Às vésperas de eleição decisiva na Hapvida (HAPV3), controladores ‘mostram os dentes’ para defender o poder na empresa
Com aluguel de ações disparando, o movimento que normalmente indicaria pressão vendedora revela, na verdade, uma disputa silenciosa por poder, em que papéis são utilizados como instrumento para ampliar influência na assembleia que decidirá o futuro do conselho

As ações da Hapvida (HAPV3) têm feito a festa na bolsa, com alta de 30% no mês. Ao mesmo tempo, o aluguel dos papéis está no maior nível em meses. À primeira vista, isso pode parecer um mau sinal para a companhia, já que normalmente indicaria uma crescente de posições vendidas na empresa. Mas nesse caso, o buraco é mais embaixo.
Cabe lembrar que o aluguel de ações é comumente usado por investidores que esperam a queda de um ativo. Isso porque, ao tomar o papel emprestado, o investidor pode vendê-lo ao preço atual de mercado e, posteriormente, recomprá-lo por um valor mais baixo para devolver ao doador, capturando a diferença como ganho.
No entanto, também é possível alugar ações para ampliar o poder de voto em assembleias específicas, já que quanto maior a quantidade de papéis, maior é o poder de decisão — e esse parece ser o motivo por trás da disparada na taxa de aluguel dos papéis da Hapvida, segundo um relatório do BTG Pactual.
Para o banco, a família Pinheiro, controladora da companhia, deve estar ampliando o aluguel de ações como forma de reforçar sua posição na assembleia que definirá o novo conselho de administração, no dia 30 de abril.
A família Pinheiro quer dominar a assembleia?
De acordo com o BTG Pactual, o número de ações HAPV3 vendidas a descoberto em relação ao volume médio diário negociado tem aumentado significativamente. Essa métrica é conhecida como short interest ratio (SIR). O indicador mostra quantos papéis estão alugados em comparação com a liquidez da empresa na bolsa.
“O SIR da Hapvida aumentou passou de 4,5 em fevereiro para 12 em abril. Isso provavelmente reflete posicionamento antes da assembleia geral de 30 de abril”, diz o BTG em relatório.
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Hoje cerca de 22,9% das ações em circulação (free float) da Hapvida está alugado, de acordo com dados da Economática e Ágora Investimentos. A taxa é a maior da bolsa, chegando a quase 80%.
Para base de comparação, o segundo lugar está com o Pão de Açúcar (PCAR3), com taxa de 35,8%. Cabe lembrar que a varejista está em recuperação extrajudicial — ou seja, seria de se esperar que as apostas contra o papel tivessem mais força e, por consequência, aumentasse essas porcentagem.
“O aluguel das ações da Hapvida atingiu o maior patamar dos últimos 12 meses, sendo de longe o mais caro entre as ações listadas no Ibovespa. Observamos que quem aluga ações pode aumentar seu poder de voto na assembleia, o único direito de fato transmitido pelo doador ao tomador”, escreve a Ágora em relatório.
A assembleia para mudança do conselho da Hapvida
A assembleia acontece após a Squadra, que tem participação de cerca de 5% na Hapvida, fazer uma série de questionamentos sobre o rumo que a operadora de planos de saúde e dentários tem tomado nos últimos anos.
No começo deste mês, a gestora divulgou uma carta pedindo por mudanças e no conselho de administração da companhia depois do que a casa classifica como “uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro”.
Desde o IPO da companhia, em abril de 2018, a ação acumula uma queda de 83%, comparada a uma alta de mais de 100% do Ibovespa no mesmo período.
Na visão da gestora, essa queda drástica é consequência de decisões estratégicas, operacionais, de alocação de capital e de governança equivocadas. Assim, a Squadra pediu por mudanças relevantes na gestão da companhia, focando especialmente no Conselho de Administração.
A gestora pediu que a eleição de membros na Assembleia, que já estava prevista para 30 de abril antes da divulgação da carta, fosse feita com a adoção de voto múltiplo e indicou três nomes para a próxima assembleia: Tania Sztamfater Chocolat, Bruno Magalhães e Silva e Eduardo Parente Menezes, ex-CEO da Yduqs.
Por meio do voto múltiplo, cada acionista passa a ter um número de votos proporcional à sua participação multiplicada pelo total de cadeiras em disputa, podendo concentrá-los em um único candidato ou distribuí-los entre vários nomes.
Isso tende a aumentar a capacidade de influência de acionistas, especialmente minoritários, na composição do conselho. Em resposta, a Hapvida informou que o mecanismo pode ser utilizado.
Cabe lembrar que, mesmo com o desempenho desastroso da empresa nos últimos anos, o conselho de administração está entre os mais bem pagos do Ibovespa. Segundo a Squadra, a previsão é que os conselheiros da companhia ganhem R$ 57 milhões neste ano, com o terceiro maior pagamento entre as empresas do Ibovespa — mesmo valor que o time do Itaú (ITUB4).
O aumento de participação dos controladores
No meio disso, a família Pinheiro também aumentou a participação na Hapvida para 55,4% do capital social da empresa.
Se forem excluídas em ações em tesouraria, a participação agregada dos acionistas corresponde a 58,62%. Desse total, cerca de 14% vêm de instrumentos derivativos e outros 14% do aluguel de ações.
Esse movimento é visto pelo mercado como sinal de comprometimento da família com o negócio, o que impulsionou as ações na última semana.
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