Banco da Porto (PSSA3) tropeça no crédito, derruba as ações e reacende alerta; BTG vê oportunidade na queda
Operações de seguros e saúde seguem fortes, mas a deterioração do crédito no banco domina a leitura dos investidores; confira o que dizem os analistas

Na Porto (PSSA3), as boas notícias do segundo trimestre de 2026 (2T26) vieram dos seguros. As más, do banco. E, para o mercado, o segundo fator pesou mais.
As ações da companhia abriram esta sexta-feira (07) em queda na B3, depois que os investidores voltaram a concentrar a atenção na deterioração da carteira de crédito do Porto Bank, ofuscando mais um trimestre sólido das operações de seguros e saúde.
Por volta das 11h40, os papéis PSSA3 recuavam 4,18%, cotados a R$ 50,45. Ainda assim, a ação segue acumulando valorização de aproximadamente 9% desde o início do ano.
No consolidado, a Porto encerrou o trimestre com lucro líquido recorrente de R$ 889 milhões, alta de 1% em relação ao mesmo período de 2025, embora 22,5% inferior ao registrado no trimestre anterior.
O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) do conglomerado ficou em 22,1%, uma queda de 2,5 pontos percentuais na comparação anual e de 6,9 p.p. em relação ao início do ano.
Para a administração da Porto, os números reforçam que o grupo continua encontrando sustentação em seus principais negócios.
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“O fechamento do 2T26 reflete a maneira como a nossa estratégia de diversificação, baseada nas necessidades reais de cuidado das pessoas, é capaz de nos fazer crescer constantemente, inovar e absorver as mudanças de cenário”, disse Paulo Kakinoff, CEO do Grupo Porto, em nota à imprensa.
O balanço da Porto no 2T26
A vertical de seguros apresentou mais um trimestre robusto, enquanto saúde e serviços seguiram contribuindo positivamente para o resultado. O elo mais fraco, mais uma vez, foi o banco.
Na divisão de seguros, as receitas totais alcançaram R$ 5,9 bilhões, crescimento de 8,5% em relação ao segundo trimestre de 2025, impulsionadas pela aceleração dos prêmios emitidos de automóveis, que avançaram 7,9% na mesma base de comparação.
Ao mesmo tempo, o índice de sinistralidade caiu 1,4 ponto percentual, para 49,1%, patamar considerado "muito saudável" pelos analistas e um dos principais destaques positivos do balanço.
A vertical de saúde também manteve uma trajetória consistente, com crescimento anual de 36% no lucro e ROE de 24%, embora em ritmo um pouco mais moderado do que nos trimestres anteriores.
Já a unidade de serviços, apesar de ainda representar uma fatia menor dos resultados, continuou evoluindo, enquanto o resultado financeiro mostrou uma recuperação relevante na comparação com o trimestre anterior.
Todo esse desempenho, porém, acabou sendo eclipsado pela piora dos indicadores do Porto Bank.
Por trás da fraqueza no banco da Porto (PSSA3)
Para o BTG Pactual, a Porto ainda está em meio a um processo de "arrumar a casa" na operação financeira. "O Porto Bank foi claramente o ponto fraco do trimestre."
A fraqueza da operação reflete o forte aumento da inadimplência e das provisões para perdas na carteira de cartões de crédito.
"Dadas as crescentes preocupações dos investidores com as tendências de qualidade dos ativos no Brasil, não descartamos alguma pressão de curto prazo sobre as ações, mesmo que a deterioração no Porto Bank já fosse parcialmente antecipada", escreveram os analistas.
Nem tudo, porém, foi negativo dentro da operação financeira. A receita da divisão alcançou R$ 1,87 bilhão, crescimento de 13% em relação ao mesmo período do ano passado.
As receitas de tarifas avançaram 19%, enquanto a receita ajustada de consórcios subiu 29%. Já a margem financeira consolidada (NII) cresceu 18%, para R$ 750 milhões.
Esses avanços, contudo, foram insuficientes para compensar o aumento das perdas com crédito. As provisões contra calotes chegaram a R$ 868 milhões, um salto de 67% na comparação anual e de 19% frente ao trimestre anterior.
O índice de inadimplência acima de 90 dias na carteira de 360 dias avançou para 9,4%, ante 8,2% no trimestre anterior, enquanto a formação de inadimplência aumentou para 3,2%.
Segundo a administração da Porto, essa deterioração reflete um ambiente de crédito mais difícil, aliado a uma postura mais conservadora na gestão de risco.
