Pão de Açúcar (PCAR3) quer enterrar de vez a herança maldita: CEO detalha plano para simplificar a empresa e voltar a crescer
Em recuperação extrajudicial, companhia afirma que os primeiros resultados da reestruturação já apareceram no balanço do 2T26, mas resquícios do passado grandioso ainda atrapalham

O Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) tem se esforçado para colocar a casa em ordem em meio ao processo de recuperação extrajudicial, que ainda aguarda homologação da Justiça. Embora a companhia reconheça que a reestruturação está bem longe do fim, os números do segundo trimestre de 2026 já começam a refletir os primeiros efeitos desse trabalho, na visão da diretoria.
"Os resultados iniciais começam a mostrar que estamos avançando na direção correta", afirmou o CEO do GPA, Alexandre Santoro, durante a teleconferência de resultados nesta quarta-feira (5). Cabe lembrar que a companhia lida com dívidas bilionárias e um potencial passivo tributário que pode ser cerca de 12 vezes maior do que o valor de mercado do grupo na bolsa hoje, de R$ 1,4 bilhão.
Os resultados do segundo trimestre da varejista foram divulgados na noite de ontem (4). No pregão de hoje, por volta das 12h30, as ações saltavam quase 9%, negociadas a R$ 2,99, entre os maiores ganhos da bolsa fora do Ibovespa.
Em seu auge, o GPA detinha controle sobre uma série de marcas relevantes no varejo brasileiro. Entre elas, destacam-se Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Minuto Pão de Açúcar, Drogaria Extra e a participação na Via Varejo, que reunia Casas Bahia e Ponto Frio.
"Encontramos um negócio com marcas fortes, ativos de qualidade, clientes muito fiéis e um grande potencial de geração de valor. Mas, ao longo do tempo, a companhia se tornou muito complexa e não se simplificou na mesma velocidade em que o negócio diminuiu de tamanho", afirmou Santoro durante a teleconferência.
Isso data da época em que o grupo ainda era controlado pelo francês Casino, que se afundou em dívidas na Europa e teve que começar a vender os negócios que compunham o Grupo Pão de Açúcar no Brasil.
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A empresa foi se desfazendo das partes boas dos negócios, para facilitar as negociações dada a urgência do controlador, e absorvendo as partes negativas — uma das grandes razões pela qual os potenciais passivos tributários da varejista hoje são tão monumentais.
Mas, apesar desse encolhimento, o executivo acredita que a empresa ainda opera com uma estrutura incompatível com sua nova realidade.
Homologação da RE deve vir no terceiro trimestre
A recuperação extrajudicial é tratada pela nova gestão como um dos pilares para viabilizar a transformação do GPA, não um fim por si só. Segundo Santoro, a companhia espera concluir a homologação do plano ainda no terceiro trimestre deste ano.
O executivo destacou o alongamento do prazo médio dos vencimentos de aproximadamente dois anos para 6,4 anos e diminuição do custo médio da dívida. Como consequência, os desembolsos previstos entre 2026 e 2028 devem cair de cerca de R$ 5,2 bilhões para R$ 400 milhões, considerando pagamento principal e de juros.
"A recuperação extrajudicial foi um instrumento para fortalecer a companhia. Nosso objetivo sempre foi criar as condições para que o GPA voltasse a concentrar sua energia naquilo que realmente gera valor: o cliente, a operação e a execução da nossa estratégia", afirmou.
Na avaliação de Santoro, o alívio financeiro proporcionado pela homologação devolverá flexibilidade ao GPA e permitirá acelerar as mudanças operacionais, deixando a administração menos concentrada na gestão do passivo e mais focada na recuperação do negócio.
A três prioridades do Grupo Pão de Açúcar
A gestão definiu três prioridades: colocar o cliente no centro das decisões, elevar a eficiência operacional e comercial e reforçar a disciplina financeira. "Nós não vamos crescer por crescer. Vamos alocar capital onde houver maior retorno", disse.
Até o fim do primeiro semestre, isso significou interromper a abertura de novas lojas, rever investimentos, centralizar compras indiretas, renegociar contratos e reduzir despesas administrativas. Assim, a companhia capturou cerca de R$ 250 milhões em ganhos de eficiência, o equivalente a quase 60% da meta de R$ 415 milhões prevista para 2026.
Mas, para Santoro, a maior parte do trabalho ainda está por vir. As próximas frentes da reestruturação devem se concentrar em duas áreas consideradas estratégicas: logística e tecnologia, que ainda carregam estruturas herdadas de um GPA muito maior do que o atual.
