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O JOIO E O TRIGO

Agro ainda é pop? Crise pressiona crédito no setor, mas Fiagros rendem quase o dobro do CDI no ano; saiba o que esperar

Recuperações judiciais e calotes criaram desconfiança entre investidores, mas mercado de capitais ainda é saída para produtores e pode dar bons retornos

Imagem: Montagem Seu Dinheiro/Canva/iStock/Drs Producoes

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo. Enquanto o país registra recordes de safras, atingindo quase 1 bilhão de toneladas produzidas nos últimos três anos, produtores acumulam recuperações judiciais, aumento de inadimplência e sucessivos problemas financeiros.

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Afinal, o que está acontecendo com o setor que é motor da economia brasileira? O agronegócio deixou de ser pop e perdeu seu toque de Midas?

A primeira resposta das fontes ouvidas pelo Seu Dinheiro a esses questionamentos foi: “não é bem assim”. Analistas e gestores afirmam que é preciso separar os diferentes setores do agro para avaliar corretamente o cenário complexo que temos atualmente.

Há, sim, uma crise, mas não é no agronegócio como um todo. Ela está mais concentrada no setor de grãos, principalmente em soja e milho.

Como ambos os produtos estão entre as principais exportações do Brasil e têm peso relevante sobre toda a cadeia do agronegócio, à primeira vista, soa como se o setor inteiro estivesse imerso na crise.

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Contudo, outras commodities relevantes vivem um bom momento. Alguns exemplos são proteína animal, açúcar, café, suco de laranja e algodão.

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É por isso que empresas e fundos de investimento em agronegócio (Fiagros) com exposição a diversos setores conseguem navegar melhor nesse cenário e apresentam bons retornos. Segundo dados do BTG Pactual, Fiagros acumulam mais de 13% de retorno no ano — acima do retorno de ações (7,13%) e do CDI, benchmark de renda fixa, que rende cerca de 6,68% hoje.

Como chegamos aqui

Dizer que os produtores rurais estão endividados e pedindo proteção contra credores é olhar apenas para o final da história. Não explica como as últimas safras renovaram recordes, as áreas plantadas cresceram e a produção de grãos no Brasil atingiu níveis históricos.

Para entender o cenário hoje é preciso voltar para 2019. Por três anos o setor de grãos viveu um “ciclo extraordinário”, diz Manoel Pereira de Queiroz, sócio responsável por agronegócio da Mapa Capital.

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Quebras de safra em outros países fizeram o preço das commodities disparar e o Brasil vendeu muito. “Foram anos de recorde de margem e lucratividade. A cadeia ganhou muito dinheiro.”

E quando o produtor rural ganha dinheiro, ele não guarda no banco para render. Ele converte em terra por meio de arrendamentos, alugando dezenas de hectares para aumentar a área plantada, em contratos de anos.

Com os juros baixos da pandemia — a Selic chegou a uma mínima de 2% ao ano — parecia o melhor negócio possível.

Acontece que a cadeia de produção se normalizou. Os preços das commodities se estabilizaram em níveis médios, enquanto o custo dos fertilizantes disparou em meio à deflagração da guerra entre Rússia e Ucrânia.

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Além disso, o Brasil passou por problemas climáticos entre 2023 e 2024 que aumentaram os custos para os produtores.

“Com a soja valendo menos, o produtor gasta mais sacas para pagar o aluguel do arrendamento. Além disso tem o fertilizante mais caro, a manutenção do maquinário e a taxa de juros maior para financiar a próxima safra”, diz Khalil Lima, analista especializado em agronegócio da Reach Capital.

Sem dinheiro em caixa

A cada nova safra as dívidas foram se acumulando.

No agro, as safras precisam de financiamento para melhorar a produtividade. Crédito para comprar fertilizantes e defensivos, para a manutenção das máquinas e para a armazenagem da produção.