Ao longo do trimestre, o banco apertou os critérios de concessão de crédito, reforçou as estratégias de cobrança e passou a direcionar o crescimento para produtos com garantias mais robustas e perdas consideradas mais previsíveis.
Ainda assim, o lucro líquido do Porto Bank caiu para R$ 138 milhões, enquanto o ROE recuou para 16,3%.
Um dos poucos pontos positivos foi o ganho de eficiência operacional: o índice de eficiência melhorou 2,3 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior e 4 pontos frente ao mesmo período de 2025, chegando a 25,4%.
O Santander também classificou o resultado como abaixo das expectativas, com lucro antes dos impostos (EBT) 12% inferior ao projetado.
Na visão dos analistas, a deterioração do crédito continua concentrada na carteira de cartões e decorre principalmente de dois grupos de clientes: aqueles que passaram a refinanciar seus saldos com maior frequência e um segundo grupo, historicamente mais resiliente, mas que apresentou deterioração acima do esperado.
Como resposta, a Porto decidiu apertar ainda mais a política de crédito. Além de tornar a concessão de novos cartões mais seletiva, a companhia informou que passará a restringir gradualmente os limites concedidos e intensificar o gerenciamento das carteiras consideradas mais vulneráveis.
"Acreditamos que a qualidade dos resultados piorou, com a contínua deterioração do crédito no Porto Bank pressionando a rentabilidade futura e desafiando o prêmio de valuation da ação em relação aos pares do setor de seguros", afirmaram os analistas do Santander, que manteve recomendação neutra para PSSA3.
Na avaliação do Citi, a Porto entregou "resultados encorajadores" nas operações de Seguros, enquanto o Banco foi a principal decepção, já que uma forte deterioração da qualidade do crédito fez com que as provisões consumissem praticamente todo o spread de crédito.
"As tendências de qualidade dos ativos da Porto reforçam nossa postura cautelosa em relação ao crédito ao consumidor, uma vez que tanto os indicadores específicos da companhia quanto os dados mais amplos do sistema continuam apontando para um ambiente de crédito mais desafiador", afirmam os analistas.
Revisões no guidance
Junto com os resultados, a Porto revisou parte das projeções para 2026.
A mudança mais relevante veio justamente no Porto Bank. A companhia elevou a estimativa de perdas com crédito para uma faixa entre R$ 3,1 bilhões e R$ 3,5 bilhões, acima da projeção anterior, de R$ 2,7 bilhões a R$ 3,1 bilhões.
Segundo o BTG, o novo guidance implica provisões próximas de R$ 850 milhões por trimestre — cerca de 2% abaixo do nível registrado neste segundo trimestre.
Veja como ficou o guidance da Porto para 2026:
| Indicador | Range | Revisão |
|---|---|---|
| Porto Seguro | ||
| Var. Prêmio Ganho Vertical (vs. 2025) | +3% a +7% | Mantido |
| Sinistralidade Vertical | 50,5% a 54,5% | 50% a 54% |
| Índice de G&A Vertical | 10,0% a 10,6% | Mantido |
| Porto Bank | ||
| Receita Total Vertical | R$ 7,5 bilhões a R$ 7,9 bilhões | 7,7 a 8,1 |
| Perdas de Crédito | - R$ 2,7 bilhões a - R$ 3,1 bilhões | -3,1 a -3,5 |
| Índice de Eficiência | 27% a 31% | 24% a 28% |
| Porto Saúde | ||
| Var. Prêmio Ganho Vertical (vs. 2025) | +14% a +22% | Mantido |
| Sinistralidade Vertical | 72% a 77% | Mantido |
| Índice de G&A Vertical | 4,7% a 5,7% | Mantido |
| Porto Serviço | ||
| Receita Total Vertical | R$ 2,6 bilhões a R$ 2,9 bilhões | Mantido |
| Índice de G&A Vertical | 9% a 10% | Mantido |
| Porto (Consolidado) | ||
| Resultado Financeiro | R$ 1,4 bilhões a R$ 1,8 bilhões | Mantido |
| Taxa efetiva | 24% a 28% | 23% a 27% |
Na avaliação do BTG, a revisão das projeções tem efeito praticamente neutro sobre as estimativas de lucro, motivo pelo qual o banco manteve recomendação neutra para as ações da Porto.
"Somos grandes admiradores da Porto como empresa e, considerando o desempenho forte e consistente da ação desde o IPO, há quase 20 anos, temos procurado encontrar uma justificativa para adotar uma visão mais positiva sobre o papel novamente. Se a ação reagir negativamente à deterioração da qualidade dos ativos, isso poderá criar uma oportunidade", dizem os analistas.
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