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Alta da commodity reacende questionamentos sobre defasagem nos combustíveis e coloca em dúvida a estratégia da estatal para segurar os preços no Brasil; veja o que dizem os analistas
Os preços do petróleo acumulam alta superior a 35% desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, reacendendo uma dúvida central no mercado brasileiro: a Petrobras (PETR4) vai ou não repassar essa disparada para o preço da gasolina?
Nesta segunda-feira (9), os contratos futuros do Brent encostaram em US$ 120 o barril, aumentando a pressão sobre a política de preços da estatal e levantando questionamentos sobre por quanto tempo a companhia conseguirá segurar os combustíveis nas refinarias sem reajustes.
Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o cenário atual exigiria um aumento de R$ 1,22 por litro da gasolina nas refinarias da Petrobras.
Entretanto, ainda não há consenso entre analistas sobre qual será a resposta da estatal à disparada de preços do petróleo.
Lucas Queiroz, estrategista de renda fixa do Itaú BBA, acredita que Petrobras deve segurar esse repasse por um tempo.
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“Se [o preço do petróleo] subir mais ou ficar nesse patamar por muito tempo, vamos ter um impacto na gasolina que requer mais cautela”, afirma.
Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, chama atenção para a incerteza ligada à duração do conflito.
“Se [o preço do petróleo] ficar muito tempo acima, como está agora, a teoria diz que ela deveria reajustar. Mas não dá para saber quando — e nem se isso realmente vai acontecer”, afirma Hungria.
Mais cedo, o presidente norte-americano, Donald Trump, disse em entrevista que a guerra contra o Irã pode acabar em breve.
Segundo ele, “os EUA estão bem adiantados na estimativa inicial de duração da guerra, de quatro a cinco semanas para o término do conflito”.
Na avaliação de Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e ex-presidente da Petrobras, o reajuste já deveria ter ocorrido quando o barril atingiu a faixa dos US$ 80.
“Agora, passando dos US$ 100, fica ainda mais difícil entender por que a Petrobras não reajusta. Se chegar a US$ 150, evidentemente nenhum país vai simplesmente acompanhar esse preço, porque haveria uma explosão de inflação. Mas precisa existir algum ajuste. Nos Estados Unidos e na Europa, nas últimas semanas, os preços já foram reajustados nas bombas”, afirma.
Mesmo assim, não há um prazo definido para a estatal tomar uma decisão. “Eles esperam, mas não existe um prazo certo. Eu chutaria que ajustes para baixo demoram menos do que ajustes para cima”, diz Hungria, da Empiricus.
Segundo a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, a estratégia da companhia não será alterada pela recente escalada das cotações.
“O mundo está instável por causa da guerra, mas nossa política interna permanece sólida. Isso valeu quando o preço caiu e vai valer quando o preço subir. Nosso caixa continua sendo objeto de atenção porque queremos garantir a resiliência da empresa e a redução de custos”, afirmou.
Mas, nesta segunda-feira, o cenário ganhou uma nova camada de complexidade. Nas máximas da sessão, os barris do WTI e do Brent chegaram aos US$ 119, maior nível desde junho de 2022, depois que países árabes do Golfo reduziram a produção devido ao fechamento do Estreito de Ormuz por ameaças iranianas.
Negociado na New York Mercantile Exchange (Nymex), o petróleo WTI para abril fechou em alta de 4,3% (US$ 3,87), a US$ 94,77 barril. Já o Brent para maio subiu 6,8% (US$ 6,27), a US$ 98,96 o barril, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE).
Segundo Edmar de Almeida, professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio, a política de preços da Petrobras está explicitamente baseada na concorrência com o mercado internacional.
De acordo com ele, se os preços praticados pela estatal ficarem muito abaixo das cotações externas, podem surgir distorções competitivas.
Nesse cenário, empresas privadas deixam de importar combustíveis, o que pode obrigar a Petrobras a assumir esse papel.
“Se o preço da Petrobras fica muito mais barato em relação ao mercado internacional, isso pode criar problemas competitivos. Empresas privadas param de importar produtos, e isso faz com que a Petrobras seja forçada a importar no lugar delas. A Petrobras tem que comprar mais caro lá fora e vender mais barato aqui”, explica.
“O segundo problema do ponto de vista competitivo é que algumas empresas vão comprar mais nas refinarias da Petrobras e levar para a área de influência de refinarias privadas, por exemplo na Bahia ou em Manaus, pressionando também essas operações”, acrescenta Almeida.
Pires, do CBIE, faz um alerta semelhante. Segundo ele, se não houver reajuste, a Petrobras pode acabar importando combustíveis mais caros para vendê-los a preços menores no mercado doméstico.
Na sexta-feira (6), o diretor financeiro da Petrobras, Fernando Melgarejo, reforçou que o foco da companhia é preservar a robustez operacional diante das oscilações da commodity.
“O que podemos gerenciar é nossa resiliência diante dos mais diferentes cenários”, afirmou. Para ele, o fator tempo será determinante. “Precisamos ver se o cenário vai se manter ou não.”
Na avaliação de analistas, os preços do petróleo devem continuar subindo no curto prazo.
“Sem clareza sobre a duração do conflito no Oriente Médio — nem sobre o grau de interrupção no Estreito de Ormuz — preferimos cautela em relação a apostar em uma reversão da recente queda dos mercados”, afirmaram economistas do UBS BB.
Na visão do banco, apesar do prêmio de risco significativo já incorporado aos preços de energia, a volatilidade ainda permanece relativamente baixa — o que indica espaço para que as condições piorem antes de melhorar.
Já a equipe de análise do BTG Pactual avalia que os preços do petróleo podem continuar em forte alta caso três fatores se confirmem:
Para Caio Borges, analista da Eleven Financial, o movimento de alta deve continuar, mas em ritmo mais moderado no curto prazo.
“Acredito que a alta deve se manter, porém em ritmo mais lento, pelo menos por um curto período. Em um primeiro momento, além do fechamento do Estreito de Ormuz, que diminui a oferta global de petróleo e cria pressão altista nos preços, vemos o Irã disposto a danificar a capacidade produtiva de países vizinhos — como exemplifica o ataque à refinaria do Bahrein”, afirma.
Segundo ele, a recuperação dessas estruturas leva tempo, o que mantém a pressão sobre os preços.
“A recuperação desses danos demora e exerce pressão altista no preço do produto, que pode perdurar até que a redução da oferta seja compensada pela retomada da produção ou pela ampliação da produção em outras regiões”, diz.
Edmar de Almeida, da Puc-Rio, acrescenta que o comportamento dos preços dependerá principalmente da duração da guerra e dos danos à infraestrutura energética da região.
“Há tentativas — e até sucesso em alguns casos — de atingir estruturas petrolíferas [no Irã e na Arábia Saudita]. Se isso continuar, pode afetar de forma mais permanente a capacidade de produção do Oriente Médio”, afirma.
“Aí sim poderemos ter um problema de oferta de petróleo e um desequilíbrio mais duradouro no mercado, mantendo os preços em patamares elevados por mais tempo”, acrescenta.
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