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Sem dinheiro em caixa, o financiamento via bancos e mercado de capitais virou a principal alternativa. Mas, à medida que as margens encolheram e as dívidas se acumularam, muitos produtores passaram a enfrentar dificuldades para honrar seus compromissos. É nesse contexto que entra a crise da recuperação judicial.

“Um produtor com problema de liquidez ouve que não vai ter que pagar suas dívidas por um período de seis meses, soa como a solução ideal. Virou uma indústria”, diz Queiroz.

O agrônomo afirma que muitos escritórios de advocacia foram atrás desses produtores e se aproveitaram da situação.

Segundo a Serasa, 2025 foi o ano que registrou o maior número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio: 1.990 solicitações. E os produtores rurais que atuam como pessoa física representaram 43% deste total, registrando 853 pedidos.

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Embora o instrumento de RJ seja válido para casos críticos, Queiroz afirma que produtores que tinham meios para arcar com as dívidas passaram a se valer da “solução” jurídica, criando desconfiança no setor.

Para o mercado de crédito, proteção contra credores significa aumento de risco. E aumento de risco significa menos crédito e mais juros.

Quem financia o agro agora

Hoje, o principal instrumento de financiamento é o Plano Safra do governo federal.

Para a safra 2025/26, o governo anunciou um plano de R$ 605 bilhões, considerando o crédito subsidiado — com juros menores — e a estimativa de crédito privado, via Cédulas de Produto Rural (CPRs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Fiagros.

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Mas, com a taxa básica subindo para 15% ao ano e estacionada neste patamar por muito tempo, mesmo os juros subsidiados continuam altos, entre 8,5% e 14% ao ano.

Já no mercado privado, os valores são bem maiores, entre 18% e 20% de juros ao ano. O resultado foi uma demanda baixa.

Até abril, somente R$ 281,62 bilhões do plano foram tomados em financiamentos, conforme dados do Banco Central. Esse valor, entretanto, desconsidera o crédito privado.

Lima, da Reach, afirma que esse capital é essencial para o setor e deve vir de algum lugar. “Para ter produtividade, precisa dos insumos. E os produtores precisam de uma boa safra para arcar com seus custos.”

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Por isso os números das safras continuam nas alturas.

Queiroz avalia que é preciso separar o joio do trigo: “Tem produtores melhores, bem capitalizados e com boa gestão financeira. É uma questão de ser seletivo e encontrar os nomes que vão conseguir navegar.”

Impacto nos Fiagros e no crédito privado

A crise no agronegócio nunca foi um problema restrito aos produtores rurais. Afetou — e muito — quem financia o setor. Bancos, Fiagros, CRAs e CPR-Fs sofreram calotes que geraram receio com o setor.

O caso mais emblemático foi o da Agrogalaxy (AGXY3). O pedido de RJ da empresa de distribuição de insumos agrícolas interrompeu o pagamento de suas dívidas e gerou um impacto grande nos Fiagros expostos à empresa.

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Esses fundos listados em bolsa são, em sua maioria, compostos por CRAs e CPR-Fs de produtores rurais ou de empresas ligadas ao setor. Naquele momento, diante do calote da Agrogalaxy, as cotas dos fundos mais expostos à empresa chegaram a desvalorizar mais de 12% na bolsa.

Segundo Octaciano Neto, fundador da Zera.ag., a crise da Agrogalaxy resultou em uma divisão entre os ativos sobreviventes e aqueles que “ficaram no meio do caminho”.

Para muitos Fiagros, isso significou perder a capacidade de realizar novas emissões de cotas e, consequentemente, de crescer, afirmou o especialista ao Seu Dinheiro.

No entanto, houve quem conseguisse passar pela turbulência sem arranhões, como o Suno Agro (SNAG11) — um fundo que sequer teve problemas de inadimplência durante o período.

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Para o especialista, no fim, a crise funcionou como um filtro natural, deixando no mercado os ativos com gestões mais experientes e investidores mais atentos ao portfólio.

