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Trump pausou a guerra contra o Irã, mas o setor de defesa está longe de esfriar; BTG Pactual projeta um novo superciclo global de investimentos e recomenda ETF para capturar ganhos. Entenda por que a tese de rearmamento segue forte.
Donald Trump pausou a guerra contra o Irã, mas se você acha que o setor de defesa perdeu o brilho, o BTG Pactual tem um recado: os governos ainda têm muito dinheiro para gastar.
Segundo o banco, os investimentos em segurança e defesa seguem como uma opção robusta para o investidor pessoa física, já que o gasto global, apesar de recorde — US$ 2,6 trilhões em 2025 —, ainda está abaixo da média histórica. É o nascimento do que o BTG chama de um novo superciclo global.
Para quem não está familiarizado com o termo, um superciclo é um período prolongado de expansão em determinado setor da economia, impulsionado por forças estruturais — e não apenas conjunturais.
No caso da defesa, o BTG argumenta que a combinação de tensões geopolíticas, programas de rearmamento e uma redefinição das prioridades fiscais dos governos está criando exatamente esse fenômeno.
“A combinação de instabilidade geopolítica e conflitos na Ucrânia, Oriente Médio e na Ásia levou a uma intensificação simultânea de frentes de conflito, revertendo décadas de políticas de desarmamento e sustentando uma nova lógica militar entre blocos”, diz o analista Marcel Zambello.
O ponto de partida da análise do BTG é simples: apesar do recorde nominal, os gastos militares globais representam apenas 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial — abaixo da média histórica de 3,4% registrada entre 1960 e 2024.
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Ou seja, em termos relativos à riqueza produzida pelo mundo, os governos ainda gastam menos em defesa do que costumavam gastar ao longo das últimas seis décadas.
Nos EUA, maior investidor global em defesa com um orçamento estimado em US$ 980 bilhões para 2025, o gasto equivale a 3,2% do PIB — também abaixo da média histórica americana de 5,3%.
O banco projeta que, caso Trump cumpra a meta de elevar o orçamento de defesa para US$ 1,5 trilhão em 2027, o crescimento em relação ao patamar atual seria de cerca de 60%.
O Departamento de Defesa norte-americano estima um orçamento de US$ 930 bilhões para 2026, o que dá a dimensão do salto projetado.
Para ilustrar o potencial de expansão, o BTG apresenta um cenário conservador: se os gastos militares globais aumentassem apenas 1 ponto percentual do PIB — saindo de 2,5% para 3,5% —, representaria um acréscimo de US$ 620 bilhões ao ano.
Mesmo com esse aumento, o nível de investimento ficaria apenas em linha com a média histórica do período pós-Guerra Fria.
Se os EUA já são o grande motor do setor, a Europa emerge como a novidade nesse ciclo.
O banco avalia que, após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o continente entrou em uma fase de recomposição militar. E a Alemanha, que responde por cerca de 30% do PIB europeu, tende a liderar esse movimento.
O orçamento alemão de 2026 prevê 82,7 bilhões de euros (US$ 95,7 bilhões) para as Forças Armadas — cerca de 25% acima dos níveis atuais —, além de um fundo especial de 100 bilhões de euros (US$ 115,7 bilhões) destinado ao reequipamento militar.
Para o BTG, esses números reforçam a capacidade alemã de coordenar e acelerar o processo de reconstrução das capacidades militares em toda a Europa.
“A nossa expectativa é que os EUA preservem sua posição de liderança global, enquanto a Europa amplie gradualmente sua participação relativa nos gastos militares ao longo dos próximos anos liderados pelos investimentos na Alemanha”, diz Zambello.
A tabela abaixo mostra que praticamente todos os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ainda gastam abaixo de 3,5% do PIB em defesa.
A França, por exemplo, destina 2,1% do PIB, com um gasto teórico adicional de US$ 46 bilhões caso alcance essa marca.
Itália e Espanha também ficam em 2,0%, com potencial de expansão de US$ 36 bilhões e US$ 26 bilhões, respectivamente.
A única exceção é a Polônia, que já gasta 4,5% do PIB — acima da meta — em função de sua posição geográfica próxima ao conflito entre Rússia e Ucrânia.
| País | Gasto projetado em 2025 (US$ bilhões) | Gasto como % do PIB (2025) | Gasto teórico adicional (US$ bilhões) |
|---|---|---|---|
| EUA | 980 | 3,2 | 86 |
| França | 67 | 2,1 | 46 |
| Reino Unido | 91 | 2,4 | 41 |
| Alemanha | 115 | 2,4 | 52 |
| Itália | 49 | 2,0 | 36 |
| Espanha | 36 | 2,0 | 26 |
| Polônia | 44 | 4,5 | -9 |
| Turquia | 33 | 2,3 | 16 |
| Países Baixos | 32 | 2,5 | 12 |
| Grécia | 8 | 2,8 | 1 |
| Noruega | 17 | 3,4 | 0 |
| Suécia | 15 | 2,4 | 6 |
| Bélgica | 14 | 2,0 | 10 |
| Dinamarca | 14 | 3,2 | 2 |
| Romênia | 9 | 2,3 | 5 |
| Finlândia | 9 | 2,6 | 2 |
| Tchéquia | 7 | 2,0 | 6 |
| Portugal | 6 | 2,0 | 5 |
| Hungria | 5 | 2,1 | 3 |
| República Eslovaca | 3 | 2,0 | 2 |
A tese do BTG não se sustenta apenas nos orçamentos governamentais. Dados financeiros do setor reforçam o otimismo.
