Bolsa brasileira não está barata, mas vale a pena pagar mais caro por boas empresas, afirma gestor da Itaú Asset
Ao Seu Dinheiro, Rodrigo Koch, responsável pelas estratégias de ações da família Optimus, explica por que trocou a busca por "barganhas" pela segurança da liquidez

A bolsa brasileira já não oferece o desconto que, meses atrás, atraiu uma onda de capital estrangeiro — mas isso está longe de significar perda de atratividade, afirma Rodrigo Koch, gestor de renda variável da Itaú Asset. Na avaliação dele, ainda há espaço para ganhar dinheiro com ações, desde que o investidor aceite ser mais seletivo — e, principalmente, pagar um prêmio por boas empresas.
À frente das estratégias de renda variável da família de fundos Optimus, ele carrega uma visão pragmática: aquela janela em que tudo no Brasil parecia uma pechincha ficou para trás.
"Eu não acho a bolsa brasileira barata de uma maneira agregada", afirmou Koch, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.

Para ele, aquela fase em que “tudo parecia barato” no Brasil ficou para trás, em grande parte consumida pelo rali recente. Além disso, o ambiente global ficou ainda mais incerto, particularmente dependente do curso da guerra no Oriente Médio.
Nesse ambiente, a estratégia de Koch também mudou. Em vez de garimpar barganhas em ativos mais arriscados, a prioridade passou a ser proteger a carteira sem abrir mão de retorno.
Isso significa, na prática, aceitar pagar mais caro por empresas mais robustas — e, principalmente, por liquidez.
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Mercado “refém” do petróleo
Se existe um fio condutor para entender o comportamento recente dos mercados, ele passa, quase obrigatoriamente, pelo petróleo. Com o barril do Brent orbitando entre US$ 110 e US$ 115, o mercado global opera em um equilíbrio delicado.
“Você quer saber o que está acontecendo com juros, bolsa ou câmbio? Olha o petróleo”, afirma. “Todos os ativos estão altamente correlacionados com o desfecho da guerra.”
O epicentro dessa dinâmica é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de toda a produção global de petróleo. As restrições no fluxo da região criaram um gargalo logístico relevante, reduzindo a oferta disponível e pressionando os preços da commodity.
Mas, para o gestor, o ponto mais importante não está no nível atual — e sim no risco que ainda não aparece nos preços.
“Se essa situação durar mais alguns meses, estamos falando de outro mundo. A bolsa não está refletindo um cenário de estresse mais severo. Se o petróleo sobe mais, você precisa cortar lucro — e a bolsa deveria cair.”
Ao mesmo tempo, há uma aposta implícita sustentando os preços atuais: a de que o impasse será resolvido em breve.
“Existe uma expectativa de normalização nas próximas semanas. É isso que sustenta os preços atuais. Se resolver, a bolsa sobe. Se não, o ajuste vem.”
O fim da "liquidação" da bolsa brasileira
No Brasil, depois de um primeiro trimestre forte, impulsionado pelo fluxo estrangeiro e pela tese de Brasil como exportador de commodities, parte relevante do movimento já ficou para trás.
Mas, com o Ibovespa flertando com os 200 mil pontos, o espaço para surpresas positivas diminuiu, avalia Koch.
"A gordura de valuation reduziu", disse o gestor. "Dado o patamar de juros que temos, não consigo estar extremamente otimista com a bolsa de forma agregada. Existem nichos de valor, mas eles estão cada vez menores".
Onde ainda há valor a destravar na bolsa brasileira
Apesar do tom cauteloso, Koch não vê um mercado esgotado. Ainda há oportunidades — sustentadas por fundamentos micro específicos, e não só pelo movimento geral da bolsa.
Hoje, três segmentos concentram as principais apostas da Itaú Asset:
- Utilities (prestadoras de serviço): Principal foco da carteira, especialmente em energia. A tese passa menos por juros e mais pela dinâmica de preços, com empresas que se beneficiam de energia mais cara e, consequentemente, apresentam revisões positivas de lucro.
- Saúde: Um setor onde o diferencial está na execução. A busca é por companhias líderes, com poder de precificação e capacidade de crescer mesmo em um ambiente mais apertado.
- Distribuição de combustíveis: Beneficiado tanto pela escassez global quanto por uma agenda pública de combate à ilegalidade, que melhora margens e reduz distorções competitivas.
Por que fugir das cíclicas e small caps agora?
A seletividade também na avaliação do que fica de fora do portfólio dos fundos Optimus. Setores mais cíclicos — como consumo, proteínas e real estate — não estão no radar neste momento.
O motivo é uma combinação de fatores: custos pressionados, juros ainda elevados e menor visibilidade de crescimento.
O gestor da Itaú Asset também foge das histórias de virada em empresas menores na bolsa. Para ele, investir em small caps neste momento seria como "jogar uma moeda".
Na avaliação de Koch, o prêmio de liquidez deve continuar elevado nos próximos meses — o que favorece empresas maiores, mais negociadas e com modelos de negócio mais resilientes.
“A liquidez será preponderante nos próximos meses. Você vai pagar múltiplos mais altos por empresas mais líquidas, líderes em seus setores e com balanços sólidos", afirmou.
O "gringo" versus o investidor local
Parte importante da sustentação recente da bolsa veio do investidor estrangeiro — e essa tendência, na visão do gestor, ainda não se esgotou.
“Existe uma realocação global em curso, com investidores reduzindo exposição aos Estados Unidos e buscando diversificação”, disse. “O Brasil é um dos beneficiários.”
No entanto, essa tendência não deve ser linear, com momentos de maior e menor exposição ao longo do ano, segundo o executivo.
Enquanto isso, o investidor brasileiro segue à margem da bolsa. "A alocação do brasileiro em bolsa está muito baixa, mas, enquanto houver o famoso 1% ao mês na renda fixa, ele não vai tomar risco", disse o gestor.
Para Koch, essa postura tem um custo: a bolsa já subiu mais do que isso no ano.
Segundo ele, a volta mais consistente do investidor local de um ciclo mais avançado de queda de juros e de maior estabilidade no cenário global. O risco é chegar tarde.
"Não dá tempo de alocar depois que tudo volta a subir”, afirmou.
Bolsa brasileira no curto e médio prazo
Questionado sobre as perspectivas para a bolsa brasileira, Koch destacou que a fotografia da bolsa brasileira hoje é uma sobreposição de horizontes.
No curto prazo, o comportamento do mercado deve ser binário — e altamente dependente do desenrolar da geopolítica. “No curtíssimo prazo, é a guerra que manda”, disse o gestor.
Já no médio prazo, o cenário é mais construtivo. A expectativa de queda de juros, combinada a um câmbio mais estável, abre espaço para valorização da bolsa, na leitura de Koch.
“A bolsa tem capacidade de subir, mas com bastante volatilidade”, afirmou.
Diante de tanta incerteza, a estratégia da Itaú Asset para atravessar 2026 é a da gestão ativa. Koch compara sua atuação a um motorista atento: "A gente pisa no acelerador, tira o pé, pisa de novo".
Hoje, a preferência é por uma carteira mais leve, com cautela na exposição ao Brasil e maior flexibilidade para reagir rapidamente a mudanças no cenário global e doméstico.
"Estamos preparados para ganhar se as coisas se resolverem, mas temos liquidez o suficiente para ficar zerados se o cenário azedar", afirma Koch.
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