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Resultados do 1T26 vieram fortes, mas um indicador voltou a preocupar investidores e ofuscou o trimestre da fintech; veja o que dizem os analistas

Dobrar o lucro não foi suficiente para convencer o mercado. O PicPay apresentou um trimestre marcado por crescimento acelerado de receitas, expansão da carteira de crédito e melhora dos indicadores operacionais. Ainda assim, Wall Street encontrou motivos para azedar o humor nesta quarta-feira (3).
O motivo está justamente na principal engrenagem do crescimento do primeiro trimestre (1T26).
O avanço da inadimplência reacendeu preocupações sobre a qualidade dos ativos e acabou ofuscando outros indicadores operacionais do 1T26.
Por volta das 12h15, as ações PICS caíam 13,61% em Nova York, cotadas a US$ 9,65, depois de chegarem a tombar mais de 17% nas mínimas do dia.
Do lado operacional, os números vieram robustos. O lucro líquido ajustado do PicPay alcançou R$ 169 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 92% na comparação anual.
Já a receita líquida avançou 70% na base anual, para R$ 3,5 bilhões, impulsionada principalmente pela expansão da carteira de crédito, que ultrapassou R$ 28 bilhões — mais que o dobro do registrado um ano antes.
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O problema é que o crescimento veio acompanhado de um aumento da inadimplência. O índice de créditos com atraso superior a 90 dias (NPL 90+) subiu para 8,9%, avanço de 1,69 ponto percentual em relação ao trimestre anterior.
Foi esse número que acabou dominando a leitura do mercado.
A reação dos bancos de investimento mostra bem o dilema que cerca a tese do PicPay hoje.
De um lado, há consenso de que a companhia segue entregando crescimento acima da média do setor. Do outro, permanece a dúvida sobre até onde a expansão do crédito pode avançar sem gerar uma deterioração mais significativa dos indicadores de risco.
Para os analistas do BTG Pactual, o trimestre mostrou uma companhia operacionalmente forte, mas que ainda precisa convencer investidores de que a deterioração dos indicadores de crédito está próxima de uma estabilização.
“Dadas as preocupações significativas dos investidores com a qualidade dos ativos, acreditamos que o resultado pode ser interpretado como misto. Pode ser difícil ver uma reprecificação significativa da ação no curto prazo até que o mercado tenha maior visibilidade sobre a estabilização dos NPLs”, escreveram os analistas.
O BTG reconhece que a operação continua executando bem sua estratégia, mas destaca que a formação de inadimplência veio ligeiramente acima das projeções da casa.
“O índice de NPLs do PicPay ainda possui um efeito mecânico que deve mantê-lo sob pressão de alta, particularmente enquanto a carteira de crédito continua crescendo rapidamente e mudando em termos de mix e prazo”, afirma o banco.
Segundo a instituição, a própria administração do PicPay indicou que a inadimplência ainda deve continuar avançando nos próximos meses antes de convergir para patamares mais estáveis.
Ao mesmo tempo, os analistas destacam que o valuation segue pouco exigente. Hoje, as ações PICS negociam a cerca de 7,8 vezes o lucro projetado para 2026, múltiplo que sustenta a recomendação de compra mesmo diante da volatilidade recente, segundo o BTG.
Já o Citi adotou uma leitura mais construtiva sobre o balanço do PicPay no 1T26.
Para o banco norte-americano, a piora observada na inadimplência reflete principalmente fatores técnicos relacionados à maturação da carteira, e não necessariamente uma deterioração estrutural na qualidade das novas concessões.
Além disso, o Citi destacou a expansão da margem financeira (NIM), que atingiu 16%, e a evolução dos indicadores de eficiência operacional.
“Os resultados do 1T26 foram, em geral, positivos em nossa visão, com expansão da carteira de crédito acima das expectativas e qualidade dos ativos controlada, destacando que o comportamento da formação é adequado, com alguma melhora na cobertura”, escreveram os analistas.
Diante da reação do mercado, a diretoria do PicPay dedicou boa parte da teleconferência de resultados para defender a estratégia da companhia.
Em conversa com analistas, os executivos argumentaram que a estratégia do banco não é simplesmente reduzir os índices de atraso, mas sim maximizar o retorno ajustado ao risco da carteira.
Segundo a empresa, a composição do portfólio está ficando mais defensiva. Atualmente, 54% das operações já estão concentradas em linhas com garantia, como crédito consignado privado e antecipação do FGTS.
Na avaliação da gestão, isso ajuda a tornar o crescimento mais sustentável ao longo do tempo.
“A estratégia não é otimizar indicadores isolados, mas maximizar o retorno precificando adequadamente o risco”, afirmou André Cazotto, diretor de relações com investidores da companhia.
Outro ponto destacado foi o ganho de produtividade proporcionado pela inteligência artificial.
Segundo o PicPay, o uso de IA permitiu absorver o crescimento da base de clientes sem expandir significativamente o quadro de funcionários. A fintech estima que deixou de contratar cerca de 3 mil profissionais em áreas de atendimento graças à automação de processos.
O resultado foi uma melhora expressiva da eficiência operacional: o índice ajustado caiu para 47%, ante 62% no mesmo período do ano anterior.
Se o primeiro trimestre reforçou a capacidade do PicPay de crescer, os próximos resultados devem ser decisivos para responder aos temores dos investidores: a inadimplência está próxima de atingir um pico ou ainda há espaço para novas deteriorações?
Por enquanto, essa parece ser a variável mais importante para a ação.
O guidance (projeção) para o segundo trimestre trouxe um sinal positivo, segundo os analistas.
A companhia projeta lucro líquido ajustado de R$ 245 milhões, valor cerca de 9% acima do consenso de mercado.
Mas, após a reação desta terça-feira, ficou claro que, para boa parte dos investidores, o próximo passo da tese não depende apenas de crescer mais.
Depende de provar que é possível continuar crescendo sem aumentar o risco na mesma velocidade.
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