Isento de IR, com retorno acima do CDI: BTG leva fundo de infraestrutura à bolsa para investidor de olho na renda mensal
FI-Infra BCDI11 estreia na B3 mirando o investidor que quer renda isenta sem carregar o mesmo risco dos fundos de infraestrutura de plataforma

Se de um lado os fundos de infraestrutura se recuperam de uma sequência de resgates por investidores nos últimos meses, a versão listada — chamada de FI-Infras — é vista como uma oportunidade neste momento. Não por acaso, a gestora BTG Asset estreia na bolsa nesta terça-feira (4) o BCDI11, BTG Pactual Dívida Infra CDI, que passou dois anos negociando no mercado de balcão.
Desde o início, a estratégia do fundo era a listagem, mas o objetivo inicial foi criar um histórico de gestão e performance antes de vir a mercado.
Além disso, os últimos dois anos — de preços esticados e prêmios espremidos na indústria de debêntures — não foram exatamente o melhor cenário para listar em bolsa.
Para Luis Bolfoni, gestor do portfólio de crédito da BTG Asset, não fazia sentido listar o fundo com prêmios tão baixos na indústria.
"Por mais que o capital para captação fosse abundante, o momento era ruim para alocação. Mas, agora, vemos uma melhora nos prêmios e sinais de estabilização na indústria depois da recente onda de resgates, abrindo uma janela de oportunidade", disse Bolfoni em entrevista ao Seu Dinheiro.
Os FI-Infras investem majoritariamente em debêntures incentivadas, que são títulos de dívida emitidos por empresas para financiar projetos de infraestrutura. Para o investidor pessoa física, esses títulos têm isenção de imposto de renda sobre os rendimentos.
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Para estender esse benefício ao fundo, a gestão precisa cumprir regras próprias de alocação em debêntures incentivadas. Pelo menos 67% da carteira deve estar alocada em nesse tipo de papel num prazo de até seis meses, subindo para 85% após dois anos.
O FI-Infra BCDI11 fez sua segunda emissão de cotas em abril, de olho na listagem e no melhor momento para alocar o dinheiro captado.
Fundos listados versus fundos fechados
Os resgates observados na indústria de crédito neste ano se deram, em sua grande maioria, na indústria de fundos de infraestrutura de plataforma, não nos negociados em bolsa. Esses fundos também investem em debêntures incentivadas, mas têm um mecanismo de operação diferente dos FI-Infra listados.
Nos fundos de plataforma, quando os investidores pedem resgate, os gestores precisam devolver os recursos aplicados. Ou seja, é um desembolso financeiro que diminui o patrimônio do fundo.
Em períodos de estresse, com muitos pedidos de resgate, pode acontecer de o gestor precisar vender ativos da carteira, mesmo que a preços depreciados, diminuindo o patrimônio duplamente.
Esse é um dos principais motivos de queda na performance desses fundos.
Os FI-Infra listados não passam por isso. Quem deseja sair do fundo vende suas cotas na bolsa para outro investidor. A carteira permanece intacta, e o gestor não é obrigado a se desfazer de ativos em momentos desfavoráveis.
Logo, não tem mudança no valor patrimonial do fundo. A pressão vendedora se reflete no preço da cota em bolsa — assim como acontece com ações e fundos imobiliários.
Oportunidades à frente
Bolfoni acredita que esse é um diferencial relevante para os FI-Infras. "Permite um retorno ajustado ao risco melhor para o investidor, porque não interfere na estratégia de alocação do portfólio", diz o gestor.
Enquanto gestores de fundo de plataforma precisam equilibrar a venda de ativos e o tamanho do caixa para responder aos resgates, os FI-Infra estão de olho no mercado para comprar as melhores debêntures incentivadas por um preço melhor.
O BCDI11 atualmente está com 30% do portfólio alocado em debêntures incentivadas. Precisa alcançar 67% em três meses, pois o prazo começa a rodar a partir da oferta de cotas feita em abril.
"Nossa estratégia é high grade [investimento em papéis de emissores de baixo risco] e queremos aproveitar essa flexibilidade de aumento gradual do portfólio para olhar debêntures tradicionais e incentivadas. O mercado está mais estável, mas ainda está com pressão vendedora, o que abre muitas oportunidades", diz Bolfoni.
O BCDI11 e o CDI
O FI-Infra BCDI11 chega à bolsa com um patrimônio líquido de R$ 191,5 milhões, depois de ter captado R$ 120 milhões em abril.
