O “elemento surpresa” que derruba as ações do Nubank em Wall Street hoje — analistas revelam se é hora de abandonar a tese
Com mudança inesperada no alto escalão, analistas veem mais incerteza para o Nu no curto prazo, mas seguem divididos sobre o impacto para o futuro da fintech

Um anúncio inesperado na noite passada colocou as ações do Nubank sob forte pressão no pregão desta terça-feira (2): mais uma mudança no alto escalão, agora, com a troca do diretor financeiro global.
Por volta das 10h55, os papéis NU caíam 7,81%, cotados a US$ 11,98 em Wall Street. Desde o início de 2026, a desvalorização já beira os 30% em Nova York.
Rob Livingston assumirá o cargo de CFO a partir de 13 de julho, substituindo Guilherme Lago, que ocupava a posição há cinco anos e passará a atuar como conselheiro especial da administração.
A mudança também inaugura uma nova estrutura financeira dentro da companhia. Além do CFO global, o Nubank pretende criar uma diretoria financeira exclusiva para o Brasil, embora ainda não tenha anunciado quem assumirá o comando da operação local.
A reorganização ocorre em um momento delicado para o banco digital, justamente quando investidores passaram a olhar a tese de investimento do Nubank com mais cautela.
Após anos de forte valorização e crescimento acelerado, a fintech enfrenta questionamentos sobre a qualidade dos ativos, o ritmo de expansão e a capacidade de sustentar seus níveis de rentabilidade nos próximos anos.
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O novo CFO global do Nubank
Embora a mudança tenha pegado o mercado de surpresa, os analistas destacam que não há questionamentos sobre a qualificação do sucessor.
Para o BTG Pactual, Livingston chega com credenciais robustas para assumir a função. O executivo vem da Visa, onde atuava mais recentemente como CFO para a América do Norte.
Antes disso, acumulou passagens por áreas estratégicas de finanças corporativas, relações com investidores e operações internacionais da empresa, incluindo Europa, China e Canadá.
Sua trajetória inclui ainda 18 anos no Capital One, com experiência em áreas como crédito, marketing e finanças, uma combinação considerada relevante para uma instituição financeira em expansão.
Ainda assim, na avaliação dos analistas, o currículo do novo executivo não elimina o desconforto provocado pelo momento da transição. “A mudança adiciona outra camada de incerteza”, escreveu o BTG, em relatório.
Já o JP Morgan interpretou a mudança como um fator negativo em um primeiro momento.
Segundo os analistas, Guilherme Lago era um executivo bem avaliado pelos investidores e sua saída acontece justamente quando ainda não há visibilidade sobre quem assumirá a nova posição de CFO do Brasil.
Para o banco norte-americano, essa definição é especialmente importante porque, apesar dos esforços de expansão internacional, o mercado brasileiro continua sendo o principal pilar da operação do Nubank.
É no Brasil que a companhia concentra a maior parte de seus clientes, receitas, lucros e geração de capital.
Ao mesmo tempo, a expansão internacional ainda apresenta desafios. Nos Estados Unidos, o negócio segue em estágio inicial. Já no México, o Nubank disputa espaço em um ambiente altamente competitivo.
Por isso, na avaliação do JP Morgan, fortalecer a gestão local pode ser mais relevante neste momento do que acelerar a internacionalização da estrutura financeira.
“Neste estágio, um foco local parece mais relevante do que a expansão nos EUA, em nossa visão. O estabelecimento de um CFO dedicado para o Brasil, juntamente com um CFO global, pode indicar a importância contínua da expertise no mercado local — embora, neste momento, ainda não tenhamos um nome”, escreveu o banco.
Os analistas também observam que a saída de Lago se soma a outras mudanças ocorridas recentemente na liderança da companhia.
“Sua saída adiciona mais um nome à rotatividade de executivos seniores, o que gerou certo ruído no ano passado”, acrescentou o JP Morgan.
Mudança adiciona incerteza a um mercado já cauteloso com Nubank
A troca na diretoria financeira ocorre em um período em que parte dos investidores passou a olhar a história do Nubank com mais cautela do que nos anos anteriores.
Embora o mercado espere resultados sólidos no próximo balanço, persistem dúvidas sobre a evolução da qualidade da carteira de crédito e sobre a capacidade da companhia de sustentar a rentabilidade em meio à expansão dos negócios.
Segundo o BTG, existe uma percepção relativamente disseminada entre investidores de que os próximos números devem ser razoáveis, mas isso pode não ser suficiente para dissipar as preocupações que vêm se acumulando nos últimos meses.
Na visão do banco, o Nubank provavelmente precisará entregar uma melhora consecutiva na qualidade dos ativos e de recuperação das margens financeiras ajustadas ao risco para reconstruir a confiança de parte do mercado.
Além disso, caso a qualidade do crédito decepcione ou o crescimento apresente sinais de desaceleração, o risco é que parte do mercado reduza sua exposição ao papel.
Nas palavras do BTG, se uma eventual piora no balanço se concretizar, “existe o risco de que muitos investidores simplesmente joguem a toalha”.
Por isso, o BTG avalia que a relação risco-retorno para a ação não parece particularmente favorável no curto prazo. Ainda assim, o banco mantém recomendação de compra para os papéis.
“A transição de CFO adiciona ruído no curto prazo, mas, negociando abaixo de 12 vezes os lucros estimados para 2027, reiteramos nossa recomendação de compra, pois continuamos acreditando que o Nubank permanece como uma das vencedoras de longo prazo no espaço financeiro da América Latina”, escreveu o BTG.
A visão positiva, porém, não impediu uma mudança recente na carteira recomendada do BTG. Para junho, o Nubank perdeu espaço para o Itaú (ITUB4) na seleção de ações preferidas do banco.
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