora entraram em forte queda e passaram a liderar as perdas do Ibovespa após um bancão de investimentos recalibrar as expectativas para a empresa.
Por volta das 16h30, os papéis da companhia recuavam 6,24%, a R$ 47,22, liderando a ponta negativa do Ibovespa.
A performance negativa vem na esteira da decisão do UBS BB de rebaixar a recomendação para o papel da maior locadora de veículos da América Latina, de compra para neutra.
A leitura do UBS BB é que a tese estrutural da Localiza continua intacta, mas boa parte das expectativas favoráveis já estaria refletida nas cotações. Em outras palavras, o banco vê o papel hoje como “justamente precificado”.
“Embora reconheçamos que a empresa se beneficia de um ciclo de queda de juros, acreditamos que esses benefícios estão sendo cada vez mais compensados pelos riscos crescentes de depreciação”, escreveram os analistas.
Mesmo com o rebaixamento da recomendação, o banco elevou o preço-alvo da ação, de R$ 50 para R$ 55 para os próximos 12 meses. Considerando o fechamento anterior — quando RENT3 encerrou o pregão a R$ 50,36 —, isso implica um potencial de valorização de cerca de 9,2%.
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Dois pesos, duas medidas?
Para os analistas do UBS, a Localiza apresenta um risco-retorno “equilibrado”. A análise parte de um equilíbrio delicado entre dois fatores que moldam a rentabilidade da Localiza.
De um lado, há um vento macroeconômico favorável: a perspectiva de queda da taxa de juros no Brasil. Como empresas de locação dependem intensamente de financiamento para manter suas frotas, juros menores tendem a aliviar o custo da dívida e melhorar os resultados.
Nas contas do banco, uma redução de 100 pontos-base na Selic poderia acrescentar cerca de R$ 150 milhões ao resultado financeiro da companhia.
Hoje, a taxa básica de juros está em 15% ao ano, mas o UBS BB projeta uma trajetória de queda da Selic para 12% até o fim de 2026 e 10,5% em 2027.
Esse movimento tende a ajudar não apenas o lucro, mas também a desalavancagem da companhia — um fator importante para um negócio intensivo em capital como o de locação de veículos.
O problema é que esse vento favorável encontra uma força contrária relevante: a dinâmica de preços no mercado automotivo.
O calcanhar de Aquiles da Localiza: a depreciação da frota
Para empresas como a Localiza, a gestão da frota vai muito além de comprar carros e alugá-los. Parte central do modelo de negócios está no momento em que esses veículos são vendidos no mercado de seminovos. É justamente aí que mora uma das principais preocupações dos analistas.
Hoje, segundo as estimativas do UBS BB, a depreciação na divisão de aluguel de carros (rent-a-car) gira em torno de -9%, enquanto o spread entre o preço de compra e o preço de venda dos veículos está próximo de -13%, nas contas do UBS.
Na visão do banco, porém, o mercado parece estar embutindo um cenário mais otimista nas expectativas.
Segundo os analistas, investidores estariam considerando um spread bem mais estreito, entre -2% e -4%, uma leitura que ganhou força após discussões na teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2024 e que já teria sido incorporada nas projeções para 2027.
O UBS BB, no entanto, trabalha com números um pouco mais conservadores. A projeção é que o spread fique em torno de -6% em 2027, recuando gradualmente até cerca de -4% em 2028.
“Portanto, vemos espaço limitado para surpresas positivas caso as pressões de depreciação persistam”, escreveram os analistas.
A nova onda de carros chineses
Outro fator que ganha peso nas projeções para o setor automotivo brasileiro é a chegada de uma nova leva de montadoras de carros chinesas ao país.
Nos últimos anos, marcas asiáticas ganharam espaço com modelos elétricos e híbridos mais competitivos — movimento que pode acelerar ainda mais nos próximos ciclos de lançamento, segundo os analistas.
Para o UBS BB, essa segunda onda de entrada de fabricantes chineses tende a trazer impactos estruturais para o mercado.
“Uma nova rodada de entrada de montadoras chinesas no Brasil, com preços agressivos e maior oferta de veículos elétricos e híbridos plug-in, cria pressões tanto cíclicas quanto estruturais sobre os valores residuais dos veículos”, afirmam os analistas.
Na prática, isso significa que a oferta crescente de modelos mais baratos pode pressionar os preços de revenda, reduzindo o valor residual da frota das locadoras.
As estimativas do banco indicam que cerca de 70 novos modelos de veículos devem ser lançados no Brasil até 2026, além da entrada de oito novas montadoras no mercado.
Em muitos casos, esses veículos chegam com preços entre 15% e 20% inferiores aos modelos já disponíveis, o que pode alterar a dinâmica de preços no mercado automotivo — e, consequentemente, no segmento de seminovos.
4T25 da Localiza: resultados continuam sólidos
Apesar das preocupações levantadas pelo UBS BB, os números mais recentes da Localiza mostram que a companhia segue entregando crescimento operacional.
No quarto trimestre de 2025, a empresa registrou lucro líquido de R$ 939 milhões, alta de 12,1% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) também avançou 12,1%, totalizando R$ 3,7 bilhões.
Já o Ebit, indicador que mede o desempenho operacional após a depreciação, cresceu 17,8%, alcançando R$ 2,3 bilhões.
A receita líquida consolidada somou R$ 11 bilhões no trimestre, uma expansão de 11,7% na comparação anual.
No detalhamento por divisão, o segmento de aluguel de veículos registrou receita de R$ 5,1 bilhões, alta de 7,2%. Já a área de seminovos, responsável pela venda dos carros que deixam a frota, apresentou crescimento mais acelerado: 16,1%, para R$ 5,8 bilhões.
No acumulado de 2025, o lucro líquido contábil da companhia chegou a R$ 1,8 bilhão, avanço de 3,2% em relação ao ano anterior.
Segundo a empresa, o resultado foi impactado por efeitos não recorrentes, como o IPI Verde, que gerou impacto de R$ 929 milhões (R$ 613 milhões após impostos), além da baixa de prejuízo fiscal da antiga Locamerica, de R$ 937 milhões — um efeito contábil sem impacto de caixa.
Ajustando esses fatores extraordinários, o lucro líquido anual teria sido de aproximadamente R$ 3,4 bilhões, segundo o release de resultados.
*Com informações do Money Times.
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