Vale (VALE3): entenda o que está por trás da ofensiva da Previ contra o presidente do conselho da mineradora
Ata de reunião revela críticas à iniciativa do fundo de pensão, acusações de interferência e divergências entre conselheiros

A disputa pelo comando do Conselho de Administração da Vale (VALE3) ganhou novos contornos após a divulgação da ata da reunião extraordinária realizada em 19 de junho e enviada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O documento detalha os bastidores do embate entre a Previ e a maioria dos integrantes do conselho, revelando divergências sobre a permanência de Daniel Stieler na presidência do colegiado e sobre os rumos da governança da mineradora.
Mas, para entender o imbróglio, é preciso dar um passo atrás.
Por que o conselho da Vale é tão importante?
A Vale é uma companhia sem controlador definido. Isso significa que nenhum acionista detém sozinho o poder de decisão, tornando a construção de consensos entre diferentes investidores essencial para aprovar medidas estratégicas.
Nesse contexto, o Conselho de Administração tem papel central. Cabe ao órgão supervisionar a gestão da companhia, acompanhar a execução da estratégia e participar das decisões que definem o futuro da mineradora.
A presidência do conselho, por sua vez, é considerada uma posição-chave por influenciar a agenda do colegiado, a interlocução com acionistas e o equilíbrio de forças dentro da empresa.
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O movimento da Previ
A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BBAS3) e dona de cerca de 7% das ações da Vale, solicitou a convocação de uma assembleia para deliberar sobre a destituição de Daniel Stieler da presidência do conselho.
A fundação defende que a mudança faz parte de um processo de renovação da governança e pode fortalecer a independência da companhia.
Além de propor a saída de Stieler, a Previ indicou José Mauricio Pereira Coelho para uma vaga no conselho e declarou apoio a Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, para assumir a presidência do colegiado caso a destituição seja aprovada.
Conselho aceita assembleia, mas rejeita mudança
A ata mostra que o Conselho de Administração concordou em convocar a assembleia, conforme previsto pelas regras aplicáveis quando um acionista atende aos requisitos legais para solicitar a reunião.
A decisão, porém, não representa apoio à proposta da Previ.
A maioria dos conselheiros recomenda que os acionistas rejeitem a destituição de Stieler. O conselho também orienta a abstenção em relação à indicação de José Mauricio Pereira Coelho e apoia o nome de Ieda Gomes Yell para eventual preenchimento de vaga no colegiado.
- Leia também — Vale (VALE3): Previ promete levar disputa pelo comando do conselho aos acionistas após decisão que causou “desconforto”
No caso da presidência do conselho, se a saída de Stieler for aprovada, a Vale decidiu não recomendar nem Ollie Oliveira nem Marcelo Gasparino, atual vice-presidente do órgão.
Ata expõe divergências internas
O documento revela uma discussão intensa entre os conselheiros.
Segundo a ata, Stieler argumentou que sua posição não estava relacionada à permanência no cargo, mas à necessidade de que decisões sejam tomadas com base em fatos, governança e interesse social da companhia.
Na avaliação dele, a Previ apresentou justificativas genéricas, como a busca por melhorias de governança e alinhamento estratégico, sem indicar fatos concretos que justificassem sua destituição.
Stieler afirmou ainda que, sem elementos objetivos, a iniciativa poderia ser interpretada como uma tentativa de impor uma mudança por meio do poder de voto. Ele mencionou riscos de "abuso de direito de voto" e classificou as justificativas apresentadas como "falsas ou frágeis".
Marcelo Gasparino adotou posição semelhante. De acordo com a ata, o vice-presidente do conselho avaliou que uma destituição sem fatos graves poderia gerar instabilidade institucional e afetar o valor de mercado da companhia.
Gasparino também afirmou enxergar risco de interferência política no movimento da Previ e classificou a iniciativa como um "movimento hostil" e um "takeover". Para ele, a disputa vai além de uma discussão ordinária de governança e envolve uma tentativa de alterar o equilíbrio de poder dentro da Vale.
O conselheiro também mencionou a hipótese de gravações clandestinas de reuniões do conselho, situação que classificou como "abominável" e que, segundo ele, deveria ser investigada.
Participação de Stieler gera questionamentos
A reação do conselho, contudo, não foi unânime.
Márcio Antônio Chiumento votou favoravelmente à destituição e levantou dúvidas sobre a participação de Stieler nas discussões e na votação relacionadas à sua própria permanência no cargo.
Segundo Chiumento, o presidente do conselho teria interesse direto no resultado da deliberação, o que poderia caracterizar conflito de interesses e comprometer a validade da decisão.
Ele também argumentou que não caberia ao conselho avaliar a consistência das justificativas apresentadas pela Previ. Em sua visão, essa análise deve ser feita pelos acionistas durante a assembleia.
O que está em jogo na assembleia
O debate reflete duas interpretações distintas sobre o papel dos acionistas e do conselho.
De um lado, a Previ e Chiumento defendem que os investidores têm o direito de levar o tema à assembleia e decidir se desejam promover mudanças na liderança do colegiado.
De outro, a maioria do conselho entende que deve alertar os acionistas para a ausência de fundamentos suficientes para a destituição de Stieler e para os riscos de instabilidade decorrentes da mudança.
A assembleia marcada para 22 de julho será, portanto, mais do que uma votação sobre a permanência de Daniel Stieler.
O encontro colocará à prova a correlação de forças entre a Previ e a atual maioria do Conselho de Administração, além de servir como um termômetro sobre a forma como os investidores enxergam a governança da Vale em uma estrutura sem controlador definido.
*Com informações do Money Times
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