Logística e tecnologia desenhadas para um GPA que não existe
Na frente logística, a administração reconhece que a estrutura atual foi montada para atender uma companhia muito maior e mais diversificada. Com a redução do perímetro do grupo, alguns centros de distribuição passaram a operar com capacidade ociosa.
"Nas margens em que a gente opera, não tem como carregar essa ociosidade, essa conta não fecha. Mas também não são contratos fáceis de resolver, nem problemas simples. Eles estão sendo endereçados com bastante disciplina e bastante foco", afirmou Santoro, sem detalhar quanto pretende economizar nem quais centros de distribuição poderão ser fechados ou redimensionados.
Outro ponto considerado prioritário é a modernização da tecnologia. O GPA ainda opera com um mainframe, sistema de grande porte normalmente associado a bancos e estruturas corporativas antigas.
Na avaliação de Santoro, essa dependência é uma herança das diversas aquisições feitas pelo grupo ao longo dos anos, com plataformas que não se comunicam adequadamente entre si.
Essa fragmentação reduz a flexibilidade da operação, dificulta a tomada de decisões e eleva os gastos com manutenção e fornecedores de tecnologia.
A substituição dos sistemas, no entanto, será feita gradualmente. Santoro destacou que mudanças tecnológicas em uma companhia do tamanho do GPA exigem cautela para evitar interrupções nas lojas, nos centros de distribuição e nos canais digitais.
Cortes de pessoal, mas não a qualquer custo
A redução da estrutura também envolveu ajustes no quadro de funcionários, especialmente na sede administrativa. A companhia afirma, porém, que evitou promover cortes lineares nas lojas para não prejudicar o atendimento e comprometer ainda mais as vendas.
Segundo Santoro, o dimensionamento das equipes foi analisado unidade por unidade e até mesmo por setor dentro de cada loja.
Em alguns casos, o GPA concluiu que havia funcionários em excesso. Em outros, porém, a administração decidiu aumentar o quadro ao identificar que a falta de mão de obra poderia estar provocando perda de vendas.
"Em um grupo importante de lojas, nós até aumentamos o quadro porque vimos que poderíamos estar perdendo vendas por uma estrutura inadequada", disse. O executivo afirmou que a maior parte dos ajustes realizados até agora ocorreu na área administrativa e teve impacto limitado sobre o funcionamento das unidades.
Parte das economias geradas por essas mudanças também ainda não apareceu integralmente no caixa. Isso porque os cortes realizados no primeiro semestre vieram acompanhados de despesas com rescisões, enquanto os benefícios recorrentes devem ser capturados com maior intensidade nos próximos trimestres.
Passivo tributário segue sem solução
Em relação aos passivos tributários, a companhia afirmou que mantém conversas frequentes com a Procuradoria e com a Receita Federal, mas ainda não tem uma definição para comunicar ao mercado.
Segundo o CFO, Pedro Albuquerque, a recuperação extrajudicial ajudou a dar maior senso de urgência às negociações, inclusive em discussões relacionadas à capacidade de pagamento da companhia.
Esse continua sendo um dos principais pontos de incerteza para a tese de investimento do GPA, dada a dimensão potencial das cobranças em relação ao tamanho atual da empresa. Na visão de gestores que conversaram com o Seu Dinheiro, esse sempre foi o grande temor sobre a empresa, mais que a própria recuperação extrajudicial. Entenda detalhes nesta reportagem.
Os detalhes do balanço do GPA
Na visão do Santander, os números do trimestre divulgados na noite de ontem (4) foram mistos. Para o banco, o trimestre reforça a estratégia da companhia de priorizar rentabilidade e fortalecimento do balanço, mesmo em detrimento do crescimento das vendas no curto prazo.
No entanto, o balanço foi impactado foi impactado pelo processo de reestruturação, pela saída de determinados canais de venda e por rupturas temporárias de estoque.
A receita bruta somou R$ 4,7 bilhões, queda de 7,0% na comparação anual, enquanto a receita líquida recuou 9,6%, para R$ 4,2 bilhões, refletindo o desempenho mais fraco das vendas. Em contrapartida, a margem bruta avançou 3,1 pontos percentuais, para 30,5%, e o Ebitda ajustado cresceu 7,3%, para R$ 450 milhões, evidenciando a melhora da rentabilidade.
A recomendação do banco para os papéis é neutra. Veja detalhes dos números nesta reportagem do Money Times, portal parceiro do Seu Dinheiro.
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