“O investidor não saiu do setor, quem saiu foi o cotista que 'morre com o barulho da bala’. Ou seja, aquele que viu o Fiagro caindo sem nem ter Agrogalaxy na carteira e vendeu sem saber o porquê”, afirmou Neto.

Ensaio de recuperação dos Fiagros

Quem optou por manter os investimentos em meio à turbulência hoje está vendo o setor se recuperar aos poucos e conseguir fazer novas captações mesmo em um cenário restritivo.

Com os bancos mais seletivos, muitos produtores procuram o mercado de capitais para conseguir dinheiro, mesmo com taxas altas de juros.

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Os fundos que investem em papéis do agronegócio somaram R$ 4,37 bilhões em captação até maio de 2026, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O montante representa um aumento de 126,5% em relação aos R$ 1,93 bilhão captados no mesmo período do ano passado.

E o investidor vem colhendo os frutos da aposta no setor. De acordo com dados do BTG Pactual, os Fiagros são a classe com maior retorno entre os fundos listados em 2026, com uma taxa de 13,35%. Já no acumulado dos últimos 12 meses, o retorno foi de 29,75%.

Apesar do retorno elevado nos últimos meses, o banco destaca que os ativos seguem com forte desconto em relação ao valor patrimonial, com o indicador Preço/Valor Patrimonial (P/VP) de 0,80 vez.

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Ainda vale investir no agronegócio?

O cenário não é fácil. Embora os Fiagros apresentem bons números, indicando um ensaio de recuperação no setor, as perspectivas não são positivas no curto prazo.

As taxas de juros continuam altas, há o risco de um El Niño forte no radar, que pode impactar nas colheitas, e os produtores ainda carregam as dívidas anteriores.

Queiroz, da Mapa Capital, afirma que o agronegócio é um setor de ciclos, portanto, volátil. Porém, o Brasil trabalha com diferentes commodities e tem grandes empresas que sabem navegar nesse ambiente.

Não se trata de um setor simples, mas para o investidor que tem mais apetite a risco e olhar para o longo prazo, há empresas e fundos com bons fundamentos que merecem atenção, na opinião dos especialistas.

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A principal questão é a diversificação. O cenário para grãos é duro — a expectativa é que os preços de soja e milho devem continuar baixos no mercado internacional, enquanto fertilizantes e defensores seguem caros. Entretanto, outros produtos vivem ciclos melhores e podem complementar a volatilidade que grãos podem gerar na carteira.

“O agronegócio está em um momento de atenção e cautela, mas na dificuldade surgem as oportunidades. Para o investidor com apetite, esse pode ser um momento de entrada no setor”, afirmou Gustavo Gomes, head de crédito para o agronegócio da XP Asset.

Empresas em destaque

Mesmo no setor de grãos, que é o mais arriscado neste momento, Queiroz vê movimentos estratégicos das grandes empresas para comprar as terras de produtores com mais dívidas e que buscam liquidez.

Isso porque o cenário de crise permite que grandes grupos comprem terras a preços mais baixos. Essa tendência impulsiona uma concentração do setor em grandes companhias capitalizadas e com boa governança.

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Com o mercado mais institucionalizado e menos dependente do proprietário tradicional, os riscos operacionais são reduzidos, embora os riscos sistêmicos ainda permaneçam.

Dois nomes de destaque são SLC Agrícola (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3), por serem empresas com balanços menos pressionados e que conseguem sobreviver ao cenário de juros altos e margens apertadas.

Além das grandes empresas agrícolas, instrumentos financeiros devem participar desse movimento. Segundo Gomes, os Fiagros podem passar por mudanças de perfil de investimento, migrando do segmento de crédito para a aquisição direta de terras. Além disso, esses fundos podem ter uma carteira diversificada, sem concentração no setor com maior dificuldade.

“A indústria sairá deste momento difícil muito mais forte. Não tenho dúvida de que os Fiagros serão os principais financiadores da agricultura brasileira na próxima década”, afirmou Neto.

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