Cerca de 94% da carteira está alocada em debêntures tradicionais e debêntures incentivadas, somando 58 ativos ao total. Os outros 6% estão em caixa, principalmente títulos públicos.
Para a próxima leva de alocação, Bolfoni está de olho em ativos conservadores, principalmente high grade. Porém, para apimentar o retorno, o gestor também considera uma alocação de 10% em crédito estruturado, via fundos de direitos creditórios (FIDCs).
Um ativo que serve de referência para entender o BCDI11 é o seu "irmão" BDIF11, BTG Pactual Dívida Infra.
Os dois fundos investem em crédito de infraestrutura. Os dois são geridos pela mesma equipe. E os dois buscam capturar os benefícios tributários das debêntures incentivadas.
A principal diferença está no indexador.
Enquanto o BDIF11 possui uma carteira predominantemente exposta à inflação e ao comportamento do juro real, o BCDI11 tem a estratégia de acompanhar mais de perto o CDI. É o que o mercado chama de fundo hedgeado.
Esses fundos usam estratégias que reduzem o impacto das oscilações dos juros sobre a carteira, convertendo um retorno atrelado ao juro real, tipicamente mais volátil, a um desempenho indexado ao CDI, mais “tranquilinho”.
"O CDI tem uma proposta mais defensiva, alinhada com o perfil do investidor conservador, que investe em fundos de renda", afirma o gestor da BTG Asset. "Com o cenário de CDI em dois dígitos pelo futuro previsível, acreditamos que tem um apelo interessante e com bons resultados."
Na prática, o BTG enxerga o produto como uma alternativa complementar ao fundo de inflação.
Em junho, a carteira do BCDI11 tinha uma taxa equivalente de retorno de CDI + 1,25%, já após apuração da taxa anual de administração 0,75% e a taxa de desempenho (20% sobre o que exceder o benchmark). Algo em torno de 16% ao ano, retorno pago ao investidor na forma de dividendos.
Dividendos e a cota
Sim, dividendos. Diferentemente dos fundos de infraestrutura das plataformas, os FI-Infras listados pagam dividendos mensais e isentos de IR, assim como fundos imobiliários.
Nos últimos meses, o BCDI11 distribuiu R$ 1,20 por cota de forma consistente. Seu dividend yield atualmente está em 12,7%. Os cotistas que ingressaram no FI-Infra por meio da oferta de abril receberam R$ 0,30 por papel, devido ao período diferente de exposição aos ativos da carteira.
Para Bolfoni, a consistência no pagamento dos dividendos deve ajudar o fundo na percepção de valor para os investidores frente a maior preocupação da casa com a listagem: a volatilidade da cota.
Na avaliação da gestora, essa dinâmica costuma gerar confusão entre investidores.
Uma cota negociada com desconto no preço nem sempre reflete piora ou má qualidade nos créditos da carteira.
Muitas vezes, é apenas o reflexo da precificação das debêntures, que também sofrem pressão vendedora ou compradora nas negociações entre investidores no mercado secundário.
Para Tiago Lima, diretor de distribuição da BTG Asset, essa assimetria de preço deve ser vista como uma oportunidade, desde que o fundo tenha bons fundamentos. "Quanto menor [o preço da] cota, maior o prêmio para o investidor", afirma.
A tese do BTG é que, com o tempo, o investidor passe a olhar menos para as oscilações diárias da tela e mais para a capacidade de geração de renda do portfólio.
Se o patrimônio do fundo continuar crescendo e os dividendos seguirem pingando na conta do cotista, uma eventual distância entre o valor patrimonial e o preço da cota pode deixar de ser um problema e passar a ser natural — como, de fato, é.
Atualmente, o BDIF11 vive essa situação na bolsa. Seu valor patrimonial é de R$ 79 e sua cota está sendo negociada a R$ 70. Para o investidor que entra agora, essa diferença se torna potencial retorno. A taxa patrimonial do fundo é de IPCA + 9,98%, com o desconto sobe para IPCA + 13,69%.
Esse desconto é resultado do momento do mercado de crédito. Para o BTG, foi um bom argumento para se listar.
Ao levar o fundo para a bolsa em um momento de taxas um pouco melhores, juros ainda elevados e descontos em parte da indústria, a gestora aposta que a renda mensal, a isenção de IR e o CDI em dois dígitos serão ingredientes suficientes para atrair os investidores.
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