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Entenda como tensões geopolíticas e o ciclo político brasileiro podem redesenhar as oportunidades no setor de petróleo, e por que a PRIO3 é a queridinha agora
Uma das commodities mais relevantes é também uma das que mais sofrem com movimentos geopolíticos. E quem acompanha o mercado do petróleo viveu momentos intensos desde o começo do ano, com a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, as manifestações no Irã e as ameaças de intervenção do presidente norte-americano, Donald Trump, no país do Oriente Médio.
No meio de todos esses movimentos, como fica a Petrobras (PETR4)? A companhia pode deixar de ser lucrativa caso o preço do brent caia?
Segundo especialistas, além da geopolítica, a empresa também é afetada por suas próprias decisões de investimentos e pela eleição presidencial deste ano. Analistas também indicam em qual ação do setor investir no lugar da petroleira estatal.
Com a escalada das tensões entre EUA e Irã, o temor para o mercado de petróleo é uma interrupção na oferta. Afinal, o Irã é o quinto maior produtor de petróleo do mundo, com produção de 4,3 milhões de barris diários em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis.
As cotações futuras do óleo tipo brent, usadas para medir os preços de petróleo globalmente, iniciaram o ano em US$ 60,75. Hoje, o valor é de US$ 64,57, alta de aproximadamente 6,29%. No entanto, depois de um pico, em que o preço do brent chegou a US$ 66 na quarta-feira (14), o valor fechou em queda de 4,15% ontem.
A variação não é tão intensa porque até hoje não houve uma interrupção ou mesmo aumento na produção do combustível. Mesmo assim, esses movimentos deixam investidores e analistas em alerta.
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"O Irã, além de ser um grande produtor, é um grande exportador para a China, o que também introduz um componente geopolítico no embate entre EUA e China", diz Ruy Hungria, analista da Empiricus Research e colunista do Seu Dinheiro.
O mesmo receio tomou conta do mercado depois que a Rússia atacou a Ucrânia, em 2022. O valor do petróleo chegou a superar US$ 110. O risco era de que a guerra causasse danos à infraestrutura de exploração no país da Europa Oriental e, consequentemente, no fornecimento da matéria-prima para o mundo.
O perigo acabou não se concretizando, mas o barril permaneceu no patamar dos US$ 70 a US$ 80 por um bom tempo. Isso elevou as receitas da Petrobras, que pagou bons dividendos a seus acionistas no período, inclusive o governo.
Do outro lado do planeta, a Venezuela também está no centro das discussões envolvendo a commodity, com a intervenção dos EUA. Inicialmente, os preços do petróleo chegaram a subir, também por preocupações com interrupções na produção.
No médio e longo prazo, porém, o cenário pode ser outro. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, e Donald Trump afirmou que as petroleiras norte-americanas voltarão ao país.
A Venezuela é responsável por menos de 1% de todo o petróleo do mundo, mas já foi um dos mais relevantes. Caso a produção volte a subir, o preço da matéria-prima tende a cair.
No entanto, essa retomada ainda é incerta - pouco se sabe sobre como será o retorno das petroleiras norte-americanas ao país. Por enquanto, nenhuma companhia divulgou planos de voltar ao país sul-americano.
Além disso, a estrutura do país está sucateada. "Vale lembrar que se fala muito dos investimentos físicos materiais, mas houve uma perda muito grande de capital humano. O país atraía profissionais como geólogos e geofísicos, profissionais normalmente bem pagos, que foram para os EUA, Canadá ou Europa", afirmou Vitor Sousa, analista da Genial Investimentos, em entrevista ao podcast Touros e Ursos do Seu Dinheiro.
Por enquanto, o maior risco é o de aumento na oferta no médio e longo prazo. E se o petróleo realmente cair para US$ 50 por barril? A Petrobras deixa de ser lucrativa?
"Claro que o petróleo em queda não ajuda, mas elas conseguem gerar caixa mesmo em um ambiente de preços baixos que fazem muitas outras petroleiras queimarem caixa", afirma Hungria, da Empiricus.
Já o que preocupa investidores e analistas não está na linha de receitas, mas sim de despesas, com um plano de investimentos mais robusto.
"Com maior volume de investimentos em projetos que não são tão interessantes, a gente vê uma deterioração dos fundamentos da empresa, com menor geração de caixa, maior endividamento e menor dividendo", afirma Sousa.
O problema é que a alavancagem da companhia — a relação entre dívida e receitas — deve continuar aumentando, “devido ao desalinhamento entre a política de dividendos e a geração efetiva de fluxo de caixa para o acionista”, diz o BTG.
Segundo análise do UBS, o nível de investimentos afasta alguns investidores da ação da estatal. No entanto, a petroleira ainda pode reservar surpresas positivas. O UBS afirma que o retorno com dividendos na faixa dos 10% continua atraente, e está entre os mais altos entre as empresas analisadas — apenas a Shell tem um dividend yield semelhante, de 10%, enquanto outros entregam de 7% a 9%.
Esta semana, o banco suíço cortou o preço-alvo da Petrobras, de R$ 44 para R$ 40 para PETR4, embora tenha mantido a recomendação de compra.
"Nossa recomendação de compra é sustentada pelos sólidos níveis de produção e pela expectativa de que o preço do brent não deve cair muito mais. Isso se traduz em uma taxa de dividend yield (retorno considerando apenas os dividendos) de 10% a 11% em 2026", escreveu o UBS.
Outro fator que deve mexer com a Petrobras neste ano são as eleições presidenciais, uma vez que a companhia é estatal.
O resultado imediato não afetaria tanto os lucros neste ano ou no seguinte. Porém, caso vença um candidato mais alinhado ao mercado, a estatal pode passar por uma possível mudança estratégica para o médio e longo prazo, focada em maior eficiência e investimentos mais rentáveis, e possivelmente até chances de privatização, acredita Hungria.
"Pode haver surpresas negativas para a Petrobras, como os preços de brent, o que acreditamos que será a principal discussão do primeiro semestre deste ano. Para o segundo semestre, o foco mudará para as eleições presidenciais", diz o UBS.
“A ação segue como um veículo relevante para exposição ao ciclo político brasileiro, embora uma mudança significativa de estratégia seja considerada improvável”, diz relatório do BTG.
O BTG tem recomendação neutra para os papéis da estatal. “A visibilidade macro-política limitada, a flexibilidade financeira restrita e um valuation considerado justo sustentam a recomendação Neutra”, afirmam os analistas.
Uma ação é destaque entre as recomendações dos analistas. A Prio é recomendação de compra da Genial e do banco suíço UBS. A Empiricus mantém a Petrobras na carteira, com foco em dividendos, e também recomenda a Prio, pelos custos de produção competitivos.
Ela também é o ativo preferido do BTG Pactual. “PRIO é Top Pick em exploração, combinando crescimento de produção e elevada capacidade de distribuição aos acionistas. Para 2026, o foco da companhia está na execução”, afirma relatório.
O valor pago em dividendos salta aos olhos. “Considerando produção de aproximadamente 189 mil boed em 2026 e Brent a US$62/barril, o yield de fluxo de caixa livre para o acionista estimado é de cerca de 23%, com Dívida Líquida/EBITDA em torno de 1,6x ao final do ano”, diz o relatório do BTG.
“A ausência de fusões ou aquisições (M&A, na sigla em inglês) relevantes em 2026 amplia o espaço para dividendos e recompras, reforçado por um novo programa de recompra anunciado.”
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