A receita líquida das companhias de segurança e defesa somou US$ 922 bilhões em 2024, com crescimento de 9,3% em relação ao ano anterior. O lucro operacional avançou de US$ 75 bilhões em 2023 para US$ 84 bilhões em 2024.
Para os próximos anos, o consenso de mercado projeta expansão da receita líquida de 9,3% ao ano entre 2024 e 2027 — chegando a US$ 1,176 trilhão em 2027.
O banco destaca que esse crescimento é sustentado por um conjunto de fatores: backlog elevado (carteira de pedidos já contratados), maior demanda por contratos públicos, recomposição de estoques e modernização tecnológica.
Um indicador importante acompanhado pelo banco é o chamado book-to-bill — a relação entre novos pedidos recebidos e faturamento realizado no período.
Quando esse índice fica acima de 1,0x, significa que a empresa está recebendo mais pedidos do que entregando, ou seja, sua carteira está crescendo.
Nos últimos nove trimestres consecutivos, as principais empresas do setor mantiveram esse indicador acima de 1,0x.
No quarto trimestre de 2025, a média das empresas da amostra do BTG atingiu 1,6x — o maior nível da série analisada.
Dentro do setor, o BTG faz uma distinção relevante para orientar os investidores: prefere empresas de hardware a empresas de software.
A lógica é que o ciclo atual de investimentos favorece diretamente fabricantes de equipamentos militares — aviões, navios, mísseis, veículos blindados —, enquanto o segmento de software enfrenta riscos crescentes de disrupção por conta de novas soluções de inteligência artificial (IA). O Seu Dinheiro fez uma matéria especial sobre o assunto e você pode conferir aqui.
“No setor, temos preferência por empresas de hardware em relação às empresas de software, em razão da aceleração do ciclo global de investimentos e do aumento dos riscos de disrupção em software, com novas soluções de inteligência artificial reduzindo nossa visibilidade quanto aos vencedores de longo prazo no setor de software”, diz Zambello.
Para investidores brasileiros que queiram se expor a essa tese, o BTG recomenda o iShares U.S. Aerospace & Defense ETF, negociado na bolsa norte-americana com o código ITA e disponível na B3 na forma de BDR com o código BAER39.
Um ETF (Exchange Traded Fund) é um fundo negociado em bolsa que replica uma cesta de ações — neste caso, as principais empresas norte-americanas do setor aeroespacial e de defesa.
As maiores posições do ITA são GE Aerospace (20,3%), Raytheon Technologies (16,1%), Boeing (8,3%), Lockheed Martin (5,3%) e Northrop Grumman (4,8%).
Desde o início de 2024, o fundo acumula alta de cerca de 88%, superando o S&P 500 Aerospace & Defense Industry, que subiu 70%, e o S&P 500 amplo, com alta de 45% no mesmo período.
Todo investimento tem risco, e o banco não ignora os riscos da tese em segurança e defesa.
O principal deles é a própria dependência do ciclo geopolítico: uma eventual redução nos conflitos em todo o mundo ou uma mudança de prioridades fiscais dos governos poderia pressionar os orçamentos e desacelerar o crescimento do setor.
Outro ponto de atenção é a dependência de terras raras — materiais estratégicos usados em radares, mísseis, sensores e sistemas de propulsão.
A China controla cerca de 80% das capacidades globais de processamento desses insumos, o que representa uma vulnerabilidade relevante para as cadeias produtivas do setor.
O nível elevado de endividamento público global também entra na conta dos riscos.
Os EUA, por exemplo, têm dívida bruta acima de 120% do PIB — pode, no limite, gerar pressões por disciplina fiscal e moderar o ritmo de expansão dos gastos em defesa, aumentando a volatilidade no fluxo de pedidos e na previsibilidade dos programas militares.
Ainda assim, o banco mantém visão construtiva. Na avaliação do BTG, a transição de um modelo de globalização orientado por custos para outro baseado em “segurança das cadeias de suprimentos, resiliência industrial e alianças estratégicas” representa uma mudança profunda e duradoura nas políticas fiscais globais — e o setor de segurança e defesa deve ser um dos principais beneficiários desse novo arranjo.
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