UBS BB tira MRV (MRVE3) do pódio de recomendações, corta preço-alvo em mais de 40% e derruba as ações na bolsa
Banco rebaixou a recomendação da construtora e vê um caminho mais difícil para a recuperação dos lucros; o que está por trás da revisão?

A MRV (MRVE3) passou os últimos anos tentando convencer o mercado de que a pior fase havia ficado para trás. Hoje, no entanto, um dos bancos mais otimistas com a tese decidiu reduzir as expectativas.
O UBS BB rebaixou a recomendação das ações de compra para neutra e cortou o preço-alvo de R$ 12 para R$ 7 ao ao fim de 2026 — uma redução superior a 40%.
Apesar da meta mais conservadora, a cifra ainda implica valorização potencial de cerca de 18% em relação ao último fechamento.
Para os analistas, o problema é que a tese de recuperação que sustentava o otimismo com MRVE3 passou a enfrentar obstáculos maiores do que os projetados há alguns meses.
"Vemos um cenário mais negativo para o crescimento do lucro na operação brasileira, em meio a um ambiente mais desafiador para as margens e resultados financeiros", escreveram, em relatório.
A revisão de tese repercutiu rapidamente no mercado. As ações da MRV passaram o dia entre as maiores quedas do Ibovespa, em um pregão já marcado por aversão ao risco global.
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Por volta das 11h15, MRVE3 caía 5,56%, cotada a R$ 5,60. Desde o início do ano, a construtora já amarga perdas da ordem de 30%.
Vale lembrar que a pressão nesta manhã não se restringe à construtora. O Ibovespa recua mais de 1% nesta sessão, refletindo as tensões geopolíticas no Oriente Médio, além das incertezas em torno das novas tarifas comerciais defendidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O movimento também atinge em cheio empresas cíclicas e mais sensíveis aos juros, grupo que inclui companhias ligadas ao consumo e negócios mais alavancados, em um dia de abertura da curva de juros futuros (DIs).
O que mudou na tese da MRV (MRVE3)
Na avaliação do UBS BB, o principal desafio para a MRV é que o ambiente macroeconômico ficou menos favorável para uma recuperação acelerada dos resultados.
Os analistas revisaram suas projeções e agora trabalham com uma Selic de 13,5% ao fim de 2026, acima dos 12% estimados anteriormente. A expectativa para a inflação também subiu, chegando a 4,8%.
Para uma companhia que carrega cerca de R$ 7,6 bilhões entre dívida e passivos relacionados à cessão de recebíveis, esse cenário faz diferença.
Juros mais altos significam despesas financeiras maiores, maior pressão sobre margens e um processo de desalavancagem mais lento.
Em outras palavras, a recuperação continua possível, mas exige mais tempo e disciplina financeira.
Resia: a pedra no sapato da MRV
A operação norte-americana também segue adicionando uma camada extra de incerteza à tese da MRV (MRVE3).
A Resia, divisão da construtora nos Estados Unidos, continua enfrentando um mercado mais desafiador do que o esperado.
O ritmo de locação segue abaixo do ideal, os preços dos aluguéis permanecem pressionados e os juros americanos continuam elevados, reduzindo o apetite dos investidores por ativos imobiliários.
Diante desse cenário, o UBS BB passou a considerar a possibilidade de novas baixas contábeis (impairments) nos ativos da operação.
O banco incorporou em suas estimativas uma perda potencial de até US$ 140 milhões — cerca de R$ 700 milhões pelo câmbio atual — envolvendo projetos concluídos e terrenos da Resia.
Segundo os analistas, as premissas adotadas pela companhia para venda desses ativos podem ser otimistas demais para o atual ambiente de mercado.
"As expectativas da empresa para os cap rates podem ser otimistas demais", afirma o relatório.
Venda de recebíveis como ferramenta de sobrevivência
Enquanto busca melhorar seus indicadores financeiros, a MRV continua recorrendo a uma estratégia que se tornou peça importante na gestão do caixa: a venda de recebíveis.
O mecanismo ajuda a reforçar a liquidez e cumprir compromissos financeiros de curto prazo, mas tem um custo relevante para a rentabilidade da companhia.
Por isso, embora funcione como uma ferramenta importante de gestão financeira, a estratégia também reduz parte do potencial de geração de lucro.
O UBS BB revisou para cima suas estimativas e agora projeta que a companhia terá de vender aproximadamente R$ 2,1 bilhões em recebíveis ao longo de 2026.
O objetivo é acomodar amortizações trimestrais de dívida que devem variar entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões.
Ainda existe espaço para MRVE3?
Apesar do tom mais cauteloso, o UBS BB não considera que a tese da MRV esteja quebrada.
O banco reconhece que a operação brasileira continua apresentando geração positiva de caixa e que os fundamentos do negócio principal seguem evoluindo gradualmente.
O problema é que, diante do cenário atual, a relação entre risco e retorno parece menos atrativa do que a oferecida por outras empresas do setor.
Na comparação dos analistas, companhias como Tenda (TEND3) e Plano&Plano (PLPL3) apresentam hoje uma combinação mais favorável entre previsibilidade de resultados e potencial de valorização.
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